29/06/2022
 
 
Paul Éluard. Rastejar à flor de todos os horizontes

Paul Éluard. Rastejar à flor de todos os horizontes

Diogo Vaz Pinto 13/06/2022 12:54

Uma nova antologia poética do período surrealista de Paul Éluard, com selecção e tradução de Regina Guimarães, obriga-nos a retomar o confronto com o regime prisional em que vivemos e a dieta de realidade a que nos submetem por razões de saúde.

Os sonhos hão-de ter consequências, tal como a imaginação e o desejo. De outro modo, e de tanto rebaixar a vida, o homem já não acede às fontes, nem lhes escuta o murmúrio como uma mágoa sopesada pelo que há de mais fundo em si, essa água capaz de reflectir na perfeição qualquer outro rosto. A transformação ou mudança ocorre porque o homem passa a relacionar-se intimamente com uma projecção qualquer, e a realidade sente-se intimada a comparecer a esse encontro. Como nos explica Octavio Paz, o surrealismo não partiu de uma teoria da realidade ou sequer de uma doutrina da liberdade, mas de um exercício concreto e livre, ou seja, ousou pôr em acção a livre disposição do homem num corpo a corpo com o real. “Desde o princípio a concepção surrealista não distingue entre conhecimento poético da realidade e a sua transformação: conhecer é um acto que transforma aquilo que se conhece.” Neste quadro, a actividade poética volta a ser uma operação mágica, adianta o poeta e ensaísta. “Quando as pessoas começam a imaginar um mundo diferente, é natural que o mundo mude”, foi a frase destacada de Luís Trindade, aquela que se lia no título de uma entrevista que o professor de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa concedeu recentemente ao “Público” e que foi amplamente divulgada. As pessoas dizem estas coisas e depois parece que se desentendem com elas, e não alcançam a profundidade do seu sentido. E isto porque a imoralidade crucial da época que vivemos se prende com a forma como esta atinge a soberania das nossas noções espirituais.

Este admirável mundo novo finge-se alheado em todos os aspectos das antigas tradições do conhecimento, entregue a um acelerado movimento em direcção a uma barbárie sem paralelo na história, pois ao invés de caracterizar um estado anterior à civilização é já o outro extremo, um mundo sintetizado pela técnica, essa utopia que parece, no limite, prescindir da própria humanidade. Em certo sentido, parece que cessaram “as aventuras do rosto humano”, e a expressão que resta é meramente confusa, efusiva num segundo para no seguinte se quebrar como uma máscara e revelar-se um absoluto desamparo. Sucedem-se os “gritos sem ecos, sinais de morte, tempos fora de memória”. A vida parece incapaz de registo; vivemos existências devolutas, devorando reflexos informes, deixando à nossa passagem “carcaças de conhecimentos, carcaças de asnos”. As esperanças de outrora parecem abolidas, o próprio destino e a noção de uma relação livre entre os homens foi-se vendo coberta de desprezo… “Os astros estão na água a beleza já não tem sombras”. O tempo imprime-se hoje de forma totalitária tanto mais quanto parece algo anárquico, desprovido de nexo. Por isso, a única sensação de se tirar algum proveito dos dias vem desses momentos que parecem desalojados, como que fora do tempo.

Comparecem enquanto elementos contundentes deste diagnóstico alguns versos de Paul Éluard, poeta que viu como os rostos podiam reduzir-se a “migalhas de anseios”, num regime em que está aberta “a caça aos enforcados a pesca aos afogados”. Parece também sinalizar a dificuldade que há em levar-se o que reconhecemos como verdade a sério, vendo passar “a verdade com o seu interminável cortejo/ de evidências pueris”. Destaque-se o título bastante longo de um dos seus poemas: “Boas e más-línguas afirmam que o mal está bem feito. Assim, o falso, o negativo obrigam a odiar-se”. A sua obra está cheia de avisos, desses que persistem mesmo depois do desastre, tornando-se ruínas aflitivas: “Cólera mel a definhar”, é um deles. Esse entendimento de como o pior na raiva é a perda do encanto pelas coisas. E estes: “Fechámos as portadas/ As árvores não mais se elevarão/ Não mais se vasculhará a terra/ Não seremos desenterrados// Já não há profundezas/ Nem superfícies.”

