17/05/2022
 
 
António Ramalho de Almeida. "Os sanatórios eram uma prisão dourada"

António Ramalho de Almeida. "Os sanatórios eram uma prisão dourada"

Mafalda Gomes Marta F. Reis 13/05/2022 14:46

Coautor do Plano Nacional de Luta Contra a Tuberculose nos anos 90, é da última geração de médicos que trabalhou em sanatórios. Foi esta semana distinguido como o Prémio Miller Guerra da Ordem dos Médicos.

Nasceu no Porto, em 1939, num tempo em que a tuberculose era o grande problema de saúde pública e uma das principais causas de morte em Portugal, com mais de 8 mil vidas ceifadas por ano. Quando chegou a altura de escolher – nos anos 60 em que o atiraram, como a muitos jovens, para a guerra na Guiné, – decidiu ser tisiologista, os médicos que se dedicavam praticamente apenas ao tratamento e estudo dos tísicos. António Ramalho de Almeida recebeu esta semana o Prémio Miller Guerra, o galardão da Ordem dos Médicos que homenageia carreiras notáveis. Distinguido pela luta contra a doença, mas também como exemplo da medicina humanista, que corporizou o ideal deixado aos médicos portugueses por Abel Salazar, de que um homem que só de Medicina sabe nem disso sabe, como lembrou na cerimónia o bastonário dos Médicos. De uma geração que ainda trabalhou nos sanatórios onde os tuberculosos ficavam afastados do mundo e da família, nunca deixou de ser um homem multifacetado: músico – já pneumologista voltou a ter uma banda chamada Roncos e Sibilos – mas também escritor, cruzando a história e o romance, o último sobre o naufrágio do vapor Veronese em Leça da Palmeira em 1913. Num dia marcado pelas emoções de ser reconhecido pelos pares e lembrar mestres, com quem aprendeu que também se podia descer do pedestal, abriu-nos o livro de memórias.

 

Lembra-se do primeiro contacto que teve com a tuberculose?

Lembro, claro. A família do meu pai teve algumas vítimas, o irmão mais novo dele. Tínhamos uma tia e uma prima que íamos visitar regularmente a Ovar. Eu tinha uns sete ou oito anitos e ficava no carro, não as podia ver. Depois sabe como é a curiosidade de um miúdo, falava-se tanto na tuberculose, não se podia ir à beira dos doentes... Esperava que os meus pais saíssem e ia pé ante pé espreitar pela janela. Recordo-me de ver essa tia, Clementina, já próximo da morte, deitada no leito, sem pestanejar, com as pessoas ao lado a sacudir as moscas. Foi uma imagem que me deixou completamente transtornado. Mais tarde, quando escolhi a especialidade, devo confessar que nunca pensei que houvesse tanta tuberculose.

Isto já nos no final dos anos 60.

Sim, licenciei-me em 1970 e entrei no sanatório D. Manuel II, em Gaia (hoje Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia) em 1972. Foi uma surpresa perceber a dimensão da epidemia: o meu hospital tinha 700 camas e metade eram doentes tuberculosos ativos. Felizmente assisti à fase mais importante, que foi o aparecimento dos primeiros medicamentos efetivos contra a doença, mas mesmo assim ainda vi muito sofrimento. O grande problema da tuberculose aconteceu por volta dos anos 1920/1930. É nessa altura que aparece a estância sanatorial do Caramulo, que chegou a ter 2 mil e tal camas e sempre cheia, e outros grandes sanatórios.

Cheia de pobres e ricos?

Essa é uma história curiosa que conto em alguns dos livros que escrevi sobre esta vivência da tuberculose. Em 1950 há uma célebre lei, a lei 2044, que muda o acesso aos tratamentos. Os sanatórios eram todos privados e nem toda a gente tinha dinheiro para pagar, pelo que as próprias estâncias precisavam de receber mais pessoas para sobreviver. Salazar publica esta lei em que o Estado Novo passa a pagar 20 escudos por dia e os sanatórios têm de assegurar a alimentação e tratamento dos doentes públicos. Portugal estava na penúria e deu-se uma vida nova aos sanatórios, podemos falar até de uma indústria, com pessoas a fazer sanatórios para alugar ao Estado.

