15/04/2024
 
 

Primavera moscovita

Dois anos volvidos sobre o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, os dois contendores, face às realidades da guerra, estão em processo de aproximação, nominal e metodológica.

O Kremlin abandonou o eufemismo “operação militar especial” e admite estar em guerra. Kiev, depois de ter atrasado a “contra-ofensiva”, anunciada para a Primavera do ano passado e falhada já perto do Outono, está a copiar os métodos russos, construindo centenas de quilómetros de trincheiras, fossos anti-carro, dentes de dragão, campos minados, tudo protegido por posições móveis de artilharia orientáveis para aparentes falhas defensivas por onde esperam que o inimigo tente penetrar. O conflito evoluiu para uma guerra de trincheiras, aparentemente sem probabilidade de grandes alterações no território controlado por cada uma das Partes.

Uma das possibilidades de evolução do conflito sempre foi a sua involução, a transformação em conflito congelado, com estabilização das novas fronteiras e redução significativa do número de baixas de parte a parte. O arrefecimento da intensidade do conflito traria um outro benefício capital: não havendo um vencedor claro, o vencido não precisaria de escalar o recurso às armas disponíveis, as nucleares para os russos, os exércitos dos Estados-membros da NATO para os ucranianos.

A redução da tensão não irá conduzir no imediato ao início de negociações. Kiev vai manter um objecção de princípio à troca de territórios por paz, incluindo nessa indisponibilidade a Crimeia. Moscovo aguarda pacientemente pelo dia 5 de Novembro e pelos resultados das presidenciais nos EUA. Um regresso de Trump à Casa Branca marcará o fim do apoio de Washington a Kiev. Muito dificilmente a União Europeia (UE) conseguirá substituir os EUA como fornecedores de armas, munições, treino e intelligence. O tacticismo de Putin fá-lo aguardar por um novo Presidente nos EUA, não arriscando uma ofensiva de Primavera, anunciada pelos que vêem nas actuais dificuldades ucranianas em matéria de armas e munições uma oportunidade a ser explorada pelos exércitos russos.

Pela UE as possibilidades de divisão são reais, com dois Estados (Hungria e Eslováquia) que não se revêem nas sanções a aplicar a Moscovo, vários Estados que querem aumentar significativamente o apoio militar a Kiev (Polónia, Bálticos, Dinamarca) e muitos cujas populações começam a desinteressar-se do conflito. Esta divisão transfere-se para o âmbito da NATO com a escolha do próximo Secretário Geral a dividir os apoiantes do ainda Primeiro Ministro holandês, maioritariamente localizados a Oeste, e os apoiantes do Presidente romeno, a Leste. Este segundo grupo mistura Estados com agendas antagónicas: os que defendem uma posição de abertura à negociação com Moscovo no que respeita à Ucrânia e os que querem escalar o conflito por procuração com a Federação Russa e que gostariam de ver como SG NATO uma personalidade proveniente do Leste da Europa.

Uma abertura negocial entre Moscovo e Kiev não começará por negociações directas, resultará de uma tarefa de mediação conducente à obtenção de um cessar fogo, antecedido de medidas de construção de confiança como são as trocas de prisioneiros de guerra. Erdogan já ensaiou este papel, mas tem em mãos vários conflitos de interesse que tornam difícil surgir como um honest broker aos olhos das duas partes em conflito. E Erdogan tem outras solicitações, quer internas (eleições autárquicas no dia 31 de Março), quer externas (o conflito na Palestina em que procura surgir como líder regional capaz de obter um cessar fogo).

 

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