E voltamos a ele graças a uma nova antologia da sua obra, a qual se cinge ao período entre 1916-1936, ou seja, antes de o poeta francês que esteve entre os iniciadores do surrealismo se ter afastado deste movimento. Com selecção e tradução de Regina Guimarães, “O Homem Inacabado” traz-nos um conjunto de poemas impregnados ainda de uma mensagem capaz de livrar-se do efeito de defunção com que hoje se encara o surrealismo, como se essa aventura estivesse encerrada. “Estamos reunidos para além do passado”, parecem gritar estes poemas, recusando-se a ser alvo do culto amorfo que se ergue em torno dos digníssimos cadáveres históricos.

Mas leia-se o resto do poema que conclui com esse verso e que se chama “Minha Vivente: “Ainda não embandeirei suficientemente/ O ver e o azul perderam a cabeça/ Toda a paisagem é ofuscante/ Entre os teus dois braços mundo sem cor/ O teu corpo toma a forma das chamas// A mexer na terra/ E no seu cheiro de rosa extinta/ Mãos corajosas eu trabalho/ Para uma noite que não é a última/ Mas seguramente a primeira sem terrores/ Sem ignorância sem cansaço// Uma noite parecida com um dia sem trabalho/ E sem tormentos e sem asco/ Toda uma vida toda a vida/ Ouve-me bem/ As tuas mãos estão tão quentes uma como a outra/ És como a natureza/ Sem amanhã// Estamos reunidos para além do passado.”

Ainda que se deseje encarar o surrealismo como uma fogueira hoje extinta, muitos continuaram a mergulhar as mãos nas suas cinzas a sentir como estas nos aquecem os ossos e acendem a nossa imaginação, para usar a imagem de Octavio Paz. O facto é que o surrealismo foi o último movimento que, tendo a poesia e a literatura como formas de se manifestar, se apresentou como uma revolução e uma ruptura. E Paz admite que terá sido mesmo a última grande ruptura nessa história de sucessivas rupturas que caracteriza a poesia moderna. “Tudo o que veio depois não foram mais que combinações e recriações”, adianta. Além disso, mais do que uma inflexão ou uma nova atitude artística, este veio a reconhecer-se como uma tradição. “Nos primeiros tempos esta noção quase rompeu de forma inadvertida, mas André Breton não tardou a dar-se conta dela e assumiu-a com valerosa lucidez”, lembra Paz.

Este poeta mexicano que contactou com os membros do grupo original em Paris diz ter-se apercebido do que unia aquele movimento às seitas gnósticas dos primeiros séculos, ao hermetismo neoplatónico do Renascimento e à intricada e poderosa rede subterrânea do iluminismo que atravessa os séculos XVIII e XIX. No entender de Paz, isto explica essa dupla vertente do surrealismo: “foi uma revolução, algo que começa, e uma tradição, algo que regressa”. E é também ele que caracteriza esses “graves críticos” que hoje se debruçam sobre aquele advento espantoso e, comportando-se como coveiros profissionais, se apressam a enterrá-lo e a garantir que se trata de um movimento do passado. “A sua acta de defunção havia sido estendida, não sem prazer, pelos notários do espírito. Para descanso de todos, o surrealismo dormia já o sonho eterno de outras escolas de princípios do século: futurismo, cubismo, imaginismo, dadaísmo, ultraísmo, etcétera. Bastava, pois que o historiador da literatura pronunciasse o seu pequeno eleogio fúnebre para que, já tranquilos, voltássemos às nossas ocupações diárias. O maravilhoso quotidiano estava morto. Na realidade, nunca tinha existido. Apenas existia o quotidiano: a moral do trabalho, o ‘ganharás o pão com o suor do teu rosto’ o mundo sólido do humanismo clássico e da prodigiosa ciência atómica.”

