24/05/2022
 
 
Rosa Maria Martelo. Manual de etiqueta ideológica

Rosa Maria Martelo. Manual de etiqueta ideológica

Diogo Vaz Pinto 11/05/2022 11:54

Em “Devagar, a Poesia”, a autora promove a arregimentação da poesia portuguesa contemporânea em torno de um programa severamente crítico da sociedade, contudo, este não parece obrigar a uma especial coerência entre o discurso e a prática.

Numa das duas epígrafes do seu mais recente livro de ensaios, “Devagar, a Poesia”, Rosa Maria Martelo crava logo a estaca em relação à qual se produzirá ao longo de 11 capítulos, antecedidos de um preâmbulo, um argumento que irá marcar as horas num relógio que se pretende desarticular. A citação é de Wittgenstein: “Eis o modo como entre si se deveriam saudar os filósofos: ‘Devagar, devagar!”

Nas primeiras páginas, a professora catedrática aposentada dir-nos-á que “o que esperamos da poesia é da ordem  da interrupção, da criação da negatividade, do intervalo, da singularidade (…) também esperamos de tal interrupção que ela confirme a vitalidade do tecido social pela possibilidade de se gerarem tensões e rompimentos na mesmidade à qual a divulgação da literatura e da arte, embora desejável, não deverá escapar.” Não sendo uma obra com propostas de leitura muito inquietantes ou inovadoras, este livro consegue tornar-se uma experiência de leitura bastante empolgante, não tanto pelas teses da autora, mais pela sua capacidade de desenhar um percurso bastante fluido a partir de uma manta de retalhos bem urdida, com uma catrefada de autores a serem convocados, entre filósofos e críticos da cultura, desde os mais óbvios e inescapáveis, como Adorno, Benjamin, Deleuze, Derrida ou Rancière, a pensadores tão fervilhantes e ciclotímicos como Byung-Chul Han e outros como Eduardo Viveiros de Castro ou Emanuel Coccia, que tanto têm feito para libertar-nos da superstição ideológica segundo a qual a história humana é tudo o que importa, refazendo o laço com a vida natural. Se há aqui um talento particular é para ir enxertando uma série de noções críticas num circuito discursivo harmonioso, que deixa espaço para, nos seus interstícios, ir bordando versos à margem nuns momentos, e noutros adoptando-os como carne da mesma angústia para erguer este Frankenstein teórico, dando à poesia portuguesa contemporânea um certo protagonismo nesta rede de olhares que traçam um retrato bastante duro do mundo em que vivemos. Boa parte dos poetas elencados, apesar do esforço e do talento de Martelo para a enxertia, surgem, no entanto, como coadjuvantes, um bando de aias e escudeiros, sendo remetidos a um papel de meros passageiros de uma certa função crítica, naquele tom submisso de quem faz demonstrações que servem como a pausa para uma gaifona lírica, adequando uma certa denúncia dolorosa, peremptória a essa voz baixa, àquele hábito de um certo ofendidismo beato. Assim, se numa página vamos embalados nas teses de Byung-Chul Han, Christoph Türcke e Guy Debord, que se complementam ao deitar um contorno a esta “sociedade do cansaço”, uma “sociedade da sensação exacerbada, viciada no audiovisual ‘chamativo e espectacular’, uma ‘sociedade excitada’, isto serve para trazer à colação, sem se perceber em proveito da ilustração do quê, uns versos de Pedro Eiras, colega no mesmo instituto de investigação e cúmplice de Martelo nas iniciativas que entre nós vão compondo a equipa de ginástica no varão lírico da Invicta. A autora assevera-nos que Eiras, que se tem desdobrado numa produção em que os géneros se dissolvem naquele tratamento próprio de seminário, “faz um retrato cirúrgico e acutilante das ciladas que nos reserva um mundo assim”. E então vamos à prova, e atentemos no melhor que foi possível ressaltar de um livro (“Purgatório”) publicado uns escassos meses antes: “São horas, temos quórum, tudo a postos/ para mais um dia de purgatório,/ eu disse purgatório?, queria dizer/ logística,/ não sei explicar, é como um sufoco,/ um aperto abaixo dos olhos, talvez/ um fogo abraçado à garganta/ vivo,/ estão abertas as inscrições para/ o debate, a contabilidade das sombras,/ eu disse debate? Queria dizer/ abate, (…) estão reunidas/ as condições para passarmos/ à votação: alguém vota contra? alguém/ se abstém? eu disse votação?,/ queria dizer/ que abdico de respirar,/ de ocupar espaço, formas e cores/ neste mundo infausto,/ aprovado por/ unanimidade, queria dizer/ por extremo cansaço.”