Chegámos a ter quantos sanatórios?

Não sei dizer mas só no Caramulo eram 18. Não digo construídos de raiz, esses eram menos, mas eram hotéis e pensões que se transformaram em sanatórios. No Norte temos o sanatório D. Manuel II, inaugurado em 1947, mas havia Macieira de Câmara e muitos outros, uma quantidade enorme de pequenos sanatórios que ajudaram bastante na luta contra a doença, quando ainda havia muito pouco.

Faz parte de uma geração de médicos que ainda viveu essa realidade. Contou na cerimónia o desafio que foi fazer a transição para as outras doenças respiratórias.

É verdade. Como dizia, cheguei ao sanatório D. Manuel II em 1972 e depois fiz toda a carreira ali, mais tarde fui diretor de serviço no Hospital Vila Nova de Gaia. A ciência tinha conseguido nos anos anteriores os primeiros fármacos que mudaram completamente o tratamento da tuberculose. Com a introdução, por exemplo, da rifampicina nos tratamentos, a perspetiva mudou completamente e os doentes que estavam dois anos internados em sanatórios passaram a poder ir para casa.

Internados e isolados da família.

Sim, completamente isolados, era uma prisão dourada. Só não estavam presos porque não havia guardas prisionais mas havia enfermeiros que às vezes tinham mais ou menos as mesmas missões: não deixar fugir, não deixar falar.

Estamos a falar de mães que chegavam a ficar anos sem poder tomar conta dos filhos, que acabaram por crescer com outras pessoas da família.

Sim, foram marcas tremendas e um período dramático para muitas famílias. Na altura em que eu chego, a situação era outra porque estávamos nesta transição e era preciso mudar a abordagem, que foi algo por que lutei muito desde o início. O Porto em 1972 fez uma experiência em que se verificou que, se os doentes tomassem os medicamentos, curavam-se todos, não era preciso ficarem internados. Internados para quê? Foi preciso demover aquelas mentalidades que continuavam a achar que o doente tinha de ficar internado porque se se andasse cá fora estava a passar o bacilo. E a indústria dos sanatórios.

Há aquelas imagens da Montanha Mágica, e também o descreveu no livro O Outono está a chegar (2016). Como era a vida nos sanatórios?

Quando começo em 1972, havia dois hospitais com as mesmas características, aqui em Lisboa: o Pulido Valente, que era o sanatório D. Carlos, e nós em Gaia. No fundo recebíamos todos os doentes de outros sanatórios que tinham sido extintos. No sanatório D. Manuel II congregámos todos os indivíduos do Caramulo, de Paredes de Coura, etc., que ainda tinham tuberculose ativa. Fomos os últimos a fechar – quer dizer, não fechámos verdadeiramente, transformámo-nos para ser hospital de Vila Nova de Gaia, em 1977. Não significa que deixámos de ter doentes com tuberculose: ainda há doentes que em determinadas situações têm de ser internados, mas hoje falamos de uma doença crónica em que reparamos o episódio agudo e depois a pessoa é tratada cá fora. Como era a vida? Ainda havia uma disciplina férrea. No meu hospital, tínhamos homens e mulheres e tudo aquilo tinha uma supervigilância. Os doentes não podiam sair a partir de certas horas, às 22h tinha de estar tudo na cama, de manhã tinha de acordar tudo fora da cama.

Uma disciplina militar.

Sim, que entendo, porque ter 700 pessoas metidas num estabelecimento não é fácil. Simplesmente havia exageros. Um exagero eram as curas. Os doentes eram obrigados das 10h ao meio-dia e das 14h às 16h a estarem deitados numa cama, ao ar livre, se o sanatório tivesse condições. No meu, tanto valia estar a chover como não porque tínhamos as galerias e os doentes iam para ali. E nesse período não podiam ler, não podiam dormir e não podiam falar. Já viu o que é estar ali duas horas a seguir ao almoço…

E isso baseava-se em quê?

