ONU. Covid-19   pode trazer fomes   de “proporções bíblicas”

ONU. Covid-19 pode trazer fomes de “proporções bíblicas”


“Estes países podem ter que enfrentar” uma escolha “dilacerante entre salvar vidas, ou no pior cenário possível, salvar as pessoas do coronavírus para vê-las a morrer de fome”, aponta o relatório.


Num mundo já faminto, a tempestade trazida pela covid-19 arrisca elevar os números de pessoas que sofrem de fome extrema para uma catástrofe de “proporções bíblicas”, alertam as Nações Unidas, com a doença a colocar mais 130 milhões de pessoas nessa situação.

“O número de pessoas que lutam contra a fome aguda e sofrem de desnutrição está em ascensão mais uma vez. Em muitos lugares, ainda não temos a capacidade de recolher dados confiáveis e oportunos para realmente conhecer a magnitude e a gravidade das crises alimentares que envolvem populações vulneráveis”, disse António Guterres.

O relatório estima que o número de pessoas a sofrer de fome este ano possa quase duplicar em relação ao ano passado, de 135 milhões (o mais alto desde que as Nações Unidas começaram a publicar este documento) para 250 milhões. E os países onde o risco é maior são aqueles que atravessam conflitos armados, os mais afetados pelas alterações climáticas ou os que vivem uma crise económica.

O relatório das Nações Unidas – Global Food Crises – elenca dez países em que esta situação poderá desencadear cenários de fome mais terríveis: Afeganistão, República Democrática do Congo, Etiópia, Haiti, Sudão do Sul, Síria e Nigéria. O diretor do Programa Alimentar Mundial, David Beasley, disse esta terça-feira que só nestes países já existem mais de um milhão de pessoas à beira da fome.

“Estes países podem ter que enfrentar” uma escolha “dilacerante entre salvar vidas, ou no pior cenário possível, salvar as pessoas do coronavírus para vê-las a morrer de fome”, aponta o relatório.

Se a situação antes já era dramática, o aparecimento e alastramento do coronavírus trouxe uma tempestade perfeita, podendo criar uma catástrofe humanitária nunca antes vista. “Não estamos a falar de pessoas que vão dormir com fome”, disse Beasley ao Guardian. “Estamos a falar de condições extremas, de estatuto de emergência – pessoas literalmente marchando à beira da fome. Se não conseguirmos comida para elas, vão morrer”.

Se adicionarmos a estas os 821 milhões de pessoas que sofrem de fome crónica, o documento demonstra que o mundo pode chegar a um número ainda mais aterrador: mil milhões de pessoas.

Mesmo antes de a pandemia ter começado a devastar o mundo, partes do Leste de África do Sul da Ásia já enfrentavam a escassez de alimentos provocada pelas secas extremas e as piores pragas de gafanhotos em décadas. 

Dirigindo-se ao Conselho de Segurança das Nações Unidas numa videoconferência, Beasley instou os líderes mundiais a “agir com sabedoria e a agir rapidamente”. “Podemos enfrentar múltiplas fomes de proporções bíblicas num espaço de poucos meses”, disse, citado pela BBC. “A verdade é que não temos o tempo do nosso lado”. Mas ainda acredita que, caso haja vontade política para agir, exista margem de manobra para que “a pandemia da covid-19 não se torne uma catástrofe”, pois diz ter os meios, as parcerias e os instrumentos necessários para evitar o pior.