Dá a sensação que podiam ser estes versos ou outros quaisquer, contando que prossigam uma certa ladainha lamentosa, nunca se aproximando da vociferação, mas simulando a cadência e busca expressiva da linguagem poética, adaptando o que já foi dito e redito a um poemeto que serve uma forma de ideologia prêt-à-porter, com uma linguagem sem particular engenho ou audácia no recurso às imagens ou à montagem de fragmentos. A versificação surge, deste modo, como mera teatralidade ou afectação, tentando soar vagamente ao regime feroz que levou outros autores, como Pasolini ou Enzensberger, ou ainda, e entre nós, Jorge de Sena, Joaquim Manuel Magalhães ou José Miguel Silva, a aproximarem a poesia da sátira, da écloga, da invetiva, do ensaio e do sermão, tornando-se o poema um veículo de uma experiência de confronto que impede uma relação estática, encadeando num tom potente e agressivamente argumentativo, imagens e associações inesperadas, combinações e sinestesias, criando contrastes severos pela introdução de aspetos anti-líricos e prosásticos, trazendo o atrito, sem abdicar inteiramente de efeitos metonímicos ou de uma radicalidade expressiva que continue a alargar e reforçar o arsenal dos processos poéticos. Porque o que interessa, no fundo, é que a poesia se mantenha ligada a esse instinto que a força a romper as convenções, causando uma decepção que mantém o jogo aberto, que desconfia de soluções demasiado estáveis, que prefere um certo desnorte, e que está atenta à linguagem sobretudo para impedir o seu anquilosamento, para que o pensamento não se veja impedido de se lançar de novo no desconhecido, em relações impróprias e invulgares, furtando-se ao gosto, preferindo a bizarria a um lirismo bem-comportado. Daí também a sua compulsão inquietante, a forma como a linguagem poética procura renovar-se a cada ciclo, para garantir um programa de higiene mental e desintoxicação da linguagem, que leva a que os achados que ontem pareciam tão sumptuosos e encantadores sejam no dia seguinte declarados meras escórias líricas.

Rosa Maria Martelo vai agenciando um conjunto de projectos e nomes que lhe são afins, figuras ou figurantes que reforçam o sentido de pertença a uma tribo ou a uma certa escola, e enquanto, por um lado, se serve do manancial de prestigiosas teorizações acerca das condições do sofrimento social e sujeição específicas da sociedade de produção, a qual gera “um cansaço alienante”, que nos separa e isola, sendo incapaz de negatividade, por outro lado, aplica-se a sancionar e traçar um elenco daquelas propostas que, ao nível da poesia, lhe parecem capazes de criar negatividade e facultar momentos de resistência num combate ao “ritmo vertiginoso, regularizado e regularizador em que vivemos”. Assim nos explica o título deste breve volume de ensaios, que se propõe ao mesmo tempo como uma interpretação aclaradora de uma certa função crítica da poesia contemporânea portuguesa e também como um programa: “Devagar, responde à banalização da velocidade e ao agir intransitivo e quotidiano contrapondo-lhes a vertigem de um outro ritmo: o de um pensamento sincrético, que a forma suporta e encadeia.” Contudo, se na forma como toma balanço é inegável que este livro serve uma espécie de prontuário no que toca a destacar momentos e obras de uma inventividade formal inegável, os quais impõem uma certa denúncia e atrito através de mensagens e conteúdos refractários face a uma sociedade que promove uma dinâmica de auto-exploração para fins competitivos em que é o empreendedor quem a si mesmo coloca metas no limite das suas forças, a verdade é que depois há um efeito de neutralização a partir do momento em que o esforço de Rosa Maria Martelo passa menos por ressaltar o carácter de divergência e combate, do que um princípio de acordo e conclamação, admitindo que a poesia e as instâncias em que esta se dá a ler e a pensar se deixou confinar num papel essencialmente lúdico e, portanto, inócuo. “Formulando a questão de outro modo, poderíamos perguntar se, no contexto ocidental, estaremos a viver uma espécie de academismo poético – mais democrático que os anteriores, é certo, mas igualmente pouco capaz de invenção, de questionamento e surpresa, disciplinado e pouco ofensivo como todos os academismos.”