No princípio de que a pessoa devia estar concentrada em respirar fundo, respirar o ar puro e aproveitar a exposição solar. Era uma medida terapêutica. Com a medicação, essa medida terapêutica tornou-se obsoleta, mas os diretores dos sanatórios aproveitavam isso para manter a disciplina. No meu hospital tive grandes lutas com o meu diretor a dizer “por amor de Deus, isto é ancestral”, e a justificação era ser uma medida disciplinar. Outra medida terapêutica que se usava na altura era a super-alimentação. Os doentes eram obrigados a comer – e comia-se muito bem – e depois ficavam ali deitados...

Ouvi-o o contar numa entrevista que era cabrito, tudo do melhor. Todos
os dias?

Sim, diariamente. Tínhamos um chefe de cozinha, três subchefes.

Portanto os médicos adoravam almoçar no sanatório.

Comíamos a mesma comida dos doentes. Vinha uma marmita, o diretor provava, dizia se estava em condições e dava ordem para servir. O termo dos médicos era tirado à sorte de um que ia para as enfermarias. Comíamos muitíssimo bem. Rojões, cabrito, anho.

Nunca comeu tão bem.

Em hospitais nunca.

A gestão era privada?

No nosso caso pública mas naquela altura não tínhamos nada a ver com o Ministério da Saúde, que nem existia, havia uma secretaria de Estado. Pertencíamos ao Ministério do Interior, a uma instituição que se chamava IANT, Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos. Era, digamos assim, uma república dentro de outra república. O presidente do IANT tinha a mesma categoria de um ministro da Saúde, todos os médicos dos dispensários pertenciam ao IANT e era responsável pelos sanatórios de Lisboa, do Porto e outros como em Carcavelos ou na Parede.

Além de um bom prato, nunca faltava o vinho.

Era obrigatório beber: era uma forma de aumentar o metabolismo da comida. O organismo absorvia melhor com um alcoolzinho.

E é verdade?

É, sim. O vinho que serviam lá era da Adega Cooperativa de Alijó, tinha 12,5 graus e era uma garrafinha de 20 cc.

Era servido a homens e mulheres?

Sim. Havia doentes que trocavam o vinho por cigarros e outras coisas.

Podia-se fumar no sanatório?

Claro, menos nas enfermarias. Mas mesmo nas enfermarias os doentes fumavam.

Alguma vez fumou?

Fumei na guerra do Ultramar mas mal cheguei, passado pouco tempo, deixei. Comecei a ver o que era tratar cancro do pulmão. Tive um doente com 42 anos que veio da África do Sul, um senhor que era ali da zona de Aveiro ou Oliveira de Azeméis, com um tumor gravíssimo do pulmão. Vi-o morrer e foi daquelas coisas que me chocou profundamente. O indivíduo quase nas agonias da morte ainda ia lá com o cigarrinho na mão, dizia-me “não consigo parar”. Eu parei a tempo. Fumei 10 ou 12 anos e foi uma das áreas em que me especializei mais tarde: hoje uma das minhas valências é a luta antitabágica.

Compreende como é que a indústria do tabaco sobrevive agora há quase 100 anos desde que há evidências dos malefícios? O primeiro estudo é ainda dos anos 30.

Ui, nem queira saber. Tem mérito... Quer dizer, procura coisas diferentes aqui e acolá, o tabaco aquecido. Não há dúvida que luta, é uma lutadora. E nós lutamos pelo outro lado e estamos sempre a perder a guerra. No tabaco há duas vertentes importantes: a habituação e a dependência. Contra a dependência é muito difícil, porque são os flashes emanados pelos recetores nicotínicos a dizer “fuma, fuma, fuma” e a pessoa obedece. Do outro lado, a habituação, não é menos terrível: a pessoa habitua-se a tomar um café e a fumar um cigarro, habitua-se no final do almoço e do jantar a fumar um cigarro, habitua-se a ter qualquer coisa entre os dedos. Uma vez vi um doente meu que tinha deixado de fumar com uma garrafa de água entre os dedos. E eu assim: “Isso é para segurar a água?”. E ele respondeu-me aquele: “Vou-lhe ser franco, tenho de ter qualquer coisa entre os dedos”. É o ponto a que isto vai.

