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Maradona. Saudades do tempo em que Deus era canhoto

Maradona. Saudades do tempo em que Deus era canhoto

Afonso de Melo 15/12/2021 13:59

Boca Juniors e Barcelona, dois dos clubes nos quais Diego Armando jogou, homenagearam-no ontem com uma partida na Arábia Saudita com vitória dos argentinos nos penaltis (7-6).

Boca Juniors e Barcelona não quiseram deixar de lado o momento em que Maradona, aquele Deus atrevido e canhoto, que marcava golos com as mãos e com os pés, sempre do lado esquerdo (até o golo à Inglaterra foi com a mão esquerda), e decidiram jogar um contra o outro em Riyadh, na Arábia Saudita, numa homenagem paga com o dinheiro do petróleo que, nos dias de hoje, governa o mundo do futebol. Ontem à tarde, enfrentaram-se com Diego Armando pelo meio. Sim, sabemos todos nós, que o Nápoles acabou por ser o clube da sua vida e da sua morte. Mas não era o clube do seu coração, que batia à velocidade do coração de um cavalo. O coração que lhe roubaram, já morto, antes de o entregarem à terra.

Quando nasceu em Villa Fiorito, Lanús, no dia 30 de Outubro de 1960, arredores pobres de Buenos Aires onde, cinco anos antes, um homem chamado Hipólito Anacarsis Lanús, um figurão rico como Cresus que chegou a chefe da Polícia de Buenos Aires, quis erguer um centro industrial único naquele tempo, Diego Armando Maradona já tinha no sangue o chamado do Boca Juniors, o clube dos descamisados de Caminito e do Barrio de La Boca, ali no lugar concreto onde vivem os platenses, gente de mar e terra, sempre à espera dos navios que os levem para longe até ao dia obrigatório do regresso.

A história de Diego Armando começou no dia 20 de Outubro de 1976, quando alinhou pelo Argentinos Juniores frente ao Talleres de Córdoba, dez dias antes do seu 16º aniversário. Usava o número 16 nas costas, talvez por causa disso mesmo e, na primeira vez que tocou na bola, fê-la passar por entre as pernas de um adversário. Depois, no fim do jogo, disse: “Sinto-me como se tivesse tocado o céu!” E o céu não podia esperar por Maradona.

Passou cinco anos no Argentinos Juniors, marcando 115 golos em 167 partidas, e foi vendido ao Boca Juniors por quatro milhões de dólares. Voltava a tocar o céu. O Boca era o seu clube. Por isso recusou um contrato bem mais vantajoso com o inimigo, o River Plate. Mais uma vez, como se o Destino já o tivesse feito prisioneiro, a sua estreia com a camisola inspirada na bandeira da Suécia foi contra o Talleres de Córdoba, desta vez marcando dois golos na vitória por 4-1. No dia 10 de Abril de 1981, sentiu na boca o gosto a fel de derrotar o River. Em La Bombonera marcou um golo extraordinário, driblando os campeões do mundo Tarantini e Fillol antes de depositar tranquilamente a bola nas redes. O Boca ganhou 3-0 e foi campeão. O único título que Diego Armando conquistou na Argentina.

Barça Depois do Campeonato do Mundo de 1982, em Espanha, que correu terrivelmente para os argentinos, defendendo o título de campeões do mundo, e ainda mais terrivelmente para Maradona, expulso frente ao Brasil por uma agressão bárbara a um adversário, o Barcelona entrou em campo e levou Diego Armando para Camp Nou numa transferência recorde para a época de 7,6 milhões de dólares. O treinador do Barça era César Luís Menotti, o homem a quem Maradona nunca perdoou não ter sido convocado para a grande aventura nacional que foi o Mundial de 1978. No dia 26 de Junho de 1983, no Clássico face aoReal Madrid, em Chamartín, Maradona marcou um golo soberbo, isolando-se frente ao guarda-redes Augustín, passando por ele com uma perna às costas e, com a baliza vazia, fez questão de esperar pelo defesa Juan José que vinha furibundo como um comboio na sua direcção, deixando-o deslizar num carrinho inofensivo e esbarrar contra um poste, enquanto puxava a bola para fora do seu caminho e, finalmente, assinava o golo. Surpreendentemente, os adeptos do Real levantaram-se para o aplaudir.

Um mês mais tarde, Maradona foi atacado pela hepatite e, em seguida, pela selvajaria de Andoni Goikoetxea Olaskoaga, o Carniceiro de Bilbau, que lhe partiu um tornozelo. Na final da Copa do Rei de 1984, entre Barcelona e Athletic, uma batalha campal atirou Diego Armando para fora do clube, tal a violência como, no desenrolar de uma tranquibérnia, caçou o adversário a patadas como se fossem ratazanas perante 100 mil pessoas e o Rei Juan Carlos. Uma declaração da direcção do clube lançou-o para os braços do Nápoles: “Não vemos forma de podermos continuar esta relação”.

Ontem, no regresso do brasileiro Daniel Alves pelo meio de uma equipa de meninos, Barça e Boca empataram a um golo (marcaram Jutgla e Zeballos), com vitória argentina nos penaltis – 7-6. Ninguém esquece Maradona.

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