Poderíamos aqui esforçar-nos por identificar uma série de exemplos em que, ao colocar a par, ou na mesma banda, poetas como Alberto Pimenta, Manuel Gusmão ou Luiza Neto Jorge, e outros como o já citado Pedro Eiras, Luís Quintais ou Ana Luísa Amaral, a autora anula a veemência e génio de uns face à placidez de outros. Mas talvez seja mais relevante notar que, se por um lado Martelo nos diz que o discurso da poesia é por natureza indócil, e que levado a sério este significa “uma experimentação da linguagem que corresponde à exigência de uma outra vida” (Meschonnic), e se entende que “o mundo actual é um mundo sem sentido que espera da literatura um gesto tranquilizador que a poesia não saberia fazer”, não se percebe muito bem como nos surge a citar uma entrevista de um crítico literário como Alfonso Berardinelli, cuja atitude crítica raia um tom sulfúrico, quando a atitude de Rosa Maria Martelo é sempre conciliadora. Cita-o, nomeadamente, na caracterização do ambiente endogâmico do pós Maio de 68, em que temos assistido a “uma proliferação de poetas e críticos que estariam mais interessados na pertença a um grupo corporativo do que no debate e no confronto de poéticas”. Recorde-se que Berardinelli, em 1995, ao fim de quase 20 anos a dar aulas numa universidade italiana, tomou a decisão de renunciar à sua cátedra, deixando de dar aulas, num inaudito gesto que provocou uma forte polémica no establishment cultural e universitário, tendo chegado às páginas dos jornais, e desde então tem acusado um regime de “condescendência geral, tanto no plano da produção quanto no da recepção, suportada por um público pouco conhecedor. Ora, se Martelo parece subscrever esta denúncia, citando uma passagem que, embora encontre um paralelo evidente com a situação que levou à asfixia o debate e o confronto de posições entre nós, não parece reconhecer como, em grande medida, muita da sua atividade enquanto docente passa por facilitar esse regime de “condescendência generalizada”, suportando as aspirações daquele grupo corporativo em que, de resto, ela figura de forma proeminente. Eis a citação: “A única aspiração desses autores é serem incluídos no panorama geral, nas antologias, no registro do próprio sector cultural, como se pode fazer parte de qualquer colegiado profissional. Isto acontece quando as artes tradicionais ficam sem público, algo que está se ampliando cada vez mais. (…) Em poesia, isso [o juízo] não ocorre, porque não existe um público em condições de julgar se um poeta vale ou não vale. Geralmente, é-se aceito, e os mais hábeis em se fazer aceitar terminam passando por poetas importantes, sem que ninguém tenha jamais chegado a julgá-los criticamente.”