Tem alguma dica infalível?

Não. A minha pseudo-infalibilidade é ter abertura com os doentes para lhes ligar. Quando entram num processo de desabituação tabágica, eu sou o tipo o mais chato deste mundo porque estou-lhes sempre a ligar, a adverti-los dos perigos de isto e daquilo, e peço que me liguem. Crio-lhes, sem querer, aquele sentido de responsabilidade que eles coitados ficam ali um bocado: “Ele vai-me ligar e vai-me chatear”. Ando mais ou menos na casa dos 35% de êxito, o que é muito bom.

Os choques nas orelhas funcionam?

Eu acho que vale tudo. O painel de fumadores é de tal maneira vasto… Tenho casos de pessoas que fizeram hipnose e deixaram de fumar, outros que fizeram as picadelas nas orelhas, outros que foram ao reiki ou qualquer coisa do género.

Não é contra as medicinas alternativas na cessação tabágica?

Não. Vale tudo. Na luta contra o tabaco vale tudo. Agora também não podemos demonstrar isto ao fumador, tem de haver uma abordagem cuidada.

Desviámo-nos da tuberculose e agora fazia outro desvio: neste prémio de carreira foi também evocada a sua ligação às artes, à escrita e à história, interesses multifacetados. O que o levou a querer saber mais sobre a história da tuberculose e da literatura?

Uma certa insatisfação permanente. Na literatura, ler livros como a A Dama das Camélias levou-me a querer perceber o romantismo, que foi uma época sensacional, ali 1840. Foi uma das grandes fases da humanidade. Estudei um pouco sobre isso na música, na literatura, na arquitetura.

Passava o dia a ver doentes e chegava a casa e enfiava-se nos livros?

Um bocado, e na altura não havia net. A tuberculose do António Nobre (1867-1900) foi uma coisa que me apaixonou. Ele escrevia muito cartas aos amigos e naquela correspondência dizia “ontem tomei aquilo”,” hoje tomei isto”. Algumas das pessoas que referenciava estavam ligadas à história da medicina.

Viu na literatura uma porta para o passado da medicina que praticava.

Sim. O que é que no tempo de António Nobre se tomava? Como era o tratamento da tuberculose?

E ficou arrepiado com coisas como injeções de águas do mar.

Ou o ácido acílico, que é algo que ninguém sabe bem o que era e que o poeta escreve: “Já tenho a primeira injeção dentro do meu corpo, já me sinto…” Aquela ilusão, a charlatanice, tudo isso me chamou particularmente a atenção.

Houve muita charlatanice na saúde.

Muita, imensa, como aliás ainda agora se vê.

Vi uns versos de António Nobre: “Mês de Novembro, Mês dos tísicos / Suando Quantos a esta hora, não se estorcem a morrer.” Ele aqui já sabia que estava tuberculoso?

Boa pergunta. Ele sentia que tinha uma tuberculose da alma. “Sou um tísico da alma”. O tísico da alma sentia a tuberculose, mas não corporal. Escrevi um livro sobre a tuberculose do António Nobre e tem duas fases: há um momento em que tem a tuberculose pulmonar, em que se sente deprimido, com dificuldade respiratória, todos os sintomas do aparelho respiratório, em que sente que quando vai para a Madeira fica melhor porque há outro ar. O problema não é dele, é do ar. “O ar do Porto faz-me mal”, “O ar marítimo é que é bom”. A partir de certa altura começa a sofrer porque tem um derrame pleural na Madeira e depois tem um atingimento renal, que marca a segunda fase. Vem a morrer no dia 18 de maio de 1900 com insuficiência respiratória e insuficiência renal. A doença deixa de ser pulmonar apenas para ser uma doença sistémica.

Era muitas vezes assim que a tuberculose matava?

Era.

Foi uma geração sacrificada: António Nobre, Júlio Dinis, Cesário Verde, na Medicina e um pouco mais tarde o médico Júlio de Matos.

Sim. Há toda uma geração de amigos de António Nobre, uns dez ou 12 poetas entre os 18 ou 30 anos, que morrem tísicos no espaço de dez anos. Fiz toda essa recolha no livro O Porto e a Tuberculose – História de cem anos de Luta.

