22/02/2024
 
 
Artur Albarran (1953-2022). O rosto do sensacionalismo

Artur Albarran (1953-2022). O rosto do sensacionalismo

Jornal i 21/02/2022 14:11

Artur Albarran morreu aos 69 anos. O antigo jornalista e apresentador de televisão lutava há vários anos contra um cancro. 

No jornalismo, a subtileza e o rigor são certamente os melhores conselheiros, mas a vida, no fim, cose-se com uma linha patética, no sentido em que a paixão e os ímpetos, até irracionais, são aquilo que melhor explica as motivações dos homens, e Artur Albarran sabia que há muito a tarefa de relatar as notícias deixou de ser apenas dar conta da realidade e se tornou algo mais parecido com fazer com que as coisas aconteçam. Sem as notícias da sua morte, continuaríamos intrigados com o seu desaparecimento do espaço mediático, tendo sido um dos grandes personagens da televisão portuguesa, o homem que conseguiu gravar na memória de todos aquela expressão ridícula mas carregada de um efeito hipnótico: «A tragédia, o drama, o horror...». Esta frase foi o coroar da cedência das televisões ao sensacionalismo para obter audiências, o que não apaga as qualidades de Albarran enquanto comunicador, destacando-se pelo estilo arrojado, imaginativo e muito ativo.

Artur Albarran morreu aos 69 anos. O antigo jornalista e apresentador de televisão lutava há vários anos contra um cancro. Estava internado no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa. A primeira batalha contra o cancro ocorreu há uma década e, depois de ter recuperado aparentemente de um mieloma múltiplo (uma espécie rara de cancro) foi submetido há três anos a um transplante de medula óssea. «Passados oito anos, mais uma vez umas semanas num quarto bolha, em isolamento hospitalar para segundo transplante de medula óssea. É como nascer outra vez. Espero sair daqui como novo», escreveu, na altura.

O seu estado de saúde foi agravado no verão passado quando foi diagnosticado com covid-19, levando-o a lutar pela vida na unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Amadora-Sintra.

Nascido em Moçambique, filho de um empresário da área das madeiras exóticas, Albarran mudou-se para Portugal aos 18 anos. Após o 25 de Abril de 1974, o antigo jornalista tornou-se ativista da extrema-esquerda, foi acusado de participar no assalto à Embaixada de Espanha - organizado pela UDP, a 27 de setembro de 1975, e que custou um milhão de contos ao Estado português. Fugiu então para França, sendo julgado à revelia, mas ficou livre das acusações. Numa entrevista ao jornal Semanário, em janeiro de 1992, explicou que estava em reportagem para a rádio. «Às tantas, disse ao microfone que ‘a embaixada está a arder e bem. Pensaram que eu estava a apoiar o assalto, mas aquele ‘e bem’ significava ‘e muito’». Uma década depois, numa entrevista à Focus alongou-se: «Um dia, quando morrer, hão de querer pôr no meu epitáfio: ‘Aqui jaz o homem que incendiou a Embaixada de Espanha.’ Por mais politicamente incorreto que isto possa parecer, digo-lhe: infelizmente, não fui eu. (…) Temos de enquadrar as coisas no seu tempo. O Franco era um assassino».

Foram os anos de juventude e esta tinha, então, outras intenções, outros horizontes, e uma natureza bem mais radical. Inspirado pelo Maio de 1968, Albarran chegaria a filiar-se no Partido Revolucionário do Proletariado, organização fundada por Carlos Carneiro Antunes e Isabel do Carmo, em 1973, por dissidência com o PCP. Ficou responsável pelo departamento de propaganda e informação. «Fui ‘radical’ num momento em que a ideologia tinha outro peso na política, não só em Portugal, mas no mundo inteiro», justificou, numa entrevista ao jornal O Diabo, em novembro de 1993. Em 1978, foi acusado num dos processos das Brigadas Revolucionárias, por alegadamente ter participado, como motorista, no assalto a um banco em Soure (que acontecera dois anos antes). O que o obrigou a fugir do país. Durante esse tempo, esteve por quase todo o mundo, mantendo-se fora de Portugal durante quatro anos. Trabalhou num jornal argelino, numa rádio francesa, na estação britânica BBC, em Londres, no canal americano ABC e no Brasil. Durante a sua ausência foi julgado à revelia e ilibado.

A carreira jornalística fora iniciada no Rádio Clube de Moçambique, passou ainda pelo Rádio Clube Português antes de ter integrado a equipa que fundou o programa Grande Reportagem na RTP no início da década de 1980. Foi o enviado especial do canal à Guerra do Golfo, em 1991, e, no ano seguinte, acompanhou o conflito na Somália. Em 1993, mudou-se para a TVI e, três anos depois, assinou com a SIC, deixando a informação e apostando no entretenimento ao tornar-se apresentador de vários programas, como A Cadeira do Poder e Acorrentados, sendo este último o programa que marcou a sua despedida dos ecrãs.

Em 1997 abandonou o mundo da televisão e tornou-se empresário ligado ao ramo imobiliário pela empresa americana Euroamer, de Franco Carlucci. Em 2005, foi alvo de uma investigação do Ministério Público, suspeito de branqueamento de capitais e falsificação de documentos. Chegou a ser detido pela Polícia Judiciária por suspeita de crimes económicos e branqueamento de capitais, mas nunca houve uma acusação. Depois da detenção, saiu com termo de identidade e residência e, ao fim de sete anos, o caso foi arquivado. 

Dois anos antes tinha sido acusado pela ex-mulher, Lisa Albarran, de violência doméstica, com quem teve duas filhas. O ex-jornalista sempre negou as agressões e pediu compreensão para com Lisa porque sofria de «uma grave doença mental». 

Ler Mais

Os comentários estão desactivados.


×

Pesquise no i

×
 


Ver capa em alta resolução

iOnline