Face a isto, pode certamente notar-se a contradição que há em reconhecer este estado de coisas sem nunca chegar a traçar qualquer paralelo com a situação que se vive no nosso meio universitário e cultural, talvez porque estender este diagnóstico pudesse desde logo colocar em xeque a própria posição que Rosa Maria Martelo nele ocupa. Isto seja na atividade docente, seja enquanto júri de prémios, seja distribuindo benesses e aceitando inscrições no grémio em que o valor de alguns poetas excecionais se degrada face ao efeito de nivelamento de um panorama geral que vai flutuando para incluir aqueles poetas que se organizam num regime de caciquismo e não perdoam um esquecimento ou uma ausência. E é evidente a diferença de alcance entre os tantos nomes referidos, especialmente nos momentos em que Martelo se aplica numa leitura crítica de certas passagens, um exercício a que este livro apenas se entrega ocasionalmente, merecendo destaque, pela capacidade de nos empolgar, a análise minuciosa de um poema de Alberto Pimenta e de várias passagens de Manuel Gusmão. De resto, o esforço a que a autora se dedica neste livro parece mais o de propor a caderneta dos poetas, uma espécie de prefácio a uma antologia que respeitaria uma certa denuncia da sociedade em que vivemos e, ao mesmo tempo, que concede lugares no coro que se junta quando alguém arrebata o piano e, com isso, conquista uma adesão generalizada. E isto deve-se ao facto de, hoje, os focos de resistência na poesia se prenderem quase sempre ao esquema de inclusividade, num contrato coletivo que funciona ele mesmo como uma fórmula de aplanar, enumerar, produzir uma espécie de caricatura sociológica que consiga agradar ao maior número possível de presuntivos poetas. O percurso deste livro segue, assim, um regime de dispersão de vozes que, vindo de fora, reconduzem as vozes da poesia portuguesa a uma perspetiva crítica comum e complementar, endividando as segundas em relação às primeiras, submetendo-as a análises que conseguem ser bem mais expressivas e conclusivas noutros campos discursivos, normalmente de ordem teórica. Ou seja, as balizas da poesia parecem ser definidas a partir de fora, cabendo-lhe meramente ilustrar essas noções, pertencer à sombra dos acontecimentos e da sua avaliação, não à sua realidade. Assim, a poesia torna-se como que uma imagem que se converte no fantasma de uma visão anterior a ela.

Mas há algo de mais profundo e que assinala um aspeto verdadeiramente inconciliável entre a postura crítica de Rosa Maria Martelo e Alfonso Berardinelli, uma diferença que nos permite traçar uma dicotomia decisiva no que respeita a modos de encarar a literatura e a poesia. No percurso do crítico italiano, aquilo que faz dele uma figura absolutamente exemplar, para lá da agudez mordaz e do brilhantismo das suas análises, prende-se com uma coerência radical, e com esse momento em muitos aspetos axial da sua intervenção que é a decisão de ter abandonado o ensino universitário. Não se tratou de uma simples escolha norteada por motivos pessoais, mas foi algo de constitutivo de alguém que acredita que a razão deve exercer-se de uma consciência que não perdoa, e o facto é que pagou o preço por esse pecado capital. Ao renunciar à sua cátedra, insultou o mundo académico, deixando claro que preferia a precariedade económica, o ter de viver modestamente e sem garantias de espécie nenhum com o que conseguisse auferir com os seus livros de ensaios, com a colaboração esporádica nos jornais e com trabalhos de edição. Há um ensaio em que Berardinelli explica o processo que o levou a tomar aquela decisão. “É possível ensinar literatura moderna?” – este é o título. É um texto crucial, provavelmente o mais corajoso e consequente esforço no sentido de fazer uma separação das águas no que toca à atitude com que actualmente certos leitores especializados se relacionam com as obras literárias. Berardinelli começa por questionar se o encontro entre a literatura moderna e os leitores pode verdadeiramente ocorrer no ambiente de uma instituição de ensino. “É ali onde se constata o contacto livre, autêntico, sem limites e sem preconceitos, sem objetivos preestabelecidos, entre as obras de literatura moderna e os jovens na qualidade de estudantes? Sim e não. Porque se, por um lado, a universidade e a escola são utopias e ilhas culturais, lugares onde nos quais se exerce uma liberdade que noutros se torna bem mais difícil, por outro lado, são instituições alienantes, jaulas e cárceres das quais desejamos evadir-nos, reguladas e controladas por um tipo de guardiães que prometem uma coisa maravilhosa, a cultura, da qual parecem, sobretudo eles, saber muito pouco.” Este entendimento daquilo em que estas instituições se transformaram, sobretudo a partir das reformas introduzidas pelo Processo de Bolonha, não anda longe da opinião de uma parte considerável do corpo docente das universidades portuguesas, e particularmente na área de Humanidades. Rosa Maria Martelo tem sido bastante crítica desse regime de competição que tomou conta das universidades, e certamente acompanharia Berardinelli quando este afirma que dificilmente resiste ainda algo de utopia cultural naquilo que se passa dentro destas instituições, onde os professores com uma réstia de idealismo “enfrentam uma casta de funcionários ou burocratas empenhados acima de tudo em auto-reproduzir-se, figurinhas que encaram os autores e os livros como obstáculos a superar nas suas carreiras, de resto infelizes, no sentido de alcançarem o êxito académico”. Berardinelli explica que, antes de abandonar a universidade, deu aulas com “uma certa paixão” ao longo de quase 20 anos, mas que foram os aspetos aborrecidos e nauseantes da profissão o que o levou a abrir mão do prazer que tinha em partilhar o seu assombro e o seu conhecimento com os alunos. “Sempre fui da opinião que aborrecer (ou oprimir) os estudantes (jovens a viverem os anos mais vitais e vulneráveis das suas existências) com obras-primas da literatura, da filosofia ou da arte, é um delito cultural que deveria estar previsto no Código Penal. É como dar cabo de um quadro ou amputar um membro a uma estátua num museu.”