Acontece que a natureza humana permanece insatisfeita. O homem é ainda essa criação inacabada, e nele persistem a imaginação e o desejo, talvez mais degradados e até num grau mais incipiente, afastado da sua natureza agressiva, dessa arrogância capaz de se mostrar de tal modo selvagem que dissuada qualquer tentativa de o capturar e vergar. Talvez nunca tenhamos estado tão alinhados com a religião do conformismo, mas o certo é que vão surgindo sinais de um renovado desejo de destruir tudo, de dar origem a uma rebelião total que faça tábua rasa da civilização racionalista que faz do homem apenas uma peça num feixe de estruturas que humilham qualquer perspectiva de uma existência aventurosa. Tem ficado claro, por vezes da forma mais grotesca nas manifestações populares, que a casa construída pela civilização ocidental começa a parecer-se cada vez mais com uma prisão, um labirinto sangrento ou um matador colectivo, isto nas palavras de Octavio Paz. “A vida recusa-se/ Os olhos ninguém os pode vazar/ Beber seu brilho nem suas lágrimas/ O sangue acima deles só para si triunfa/ Intratável desmedida/ Inútil/ Esta saúde edifica uma prisão”, isto nas palavras de Éluard. E não é estranho, portanto, que se recusem as evidências científicas, que a própria noção de realidade tenha entrado em crise, e que cada vez ganhe maior expressão o número desses que simplesmente anseiam por uma saída. Se uma não for encontrada, haverá motins, conflitos civis despontando por disputas aparentemente espúrias, mas que revelam, no fundo, uma incapacidade de coincidir com um mundo onde as necessidades do espírito têm sido amesquinhadas e negadas. E o certo é que o “cadáver” do surrealismo continua a lutar contra este imenso caixão onde fomos todos enterrados vivos. A sua insurreição foi desde sempre contra um certo “realismo” cada vez mais estreito e intolerável que a nossa sociedade nos impõe. Assim, como vinca Octavio Paz, “ao mundo de robots da sociedade contemporânea, o surrealismo opõe os fantasmas do desejo, que se mostram dispostos sempre a encarnar num rosto de mulher”.

E é aqui que entra a poesia de Éluard, especificamente aquela que escreveu enquanto se manteve fiel a essa aspiração de transformar a realidade, estando dedicada, segundo a tradutora, “às facetas irregulares do pensamento amoroso, e desdobrada em descrições das múltiplas roupagens do desejo”. Anteriormente, António Ramos Rosa, também seu tradutor, dizia-nos que esta é uma poesia em voz baixa, um murmúrio apaixonado e veemente, uma poesia interior do sonho e do desejo, que o poeta mistura livremente ao espaço do mundo real. “Nenhum outro poeta nos dá tão luminosamente a impressão de jamais sair do seu coração”, asseverava. Por sua vez, o crítico Jean Tortel fala na inspiração privilegiada de Éluard, que fez dele “o mais feiticeiro nos acasos, o mais singular na evidência”, acrescentando: “Ele canta no efémero para aí eternizar a sua voz. Ele fala sem ter nada que dizer e só diz o que quer dizer. É a grande voz branca deste século.”

De um lado temos a ideia de utilidade, a qual, segundo explica Paz, não é mais que a degradação moderna da noção de bem, do outro lado temos o amor. E Éluard bateu-se por essa forma de recusa, o amor como resolução e saída. “Só tenho vontade de te amar/ Uma tempestade enche o vale/ Um peixe enche o rio/ Fiz-te à medida da minha solidão./ O mundo inteiro para nos escondermos/ Dias e noites para nos compreendermos/ Para já nada ver nos teus olhos/ Além do que penso de ti/ E dum mundo à tua imagem/ E dos dias e das noites pautadas pelas tuas pálpebras.” O elo entre os amantes renova assim um pacto com uma outra ideia das forças que deviam presidir a construção da realidade em comum. Por isso o poeta escreve: “E o teu amor parece-se com o meu desejo perdido”.