O Porto foi o epicentro da tuberculose, hoje há mais casos em Lisboa.

Sim, o que é natural por ser a cidade cosmopolita como é. Grande parte das pessoas dos países de língua portuguesa, onde a tuberculose tem um peso muito grande, vêm para aqui.

É uma doença associada às condições socioeconómica.

E a raça negra tem um maior atingimento. Há um estudo francês muito interessante sobre isso, de um colega que analisou largos milhares de doentes da África branca e África negra, França, Argélia, Tunísia e Marrocos e depois Senegal, Costa do Marfim, etc. Por cada branco tísico em França havia quatro casos na África branca e dez da África negra. O negro tem muito mais propensão. Hoje sabe-se porquê: a África negra hoje já não é assim, mas era muito naïve, como as pessoas não tinham contacto com os agentes infecciosos qualquer coisinha era suficiente para ativar doença grave.

Há 100 anos, no Porto, qual era a explicação?

A cidade do Porto teve a partir de certa altura um boom exponencial com a indústria. Tínhamos uma população de trabalhadores muito grande a viver em condições péssimas, nas ilhas, a que aqui em Lisboa se chamavam os pátios. Há um estudo muito bem feito do professor Ricardo Jorge, de 1890 e tal, sobre as ilhas do Porto, em que ele descreve como a tuberculose quando entrava numa casa ia por ali fora, era uma coisa horrorosa. E por isso chamou ao Porto a ‘cidade bacilífera’, uma cidade que para além dos doentes tinha muitas pessoas infetadas com o bacilo da tuberculose sem estarem doentes ainda.

Os assintomáticos.

Absolutamente assintomáticos.

Nesta pandemia da covid-19, os primeiros surtos também foram no Norte, o que foi ligado inicialmente a viagens do setor têxtil a Itália. Questões culturais também pesarão ainda? Noutro dia um entrevistado do Porto deslocado em Lisboa desabafava que no Norte as pessoas vão com mais facilidade a casa umas das outras.

Tem razão, com certeza há razões sociais que aqui também estiveram na base disso e na altura aconteceu a mesma coisa. Naquela altura todas as famílias tinham alguém com tuberculose ou com tuberculose latente, como chamamos hoje, e que já é tratada, o que antigamente não fazíamos. E isso teve muito a ver com o plano de luta contra a tuberculose, de que fui um dos subscritores e que visava organizar a resposta e o acesso.

Nos anos 90.

Sim, com a ministra Maria de Belém. Recordo-me que passei uma noite em claro para lhe entregarmos o documento. De manhã apareceu a secretária do professor Ramiro Ávila, que deu os últimos toques e foi entregar ao ministério.

Foi a vez em que se meteu mais na política?

Não era bem política, era algo que já devíamos ter feito e não tínhamos feito porque não havia muito conhecimento. Corri Portugal inteiro para ver como se tratava a tuberculose, de Melgaço até Faro, um trabalho hercúleo que me saiu do bolso mas ganhei o prémio real por isso (risos).

Pela primeira vez em 2020 as mortes por tuberculose voltaram a aumentar na Europa. Estava à espera de ver este retrocesso?

Tenho um bom amigo em Espanha que é o Caminero, responsável pela resposta à tuberculose. Há uns tempos estivemos a conversar um pouco e ele lembrava que houve uma altura em Espanha que receberam muitas pessoas do Equador: os homens vinham para trabalhar em fábricas e as mulheres como empregadas domésticas. Isto acontece nos anos 80 e foi um boom espantoso de tuberculose, felizmente identificado muito ao início e que ainda se conseguiu travar aqui e ali. Ele chamava a atenção para a chegada súbita de refugiados, porque se vierem de países com taxas de incidência elevada têm de estar preparados. E agora com a guerra vai ser pior, é fatal. O Mycobacterium tuberculosis não está erradicado, na minha ótica só se houvesse uma bomba atómica isso aconteceria.

Mas parece-lhe que podemos esperar um aumento de casos e, assim sendo, o que pode ser feito?