Acrescem às dificuldades de se ensinar seja o que for que exija não só o estudo como a assimilação – “por imitação, por identificação, por contágio” – numa instituição como a universidade dos nossos dias, os elementos paradoxais da literatura moderna, uma vez que esta situa “indivíduos sedentes de autonomia no seio de uma sociedade cada vez mais organizada”. Berardinelli adianta que, em seu entender, a característica mais paradoxal, conflitual e dramática da literatura moderna, e uma característica que se torna evidente no contexto da sala de aula, é que a maior parte dos grandes autores modernos são críticos da modernidade, e isto é algo que “os eternos profetas e fetichistas do Progresso e do Desenvolvimento não conseguem perceber nem digerir”. Face às condições que têm conduzido à expansão do Mercado e da produção para o mercado, a própria cultura, diz-nos este crítico, converte-se, no seu conjunto, em instituição e administração: “converte-se num sector administrado (e burocratizado) da vida pública, ou num ramo do mercado, um tipo particular de produção de mercadorias”. Ora, o professor de literatura moderna está constantemente a tropeçar em livros e páginas que não fazem outra coisa senão cilindrar esta mercantilização da cultura, e isto diz-lhe que o “escritor moderno”, na verdade, é um ser absolutamente anti-moderno, no sentido em que se exprime como um crítico acérrimo da ideia de progresso, da burguesia e da classe média, do historicismo, da razão instrumental e utilitária, da democracia cultural, da burocracia e da sociedade. Até aqui, nada disto entra propriamente em contradição com a pauta crítica de que Rosa Maria Martelo se serve neste seu livro para enquadrar a generalidade dos poetas portugueses. O problema começa precisamente no ponto em que Berardinelli vinca a forma como as vozes desesperadas ou sarcásticas destes indivíduos refractários que são os escritores modernos, particularmente associais e rebeldes, tornam a tarefa do professor algo bastante ingrato, pois se realmente for consequente e fizer ressoar hoje, no contexto de aula, e no seio de uma instituição como a universidade estas críticas, rapidamente o conteúdo das aulas adquirirá um tom escandaloso.