Num mundo em que a nossa ideia de realidade está cada vez mais impregnada pela noção de utilidade, em que os entes e os objectos que o constituem se arrumam em categorias tão ridículas, em que o progresso nos leva a encarar o próprio mundo como um vasto utensílio, e nada escapa a esta relação – nem a natureza, nem os homens, nem a própria mulher –, tudo existe em função de algo que acaba por ser alheio à maioria de nós, e, por essa razão, as instituições da nossa sociedade, com o perverso regime burocrático através do qual se reforçam e nos esmagam, parecem-se com hospícios, nos quais todos nós vamos sendo admitidos e submetidos ao programa de requalificação enquanto instrumentos ao serviço de um mundo que foi convertido “numa gigantesca máquina que gira no vazio, alimentando-se sem cessar dos seus detritos” (Octavio Paz, uma vez mais). Nisto, o que o poeta enquanto espírito que salvaguarda a sua inocência, a sua capacidade de espanto, de horror, que não se habitua aos mecanismos da perversidade por mais que estes tenham impregnado a própria noção de realidade, o que o poeta nos diz é algo deste teor: “Constatou-se que se refugiaram nos ramos nus duma cortesia desesperada”. Até que os homens sejam degradados na sua condição e passem a actuar como um vírus, resta-lhes a fragilidade dos seres isolados, dos sacrificados, daqueles que se submetem à ausência de propósito e até a uma “morte sem consequência”. Ao menos isso: no fim, a morte poderia ao menos ser um acto de disposição singular e afirmante, mas, por agora, é apenas mais outro sintoma dessa abdicação geral. Era, de resto, esse o título do livro que Éluard publicou em 1924: “Morrer de não morrer”, e continha uma preciosa dedicatória: “Morro…/ Para simplificar tudo/ dedico este livro/ a André Breton”. É certamente uma das mais espantosas dedicatórias que conhecemos, desde logo pelo sinal de entrega, de confiança esplendente no juízo de um outro. É contra os gestos que se detêm antes de tempo, contra essa hipocrisia que tomou conta de tudo, que o poeta se submete a um auto-exame rigoroso: “De tudo o que disse de mim o que é que resta/ Guardei falsos tesouros em armários vazios/ Um navio inútil junta a minha infância ao meu tédio/ Os meus jogos ao cansaço”… E mostra como o impulso da crítica deve começar por si mesmo, e só então se expande ao redor: “Não se pensa na ignorância/ E a ignorância reina/ Sim eu esperei tudo/ E desesperei de tudo/ Da vida do amor do esquecimento do sono/ Das forças das fraquezas/ Já ninguém me conhece/ O meu nome e a minha sombra são lobos.”

Num dos textos incluídos nesta antologia (“Em Sociedade”), o poeta parece antever as fronteiras do erro para o qual resvalámos: “eis os cegos que não consentem em pôr o pé onde falta o degrau, eis os mudos que pensam com palavras, eis os surdos que mandam calar os ruídos do mundo”. Fala-nos ainda no “cálculo mais rasca” que faz com que os olhos quotidianamente se fechem. “Só favorecem o sono para depois mergulharem na contemplação das mãos laboriosas que nunca fizeram o mal e que se aborrecem e que aborrecem toda a gente. Odioso tráfico. Tudo isso vive: esse corpo paciente de insecto”…

Encontramos “o chão por toda a parte dividido”, e corpos mal apoiados nas suas sombras como em muletas, enquanto se cumprem as necessidades mais básicas, até a vida ser só isso, e acabar ela mesma um tráfico de ilusões adiadas ou esvaziadas de sentido. “Quanto mais avanço, mais a sombra cresce. Em breve estarei sitiado pelos seus monumentos destruídos e suas estátuas derrubadas (…) Agora só existe uma maneira de sair desta escuridão: ligar a minha ambição à miséria singela, viver toda a minha vida no primeiro escalão da noite, pouco acima de mim, próximo das aves nocturnas. Separado desta terra, desta sombra que me sepulta.”

Olhamos à volta, e nem somos capazes de interceder junto dos que nos são mais próximos. Tornamo-nos frágeis até no território da intimidade, a qual se vai dissipando, até não se poder salvar e nem sequer tocar o próprio filho. “Em lugar de uma filha, tenho um filho. Deu um tiro na cabeça, puseram-lhe um penso, mas esqueceram-se de lhe tirar o revólver. Voltou a fazer o mesmo. Estou à mesa com todas as pessoas que conheço. De repente, alguém que eu não vejo chega e diz-me: ‘O teu filho deu sete tiros na cabeça e não morreu.’ Só então um imenso desespero me invade, então desvio-me para que não me vejam chorar.”