É provável que sim. Estar atento. E devemos pensar também que a covid-19 desgasta o sistema imunitário, que se estiver fragilizado por qualquer razão deixa as pessoas mais vulneráveis. A tuberculose está sempre à espera de alguma coisa.

Falou na cerimónia da sua transição de tisiologista para pneumologista mais geral. Soube que viu como se prevenia a gripe com um treinador de futebol, José Maria Pedroto.

É verdade. Fui médico do Boavista em 1975. Tinha feito um trabalho sobre medicina desportiva no princípio da minha vida clínica, depois naquela altura o Boavista precisava de um médico, pôs um anúncio, eu concorri e ganhei. O treinador era o Pedroto. Logo no princípio – o campeonato começou em agosto ou princípio de setembro – o Boavista ia jogar a Tomar. O autocarro saía por volta das 9h, eu cheguei mais cedo com os massagistas e o resto da equipa. De repente aparece a esposa de um jogador brasileiro, o Zezinho, uma senhora que era fadista, e diz que o marido não pode jogar porque está com temperatura, 38 de febre, passou a noite mal. E eu: “Que chatice, pá”. E depois vieram outros. Os jogadores tinham tomado a única vacina na altura, vacina entre aspas, que era o esobactolin, um medicamento com seis drageias, três verdes e três vermelhas. A maneira de dar aquilo era uma verde todos os dias, a partir do quarto dia uma vermelha e no quinto dia duas. Levavam o medicamento para casa e tomavam. Na sexta-feira tinham tomado as duas e no sábado apareceu tudo com febre. Eu não sabia o que fazer, fiquei alarmadíssimo, um com 37, outro com 38. E então chega o Pedroto.

Estava com receio que deitasse
as culpas no médico?

Eu digo: “Temos um problema, está tudo com temperatura”. Ele respondeu-me assim: “Eu, você e o capitão Valentim Loureiro jogamos à frente. Destes todos, os que têm menos febre vão para trás. Há guarda-redes. A gente não perde o jogo, vai ver o que lhe digo”. Quando o homem me disse aquilo pensei que só podia estar a brincar. E então ele diz: “Com certeza que isso é tudo da vacina, duas aspirinas a cada um e vamos embora”. E assim foi, o maçarico lá deu as aspirinas. O Pedroto sabia mais com aqueles vidros em frente dos olhos que nós todos juntos. E sabia que não faz sentido ter numa equipa de futebol profissional um doente com gripe, outro com temperatura, se se pode prevenir.

Como é que um pneumologista com 50 anos de clínica viveu estes dois anos de pandemia?

Às escuras, sem saber o que isto era. Vali-me sempre de um amigo precioso, o professor Filipe Froes, somos amigos há muitos anos e trabalhamos em conjunto. Valia-me da opinião dele, ligava a perguntar quando precisava de alguma coisa. Claro que tínhamos estudos sobre a gripe e já tinha havido, em 2003, o SARS. Tinha mais ou menos essa formação, mas de repente aparece um vírus com um comportamento diferente daquilo a que estávamos habituados e isso causa muitas dúvidas. E embora eu já não pratique clínica como quando estava no activo, as pessoas ligavam-me a pedir opiniões, a perguntar o que deviam fazer e para saber o que responder vali-me sempre dele.

Teve covid-19?

Não tive.

E hoje como olha para a doença?

A forma como começou não se pode dizer que seja estranha. Os vírus aparecem quase todos no mesmo sítio e este não fugiu à regra, veio do extremo oriente. As consequências da infeção é que não são bem as que conhecíamos e ainda hoje não sabemos dizer perfeitamente o que o vírus faz. A si pode fazer uma coisa completamente diferente do que faz a mim.

Mais velhos e imunodeprimidos estão mais vulneráveis.

Sim, mas não podemos basear a defesa ou atividade menos exuberante do vírus apenas e só no nosso sistema imunitário, há mais qualquer coisa. Há pessoas que estão muito bem, novas, que não aparentam nenhuma imunodeficiência, e que têm problemas graves.

Viu casos que o impressionaram?