Nas suas duas décadas como professor de literatura moderna, Berardinelli chegou à compreensão de que esta, não só é perigosa, como raramente é edificante. “Tive a clara impressão de que, na verdade, a literatura moderna, como certos textos religiosos, não pode ser ensinada sem mais, ou ensinada segundo a ascética, funcional e eficientista concepção moderna do ensino. Á literatura moderna acede-se através da participação. Não é propriamente um objeto de estudo, é uma experiência que, como outras, comporta riscos que não se podem prever.” Houve um momento em que Berardinelli diz ter-se sentido posto em causa, quando leu aos seus alunos uma passagem particularmente “chocante e explícita” do “Diário” de Kierkegaard, a qual deixa muito clara esta contradição em que a literatura moderna coloca o professor. Eis um excerto: “Eu amo o homem comum, mas os docentes causam-me aversão. Foi precisamente a categoria dos ‘docentes’ aquela que desmoralizou a Humanidade (…) a infâmia reside no facto de, entre estas eminências e o povo, se terem distinguido um bando de canalhas, esta pandilha de charlatães, que sob o pretexto de servirem também eles a Ideia, atraiçoam os seus verdadeiros servidores e confundem a mente do povo, e tudo com o fim de obterem miseráveis vantagens terrenas. Se o inferno não existisse, seria necessário criar um para albergar os docentes, cujo crime é precisamente de uma tal gravidade que não se consegue castigá-los facilmente neste mundo.” Berardinelli diz ter entendido a partir deste momento que ensinar literatura moderna, se de facto for possível fazê-lo, obriga a colocar em estridente, dissonante e conflituoso contacto uma instituição que tende a integrar socialmente e a formar uma classe dirigentes com um conjunto de autores e de obras que não fazem outra coisa senão endereçar-nos mensagens de denúncia, de agressivo ressentimento, de não conciliação e de revolta.

Ora, é aqui que fica clara uma diferença de grau e que sinaliza, na verdade, uma diferença absoluta nas posturas deste crítico e de Rosa Maria Martelo e tantos outros dos leitores especializados da literatura moderna. Se Martelo acompanha Berardinelli em muitos aspectos, como nos vai dizendo neste livro e noutras intervenções, nomeadamente quando este entende que uma das epidemias que mais têm vicejado na sociedade moderna e organizada é uma forma de estupidez muito moderna e muito organizada, da qual as instituições de ensino certamente fazem parte, então, e se não quer colaborar neste estado de coisas, deverá concordar também com Berardinelli quando diz que somos obrigados “a deixar de ser ‘leitores hipócritas’ que se servem de todo o tipo de desculpas para evitar a identificação com os autores, para não levar a sério as suas palavras, para evitar penetrar nesse território minado que é a vida real e não institucional da literatura moderna”. Mas Rosa Maria Martelo, como tantos outros, conseguem encontrar sempre ressalvas, alcançar um compromisso, definir cláusulas em letra miúda que lhes permitem agarrarem-se a um certo idealismo como a uma bóia, um idealismo convenientemente ingénuo, de forma a defenderem a sua progressão na carreira académica e nos meios culturais. De resto, mesmo a edição deste seu livro só foi possível graças a uma dotação da Fundação para a Ciência e a Tecnologia para o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, ao qual está ligada. Assim, num livro como este assistimos a essa operação engenhosa que passa por criar esse muro de contenção que tem permitido que, nas últimas décadas, em vez de a universidade se dedicar humildemente a estudar a cultura, na verdade, como denunciou João Pedro Grabato Dias, em Portugal, esta passou a ser o ditador da cultura. E apesar de ter uma visão muito crítica desta instituição, Rosa Maria Martelo é certamente um desses docentes que, em vez de meros mediadores, hipnotizados por um desejo de protagonismo, assumem todos os meios para ditar ou restringir, para forçar a modelos de cordialidade e exaltar os projectos e os autores que enquadram o seu círculo de relações, numa espécie de pacto com vista a promover aqueles que têm bons modos e o devido respeitinho pela autoridade dos professores.

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