Como já se referiu, nesta antologia comparecem apenas poemas escritos entre 1916 e 1936, ou seja, antes da ruptura com o surrealismo e com Breton, em 1938, num afastamento que se ficou por uma ferida silenciosa, um corte do qual Breton não se refez, tentando até ao fim chamá-lo de volta, mas Éluard tornara-se uma figura estratosférica, e não olhou mais para trás. Ensaiando o que poderia ser lido como uma defesa, no início do texto já acima referido (“Em Sociedade”), Éluard diz-nos isto: “Não me arrependo – mas só porque o arrependimento não é uma forma suficiente do desespero – do tempo em que eu era desconfiado, em que ainda esperava ter algum inimigo a vencer, alguma brecha a abrir na natureza humana, algum esconderijo sagrado. A desconfiança ainda era a paragem, o deleite na constatação do finito.” Seja como for, pode dizer-se que muitos dos seus versos parecem ter-se cumprido e sobrevivido mesmo aos escrúpulos ou aos remorsos que lhe faltaram, e enquanto um dos autores que melhor se soube valer dos instintos recobrados pelo surrealismo, pode dizer-se que colheu flores bem profundas, dessas que servem como provas de uma primavera autónoma e perpétua. Soube descobrir esse vislumbre como “a derradeira aflição à flor dum rosto transformado”. Por isso, foram dele momentos de fabulosa inspiração, e isso tem consequências, e é talvez o que levou a escrever um verso como este: “E tudo quanto dizes atrás de ti se agita.”

O desacordo de fundo deu-se quando o papa do surrealismo entender por fim que a vontade de emancipação mais ampla do homem e dos seus sentidos entrara num conflito insanável com a disciplina imposta aos seus membros pelo partido comunista. De qualquer modo, embora a participação de Éluard desde o início nas actividades do grupo, Breton lembraria que esta sempre foi um tanto reticente: “entre o surrealismo e a poesia, no sentido tradicional do termo, a finalidade desta última surge-lhe como muito mais clara, o que, do ponto de vista surrealista, constitui a heresia maior (como se a estética, que havíamos proscrito, se servisse dessa porta para voltar)”. Sem deixar de reconhecer ao antigo companheiro as qualidades sensíveis pelas quais a sua personalidade se impôs, Breton acusa-o de uma atitude retrógrada e de uma contradição formal com o fim último do movimento que haviam criado, pois Éluard haveria de abdicar da rebelião total e do desacato mais íntimo, desde logo desse esforço de desregramento dos sentidos, para se colocar em linha com a perspectiva do materialismo histórico, e tornar-se uma das celebridades daquele outro sistema que reivindicava “o monopólio da transformação social do mundo” mas que, no entender de Breton, ao invés de estarem comprometidos com a libertação do homem poderiam na verdade estar a condená-lo a uma escravidão ainda pior do que aquela em que já se encontrava. Mas depois Éluard tinha esse seu triunfo que cria uma espécie de cegueira, essa sua relação privilegiada com a simplicidade fulgurante dos versos que lembram o rapto amoroso: “A minha imaginação amorosa foi sempre suficientemente constante e suficientemente elevada para que ninguém ouse tentar convencer-me dos meus erros.” E não foram poucos. Mas o amor, mesmo se chega a tornar-se um equívoco quase sórdido, é talvez um dos aspectos do sonho que melhor soube ancorar-se na realidade, neste mundo doloroso, o que resiste até à última é essa perspectiva de encontro, essa relação cativante que nos tem a catar as priscas do acaso para saborear nelas essa outra boca fresca e feroz que, se por um momento pousasse na nossa, talvez nos restituísse à integridade, a de um corpo pesado de amor, capaz de nos aliviar até do sufoco a que nos condena uma existência mesquinha. Cada vez mais temos a sensação de que “o amor está no mundo para o mundo ser esquecido”, sendo impossível adequar um ao outro. Ora, dentro dessa rara aristocracia evasiva, Éluard cedo assumiu esse que é, de todos, um dos principais títulos de nobreza ainda ao dispor, o de ser considerado um dos grandes poetas do amor. Veja-se o poder sedutor e a quase sagrada simplicidade de se dizer isto: “Alfazema/ Toda a extensão da mulher”. O encantamento da sua poesia está na forma como “encandeia o amor suas sombras insurrectas”. Mesmo nas épocas mais desesperadas, quando este assunto, nos parece já praticamente encerrado, há um contingente constante de seres que mergulham nos seus arquivos, que o estudam e lhe repassam o rastro, para se medirem contra os grandes amantes, e mesmo quando mais tarde a experiência amorosa se revela humilhante, há quem tome nota de todo o mal que lhe foi feito. Éluard escreve isto: “E oponho ao amor/ As imagens já feitas/ Em lugar das imagens a fazer…” Não pode haver oposição mais dilacerante, provas mais irrefutáveis, e a dor vem de ser evidente como não nos resta já futuro para aguentar com a sombra e o eco da pulsação desse passado imenso que virá cobrar ainda tudo o que lhe é devido e a seu tempo foi ignorado. “na renda dos desaparecimentos/ O abismo desvendou-se os outros que o apaguem/ As sombras que crias não têm direito à noite.” Muitas vezes, esta é uma poesia que funciona melhor enquanto se mantém naquele registo oracular, adquirindo outros sentidos, como reconhece a tradutora, Regina Guimarães, que teve de se confrontar com essa margem de irradiação em que cabem sempre “outras tantas versões da ideia de obra, outras tantas aversões ao fecho da abóbada, outras tantas dúvidas quanto à fixação da matéria instável de que são feitos os versos”. As escolhas tornam-se decisivas quando o esforço passa por capturar “Todo o sol à face da terra/ Nos caminhos da tua beleza”. E se é tão proveitoso desenhar outros caminhos, separando versos mais salientes numa obra que parece convidar a um deslocamento e a uma renovação perpétua dos sentidos, por vezes há poemas, sobretudo esses de amor, em que a integridade merece todo o respeito. É ocaso do tão conhecido e citado poema “A Curva dos Teus Olhos”, ou deste excerto do livro “O Amor à Poesia” (1929): “Tão calma a pele cinzenta extinta calcinada/ Exaurida pela noite presa nas suas flores de geada/ Da luz só lhe restam as formas// Enamorada fica-he bem ser bela/ Não espera pela primavera./ O cansaço a noite o repouso o silêncio/ Todo um mundo vivo entre astros mortos/ A confinaça no poder durar/ É sempre visível quando ela ama”. E depois, desgarrados, há outros versos que colhemos no arranjo que cabe a cada leitor fazer: “O sono conserva o [s]eu molde (…) A sua cabeça adormece nas minhas mãos (…) E a minha cabeça rola nos sonhos dela.”

