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Joana Mortágua 27/10/2022 09:15
Joana Mortágua
Cronista

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O monstro por si próprio

Desejo melhor sorte ao Brasil, onde aos 92 anos Fernando Henrique Cardoso deu uma das lições mais importantes da sua vida.

“Recomenda-se a quem for ler esse “poema dos horrores” que esteja acompanhado de um médico e de uma liderança religiosa, seja ela de qualquer credo, porque o texto abaixo pode trazer efeitos colaterais como náusea, taquicardia, dores no peito, diarreia, dores no fígado, febre, síndrome do pânico e sensação de presença de espíritos ruins.” – Assim começa o “Poema dos Horrores”, um compêndio de barbaridades misóginas, racistas, fascistas, ou simplesmente barbaridades, reunidas por Walter Casagrande Jr. na Folha de S. Paulo. Autor: Jair Messias Bolsonaro.

Hoje recorro ao próprio para denunciar a hipocrisia da direita que se esconde atrás de uma impossível “neutralidade” nas eleições do próximo dia 30. Temo-los por cá de sobra, talvez até mais do que no Brasil, onde a sobriedade intelectual de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Simone Tebet (MDB), entre outros, se revelou bem mais sensata do que as posições assumidas pela Iniciativa Liberal, pelo PSD e por outras figuras destacadas da “direita democrática”, como Cecília Meireles (ex-deputada do CDS, não confundir).

Uns em nome da não ingerência nos assuntos internos de outros país, coisa que nunca esteve em causa e aliás não se lhes ocorreu quando celebraram abundantemente o impeachment de Dilma ou a prisão de Lula; outras porque se recusam a escolher entre um “boçal” e um “ladrão” (escondendo que já tinham feito a mesma escolha quando o candidato era Fernando Haddad) - ao não dizer claramente que a eleição de Bolsonaro seria uma tragédia para o país e para o mundo, a direita portuguesa tomou uma posição: preferiu o sectarismo à democracia. 

André Ventura agradece. Como apoiante assumido de Bolsonaro, Ventura sabe perfeitamente que a principal característica do presidente brasileiro não é a falta de educação. Se assim fosse, a nova postura polida de Bolsonaro na segunda volta poderia ter desenvergonhado o apoio da direita que se chama a si própria democrática (como Cecília Meireles): vejam bem como já nem chama vagabunda às jornalistas com quem se cruza.

O que as elites brasileiras aprenderam a duras custas é que a principal característica de Bolsonaro é ser golpista. Claro que também é racista, misógino, machista, homofóbico, negacionista, violento… e é por tudo isso que a sua candidatura é uma ameaça real á democracia brasileira. 

“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí.”

“Fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Nem para procriar serve mais.”

“Não te estupro porque você não merece.”

“Sou capitão do exército. Minha missão é matar.”

“O erro da ditadura foi torturar e não matar.”

“Pinochet deveria ter matado mais gente.”

“No período da ditadura, deveriam ter fuzilado uns 30 mil corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.”

“Desaparecidos no Araguaia? Quem procura osso é cachorro.”

Autor: Jair Messias Bolsonaro. 

O homem que por se ter tornado presidente é responsável por mais do que versos: é responsável pelo mundo de horrores que eles anunciam: por mais do que um genocidio (o da Covid e o do povo indígena), por crimes contra o ambiente e a humanidade (a Amazónia e não só) e por ataques constante às instituições que representam o Estado de Direito no Brasil.

É neste homem que a direita portuguesa é incapaz de dizer: “não votaria”.

A direita quer normalizar o monstro, e ele fará dela a sua primeira vítima. Desejo melhor sorte ao Brasil, onde aos 92 anos Fernando Henrique Cardoso deu uma das lições mais importantes da sua vida: “Neste segundo turno estou votando em uma história de luta pela democracia e inclusão social”.

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