Sim, claro. Um deles foi a minha irmã, que morreu. Melhorou imenso, passado três ou quatro dias ligou a dizer que estava ótima, perfeita. Dois dias depois estava mal, entrou no hospital e morreu. Até o percurso clínico pode ser oito ou oitenta. De maneira que muito respeitinho. Eu continuo a ter muito respeito e não me dou mal com isso.

Além da escrita, tem uma veia musical. Teve uma banda chamada Ronco e Sibilos. O que leva tantos médicos a virarem-se para as artes?

A música sempre fez parte de mim. Comecei a estudar violino com dez anos. Tinha um tio que tocava e que me entusiasmou. Tocava em casa, o meu cão gania como um desesperado e o meu pai às vezes chegava e dizia: “Calem-me esse gajo” (risos). Nas fases iniciais da aprendizagem de violino aquilo é horrível. Depois desisti e comecei a tocar acordeão, depois baixo e contrabaixo e depois tive uma banda. Os Roncos e Sibilos foi mais tarde, já nos anos 90, e nessa altura já foi com colegas médicos. Nos anos 60 o nosso manager era o Toni Hernandez, um senhor de ascendência espanhola. E aí gravámos discos, fomos à televisão, demos muitos concertos.

Então era uma estrela.

Mais ou menos, mas tivemos muitas horas de televisão. Tivemos grandes pianistas, um deles foi o Simões da Hora, uma das grandes excelências do órgão de igreja. Fizemos digressões pelo estrangeiro, ganhei muito dinheiro na altura.

Mais do que no início da Medicina?

Em comparação sim. Tive aqui uma digressão em Espanha em que nos pagavam 11 mil pesetas por dia, ao fim de cinco ou seis dias passavam a pagar o dobro e depois ainda queriam que fôssemos para outros sítios ganhar o dobro. Não queira saber o que era isto nos anos 60. O meu pai era engenheiro e eu ganhava três ou quatro vezes mais do que ele ganhava num mês a tocar. Depois amorteceu: fui para a tropa, fui para a Faculdade de Medicina, era incomportável. Mais tarde, já um médico maduro, um dia encontrei-me com médicos que tinham tido alguns conjuntos e decidimos então fazer então os Roncos e Sibilos. Gravámos dois CDs e ainda andámos por aí entre 1992 e 2005 a tocar.

Como explica essa ligação à música?

Não sei. Para mim sempre foi uma paixão muito grande. Não consigo trabalhar sem uma musiquinha ao lado. Pode ser o concerto n.2 de Rimsky-Korsakov, Rachmaninoff ou Chopin. Estudei muito a obra de Chopin.

Chopin que morreu com tuberculose.

Morreu. Tive uma ocasião uma “discussão” com um amigo médico dinamarquês que dizia que ele morreu com bronquiectasias, e eu dizia que era com tuberculose. Foi interessante.

Alguma música que ajude a respirar melhor?

Não. Gosto da música que me entra no ouvido, melódica, da harmonia. Todos os dias toco piano. A questão é que são quase sempre as mesmas músicas (risos). Aquilo que me vem à cabeça toco e fico mais bem disposto para começar o meu dia a trabalhar, a escrever, o que for.

Esteve na guerra do Ultramar na Guiné, onde podia ter morrido, um milagre que o marcou para sempre.

Fiquei ferido e digo-lhe uma coisa: tenho de agradecer a Deus. Se Deus não existisse, eu continuava a dizer que existia. Tive uma granada que rebentou a dois metros de mim e estou vivo. Estava sentado em cima de uma coisa que por baixo tinha dois cunhetes de morteiro, que não queira saber o que é. As granadas de morteiro não rebentaram e podiam rebentar por simpatia. Estava a caminho do hospital quando as ouvi rebentar. De maneira que, enfim… São coisas que passaram.

Chegou a estar na Guiné com o Salgueiro Maia?