Para os surrealistas o amor era algo tão decisivo porque era na pessoa amada que se enlaçavam liberdade e necessidade. O amor, como frisa Octavio Paz, revela-nos a forma mais elevada da liberdade: “livre escolha da necessidade”. Por sua vez, Mário Cesariny lembra que, “como no acto mais vital, o do amor, o surrealismo nasce do ensaio de fusão de duas mentes adultas e individuadas em estado de delírio voluntário, trazido pela primeira vez ao mundo ocidental nas páginas de ‘Les champs magnétiques’, de Breton e Soupault, escritas ainda na época dadá e publicadas em 1920. Mais tarde repetirá com extraordinário fulgor poético o mesmo feito, levando-o mais longe, levando-o a ensaios de simulação de estados patológicos psiquiatricamente só reconhecíveis nos ‘verdadeiros doentes’ mentais: debilidade, mania aguda, paralisia geral, delírio de interpretação e demência precoce. O poder da paixão, da imaginação, do desejo aniquilador dos universos de categorias e perseguindo não ‘a igualdade dos contrários’ mas a sua fusão fecundadora, nesses dois livros como em muitos outros, são o próprio exercício da fala surrealista, nunca erguida ‘contra a realidade’ mas contra ‘o pouco de realidade’”. Ou seja, aqueles que têm em si a soberania de se deixarem levar à loucura são os únicos capazes de lançar um genuíno movimento de rebelião e libertação face a uma sociedade que pretende internar-nos nas suas instituições que trabalham para constranger a ideia que fazemos da realidade e das nossas verdadeiras possibilidades de eleger uma “verdadeira vida”, longe desses grosseiros constrangimentos. É preciso, num certo sentido, enlouquecer de modo a ser capaz de uma actividade empenhadamente destrutiva, uma revolução que terá de passar antes de tudo por rejeitar todo o conteúdo moral deste presídio onde estamos trancados. Curiosamente, o amor surge aqui como o principal acto de rebelião, mas é preciso começar primeiro por despojá-lo “desse sabor amargo que a poesia não tem”. E então somos reencaminhados para essa similitude que Breton traça entre os actos da poesia e do amor: “A poesia faz-se na cama como o amor/ Os seus lençóis desfeitos são a aurora das coisas/ A poesia faz-se nos bosques (…) O abraço poético como o abraço carnal/ Enquanto perduram/ Proíbem-nos de cair na miséria do mundo.” Assim o amor e a poesia reforçam-se um no outro, abrindo a nossa consciência a uma outra relação face ao mundo e, desde logo, face ao próprio tempo, que não tem de ser encarado apenas como sucessão: “ontem, hoje, e amanhã deixam de ter significado”, diz-nos Octavio Paz: “apenas resiste um sempre que é também um aqui e agora”. E é neste ponto que o contributo de Éluard se revela decisivo, pois ele traça essa identidade comum entre amor e poesia e encara a mulher como a morada terrestre do homem: “Mulher dás à luz um corpo sempre igual/ O teu// És a semelhança.”

