Eu e Jesus


Jesus é um homem simples. Muito esperto.Abre-se pouco. Às vezes temos de adivinhar o que quer dizer. É genuíno e frontal.


© Hugo Delgado/Lusa

Não sou católico e por isso esta crónica não tem que ver com fé. Ou tem que ver com outro tipo de fé: a crença numa pessoa.

Quando Jorge Jesus trocou Braga pelo Estádio da Luz, disse aos meus amigos benfiquistas que ele iria romper o ciclo de derrotas e fazer história. Eles torceram o nariz. Era um homem que só treinara equipas secundárias, diziam. O que os benfiquistas queriam verdadeiramente era o regresso de Ericksson.

Agora que o português igualou o sueco, conquistando o bicampeonato e o seu terceiro título de campeão na Luz, é fácil desejar a sua continuidade. Difícil foi desejar a sua vinda, e sobretudo não perder a fé depois do ano em que, em 15 dias, Jesus perdeu tudo: campeonato, Taça de Portugal e Liga Europa. Até lhe cuspiram na cara.

Almoçámos depois dessa derrocada e não o encontrei abatido. Perguntei-lhe se iria sair e respondeu-me que desejava ficar. E acrescentou: “Quero sair do Benfica pela porta grande, depois de ganhar.” Não o contraditei – mas não acreditei que fosse possível. Depois de uma equipa perder um campeonato nos últimos segundos não é fácil estar no ano seguinte outra vez na disputa do título. E o FC Porto parecia invencível. Mas Jesus conseguiu o milagre. Ganhou. E no ano seguinte – este – voltou a ganhar. É obra!

Conheci Jorge Jesus quando ele treinava o Belenenses, o meu clube do coração, mas aí nunca nos falámos. Só nos conhecemos mais tarde, já ele estava no Benfica. Telefonou-me um dia um seu amigo, o advogado Luís Miguel Henrique, convidando-me para um almoço com Jesus. Aceitei com gosto. Estranhei o restaurante escolhido: o Olivier Avenida. Um restaurante de nouvelle cuisine? – interroguei-me. Percebi que a sugestão também não fora de Jorge Jesus quando ele disse à empregada, já à mesa, que queria “um peixinho”. Jesus só come peixe. E raramente bebe vinho. A empregada respondeu que peixe não havia. Eu sugeri bacalhau. Lá veio então o bacalhau, mas apresentado de um modo que nem se percebia o que era. No almoço seguinte fomos ao Solar dos Presuntos – onde Jesus já se sentia como peixe na água. E depois levei-o várias vezes ao 8.18, um restaurante propriedade do semanário SOL. A última delas foi com o médico Eduardo Barroso, ferrenho sportinguista, e com o benfiquista Manuel Boto.

Jesus é um homem simples. Muito esperto. Abre-se pouco. Às vezes temos de adivinhar o que ele quer dizer. Confidencia-me que há truques que não conta a ninguém, nem aos seus próprios adjuntos. “São coisas que inventei, segredos meus.” É genuíno e frontal: recentemente, quando eu fazia uma crítica a Lopetegui, disparou-me: “O Lopetegui é um homem corajoso!” Ontem à noite, quando lhe perguntaram a quem dedicava o título, respondeu algo como: “Aos adeptos do Benfica e aos meus amigos que não são do Benfica mas que eu converti.” Senti-me um dos destinatários da mensagem. De facto, sou um dos “convertidos”. Momentos antes tinha-lhe enviado um sms dizendo: “Sinto-me feliz por sempre ter acreditado em si.” Mas ele já o sabia.

Eu e Jesus


Jesus é um homem simples. Muito esperto.Abre-se pouco. Às vezes temos de adivinhar o que quer dizer. É genuíno e frontal.


© Hugo Delgado/Lusa

Não sou católico e por isso esta crónica não tem que ver com fé. Ou tem que ver com outro tipo de fé: a crença numa pessoa.

Quando Jorge Jesus trocou Braga pelo Estádio da Luz, disse aos meus amigos benfiquistas que ele iria romper o ciclo de derrotas e fazer história. Eles torceram o nariz. Era um homem que só treinara equipas secundárias, diziam. O que os benfiquistas queriam verdadeiramente era o regresso de Ericksson.

Agora que o português igualou o sueco, conquistando o bicampeonato e o seu terceiro título de campeão na Luz, é fácil desejar a sua continuidade. Difícil foi desejar a sua vinda, e sobretudo não perder a fé depois do ano em que, em 15 dias, Jesus perdeu tudo: campeonato, Taça de Portugal e Liga Europa. Até lhe cuspiram na cara.

Almoçámos depois dessa derrocada e não o encontrei abatido. Perguntei-lhe se iria sair e respondeu-me que desejava ficar. E acrescentou: “Quero sair do Benfica pela porta grande, depois de ganhar.” Não o contraditei – mas não acreditei que fosse possível. Depois de uma equipa perder um campeonato nos últimos segundos não é fácil estar no ano seguinte outra vez na disputa do título. E o FC Porto parecia invencível. Mas Jesus conseguiu o milagre. Ganhou. E no ano seguinte – este – voltou a ganhar. É obra!

Conheci Jorge Jesus quando ele treinava o Belenenses, o meu clube do coração, mas aí nunca nos falámos. Só nos conhecemos mais tarde, já ele estava no Benfica. Telefonou-me um dia um seu amigo, o advogado Luís Miguel Henrique, convidando-me para um almoço com Jesus. Aceitei com gosto. Estranhei o restaurante escolhido: o Olivier Avenida. Um restaurante de nouvelle cuisine? – interroguei-me. Percebi que a sugestão também não fora de Jorge Jesus quando ele disse à empregada, já à mesa, que queria “um peixinho”. Jesus só come peixe. E raramente bebe vinho. A empregada respondeu que peixe não havia. Eu sugeri bacalhau. Lá veio então o bacalhau, mas apresentado de um modo que nem se percebia o que era. No almoço seguinte fomos ao Solar dos Presuntos – onde Jesus já se sentia como peixe na água. E depois levei-o várias vezes ao 8.18, um restaurante propriedade do semanário SOL. A última delas foi com o médico Eduardo Barroso, ferrenho sportinguista, e com o benfiquista Manuel Boto.

Jesus é um homem simples. Muito esperto. Abre-se pouco. Às vezes temos de adivinhar o que ele quer dizer. Confidencia-me que há truques que não conta a ninguém, nem aos seus próprios adjuntos. “São coisas que inventei, segredos meus.” É genuíno e frontal: recentemente, quando eu fazia uma crítica a Lopetegui, disparou-me: “O Lopetegui é um homem corajoso!” Ontem à noite, quando lhe perguntaram a quem dedicava o título, respondeu algo como: “Aos adeptos do Benfica e aos meus amigos que não são do Benfica mas que eu converti.” Senti-me um dos destinatários da mensagem. De facto, sou um dos “convertidos”. Momentos antes tinha-lhe enviado um sms dizendo: “Sinto-me feliz por sempre ter acreditado em si.” Mas ele já o sabia.