Estive com ele mas foi em Santarém, fiz oficial de dia e oficial de piquete com ele duas ou três vezes. Ele era um ilustre alferes quando eu era aspirante. Vim da Guiné muito antes do 25 de Abril. Fui em 1964 e regressei em 1966. Fui por causa do 1º de Maio de 1962, brindado com o castigo por ter estado em Lisboa. Depois tive receio que quando acabasse a formatura tivesse de voltar a ir. Tivemos uma entrevista com o comandante da região militar do Porto e ele disse-nos para fazermos o nosso curso – que só íamos para o Ultramar se quiséssemos. Depois da palavra do senhor, que era o coronel Veloso, tio do Rui Veloso, assim foi.

A doença nunca abalou a sua fé?

Não. Tive uma vida feliz, momentos terríveis e dramáticos em que me saí sempre bem e por isso tenho de acreditar que alguém me ajudou. Não sei se foi o espírito da minha mãe, que morreu muito cedo, com 50 e poucos anos, com cancro da mama. Ela só me dizia: “Acaba o teu curso”. Vim do Ultramar e acabei.

Foi o primeiro médico na família?

Sim, o único.

Na sua geração era atípico.

Sim. E até tive problemas com o meu pai por causa disso: era engenheiro e foi sempre uma pessoa muito crítica por eu não ter ido para engenharia. Dizia que era um burro, que tinha ali o escritório dele.

Os médicos eram respeitados mas não eram muito bem pagos.

Nunca foram. Já viu a quantidade de anos que temos de estudar para atingir o mínimo? 13 anos entre faculdade, internato e especialidade. Tenho um filho de um amigo meu que se formou em Medicina e que foi para o Luxemburgo para as obras. O salário mínimo no Luxemburgo era uma vez e meia o que ele ganhava cá. O construtor quando soube que ele era médico pô-lo no escritório e está agora a pontos de entrar no sistema de saúde. Hoje é diferente, mas fui para França se quis, fui para Espanha se quis. Aprendi imenso com grandes figuras da pneumologia europeia, mas não foi assim tão fácil quanto isso. Hoje estou reformado com uma reformazeca, mas enfim.

Como olha para a Saúde, tendo vivido o início do SNS?

Está melhor mas falta muita coisa. Trabalhei em França em 1976, já com o SAMU, o INEM francês, que trabalhava de maneira fantástica. Nem tudo é comparável, porque têm helicópteros, não se vão pôr de carro no meio de Paris, mas há formas de trabalho diferente e uma diferenciação muito grande. Fiquei espantado quando vi um serviço de urgência na Galiza. Esta semana falou-se de o Hospital de São João ter batido o recorde de pessoas nas urgências, mil e tal pessoas. Ali é uma coisa fantástica: a pessoa entra com o carro, tem um túnel e rapidamente a triagem é feita. Ou fica ali ou tem uma referenciação para ir ao hospital à consulta x ou sítio qualquer.

Sem sair do carro?

Não há aglomerações. E temos isto em Vigo, aqui ao lado.

Que medida implementaria hoje?

Medidas para fixar os médicos, com um melhor vencimento. Qualquer indivíduo que hoje seja qualificado ganha mais do que um médico. Não sei se o Estado podia fazer isto ou aquilo, mas os médicos são mal pagos e os médicos do interior não têm nenhum incentivo para lá ficarem. Os doentes pagarem com batatas e frangos?

Foi o que valeu durante muitos anos?

Mas não pode ser. Porque é que um juiz tem direito a ter casa e um médico deslocado que vá para o interior tem de sucumbir perante o trabalho sem o mesmo apoio?

Falou dos seus mestres, que lhe mostraram também como descer do pedestal. Como vê hoje a medicina?

Hoje está tudo muito diferente. Dizia sempre aos meus alunos: nós trabalhamos com pessoas que estão fragilizadas, não são iguais a nós. Chegamos a casa a calçamos as pantufas. Os doentes têm a dor, a doença, o drama. Temos de ter isso sempre presente nas nossas cabeças. Sem isso não vão conseguir ser médicos na verdadeira aceção da palavra. Claro que hoje os incentivos e a recompensa pelo esforço é tão pouca que às vezes vejo colegas no hospital privado que por qualquer coisa pedem logo um TAC, um exame a isto e aquilo, porque vão ganhar mais x. Isto não entra na minha maneira de ser e quando fui trabalhar para a Luz essa foi logo uma das minhas condições.

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