Esta ideia de semelhança aponta, segundo Paz, para um ideal e uma necessidade de correspondência que está em todos nós e nos predispõe a essa busca que se confunde com o próprio sentido da vida. E a resolução começa na percepção de que, neste mundo, “tudo rima, tudo se chama e se responde”, adianta Paz. “Como acreditavam os antigos, e sempre o sustiveram os poetas e a tradição oculta, o universo compõe-se de forças em oposição que se unem e separam de acordo com um certo ritmo secreto. O conhecimento poético – a imaginação, a faculdade produtora de imagens em cujo seio os contrários se reconciliam – deixa-nos vislumbrar a analogia cósmica. Baudelaire dizia: ‘A imaginação é a mais científica das nossas faculdades porque só ela é capaz de compreender a analogia universal, aquilo a que uma religião mística chamaria a correspondência (…) a natureza é um Verbo, uma alegoria, um modelo’”.

A força muito particular de uma antologia como esta consegue ser ainda mais prometedora por inaugurar uma nova colecção de uma editora que nos tem dado tanto do melhor como do pior que se vai publicando à margem dos esquemas do mercado, embora nem sempre desatenta das persistentes ilusões de uma suposta legitimação literária de personagens de um enredo algo patético. Depois da colecção Avesso, dirigida por Rui Manuel Amaral, a editora Exclamação abre agora espaço para os Elefantes, chancela em que Amaral surge ao lado de Regina Guimarães, evocando essa aristocracia possante e, em geral, paciente, procurando firmar pisadas “com o peso luminoso dos meteoros, a corpulência dos mercadores de memória e a fabulosa elegância dos seres em vias de extinção”, os quais se propõem atravessar também entre nós os territórios da poesia, hoje, desertificados pelo ruído, sendo que esta colecção se impõem o objectivo de providenciar a água que anima a leitura. A edição deste livro consegue impor um contraste com tantos outros publicados pela mesma editora, e traz também uma boa dose de irrisão ao vincar que “ainda deve ser possível contrariar as exigências do design de produto aplicado à edição e fazer uma colecção de excepções”. Esperemos que sim, reconhecendo embora que muitas vezes estes esforços se oferecem como a tempestade “que distribui as armas desastradas/ às ervas e aos insectos”. Afinal, como tem sido notório na edição portuguesa, e para nos servimos da previdência dos versos de Éluard, tem-se visto como “O desejo e o enfado confraternizam/ Carrossel das manias/ Tudo está esquecido/ Nada é sacrificado/ O cheiro dos escombros persiste”, e hoje damos por tantos que usam a leitura como mais outra distracção, um modo distinto, ainda que com o mesmo resultado, de manter os olhos fechados. A este respeito, Éluard frisava que “a objectividade poética só se alcança na sucessão, no encadeamento de todos os elementos subjectivos de que o poeta é, até nova ordem, não senhor mas escravo.” A diferença entre o poeta e esse que apenas se faz coroar, pois precisa de um título, é que aquele sabe que o que conta é ir até ao fim. Por isso, Éluard enaltece essas “filhas de nada prontas a tudo/ irmãs das flores sem raízes (…) reduzidas à inteligência/ à razão até morrer”. Faz toda a diferença que da poesia que se escreve ou se traduz e edita não se possa sair impune, e que, tal como os sonhos que se tem, haja consequências. Essa é a beleza para a qual se dirigem os mais intrépidos, os sonhadores definitivos, uma beleza “mais simples do que a desgraça”, e que é alimento da carne, tornando-a expressiva. Hoje, muita da edição de poesia participa num registo de ofuscação também ele da necessidade urgente de se organizar o pessimismo, de se alcançar um compromisso mais largo e para que os versos não sejam senão alguns pássaros mais desses que perfumam os bosques um momento antes destes serem abatidos.

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