Juros voltam a subir em maio

Juros voltam a subir em maio


Opiniões dos especialistas dividem-se, entre  0,25 e 0,5%, mas qualquer que seja a solução vai penalizar quem tem crédito à habitação. Simulações mostram subidas de 100 euros. 


O cerco vai voltar a apertar já no próximo dia 4 de maio. O Banco Central Europeu (BCE) irá aumentar novamente as taxas de juro, mas as opiniões dividem-se junto dos especialistas contactados pelo Nascer do SOL. Há quem seja mais otimista, e aponte para uma subida de 0,25%, mas há quem arrisque os 0,5%. O certo é que irá tornar o crédito mais caro, aumentando por exemplo o valor das prestações mensais das hipotecas. Uma situação que também terá reflexos em quem está a pensar em pedir empréstimos.

E os dados não são animadores. As simulações feitas pela plataforma ComparaJá.pt, as prestações poderão subir mais de 100 euros em relação ao início do ano, mas a diferença ainda é mais significativa se recuarmos um ano (ver simulações). 

Paulo Rosa, economista do Banco Carregosa, aposta no primeiro cenário mais otimista de 0,25%, afirmando que «atualmente, a probabilidade de isso acontecer é de 90%, colocando a taxa de juro dos depósitos nos 3,25%». No entanto, admite que «há também uma probabilidade de 10% de a alta do BCE ser mais arrojada e chegar aos 50 pontos base». E lembra que, na Alemanha, a principal economia da Zona Euro e um cabal barómetro para a evolução da política monetária do BCE, a inflação mantém-se ainda resiliente, tendo o índice de preços no consumidor (IPC) desacelerado pouco e o IPC core (que exclui alimentação e energia) fixou um novo máximo histórico de 5,9% em março, impulsionado pela generalização da inflação a toda a economia, sobretudo aos serviços nos últimos meses, depois de ter acelerado há um ano pelos efeitos nefastos da guerra na Ucrânia. 

«No entanto, o substancial abrandamento da inflação no produtor (IPP) na Alemanha para 7,5% em março, após ter atingido 45,8% em agosto do ano passado, promete inverter a tendência de alta da inflação germânica e trazê-la de volta aos 2%. Sendo assim, o BCE deveria repensar mais subidas», refere ao nosso jornal, afirmando ainda que «na Zona Euro a inflação sempre foi quase exclusivamente do lado da oferta e impulsionada pela guerra na Ucrânia».
Um comportamento que leva o economista a chamar a atenção para o facto de o banco central estar a fazer o seu trabalho, mas admite que se arrisca «visivelmente a condenar a economia da Zona Euro a uma recessão nos próximos trimestres e a um crescimento anémico nos próximos anos», afirmando também que os «decisores políticos da Zona não parecem muito preocupados com uma recessão, aparentando também alguma tranquilidade quanto à inflação, não tendo sido visível e evidente o esforço e o empenho dos governos e restantes autoridades no combate aos carteis e açambarcamentos». E dá cartão vermelho ao comportamento por parte da entidade liderada por parte de Christine Lagarde. «Decididamente, não se enfrenta uma inflação, sobretudo do lado da oferta, apenas com a alta dos juros, tendo também as restantes autoridades um papel muito importante para travar a alta dos preços. Ou seja, a elevada inflação parece ter agradado a todos os governos europeus. A maior propensão à poupança das populações do norte da Europa tem beneficiado com taxas de juro mais elevadas e os rácios da dívida pública dos endividados governos dos países do sul da Europa têm sido favorecidos com a elevada inflação». 

Mais pessimista está Ricardo Evangelista, analista da ActivTrades, ao afirmar que se «espera o repetir da mensagem de que a inflação continua a preocupar, sobretudo a core que exclui os preços da energia e alimentação, justificando-se assim mais uma subida dos juros». E explica esta tendência, apesar de dar sinais de abrandamento, os valores que excluem os preços da energia e alimentação atingiram um nível recorde em março. 

Para já, estima uma subida de 50 pontos base. Mas não deverá ficar por aqui. De acordo com o responsável, está prevista mais duas subidas nos próximos meses: 25 pontos base em junho e outro tanto em julho.

O mesmo cenário de subida de 0,5% é apontado pelos analistas da XTB, Henrique Tomé e Vitor Madeira e de uma subida adicional de 25 pontos base na próxima reunião de 15 junho. «Adicionalmente, também é esperado que o banco central continue com a sua política de aperto monetário com o quantitative tightening, ou seja reduzindo os seus ativos do balanço».

Também Paulo Rosa diz que o mercado monetário antecipa mais uma alta de 25 pontos na reunião de 15 de junho, fixando a taxa dos depósitos nos 3,%, sendo a probabilidade de isso acontecer de 80%, contra uma probabilidade de 20% de os juros permanecerem inalterados na reunião de junho. No entanto, a taxa terminal é atualmente de 3,65%, devendo acontecer, segundo o mercado monetário, depois do verão, na reunião de outubro. 

Impacto nas famílias

Em relação ao impacto, Ricardo Evangelista não tem dúvidas. «Far-se-á sentir através de uma subida no custo do crédito. Quem tiver empréstimos, como hipotecas, com taxas variáveis, irá sentir um agravamento das prestações devido a subidas das taxas Euribor, que normalmente acompanham as das taxas de referência do BCE».

Uma opinião partilhada por Paulo Rosa ao admitir que a alta das taxas de juro vai continuar a deteriorar substancialmente o rendimento disponível das famílias, prometendo penalizar também o crescimento económico devido à retração do consumo privado. «O crescimento da economia portuguesa está cada vez mais dependente do turismo e do emprego. O bom desempenho do mercado de trabalho, existindo quase cinco milhões de pessoas a trabalhar em Portugal, tem contribuído para o aumento do PIB», salientou. O mercado espera uma nova subida de 50 pontos base para 4 de maio e de uma subida adicional de 25 pontos base na próxima reunião de 15 junho.

Os analistas Henrique Tomé e Vitor Madeira admitem que a trajetória dos juros poderá também mudar se a inflação começar a abrandar mais do que se prevê. No entanto, para quem tem crédito refere que o impacto poderá ser sentido por várias vias. «No caso das famílias endividadas isto será um problema porque vai aumentar as suas despesas com créditos indexados a taxas de juro variáveis. Este impacto da subida das taxas de juro também terá efeito nas empresas portuguesas que recorrem ao crédito com taxas de juro variável ou dificultar a aquisição de crédito adicional, fazendo aumentar as despesas, e assim, dificultar a subida de salários ou contratar mais pessoal», mas lembram que «estas medidas são necessárias para que as pressões sobre os preços possam começar efetivamente a diminuir, por via da diminuição do consumo e atividade económica»