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Energia nuclear, o elefante no meio da COP26

Energia nuclear, o elefante no meio da COP26

Dreamstime João Campos Rodrigues 07/11/2021 14:56

Ninguém quer falar do nuclear, mas há quem diga que é indispensável a um futuro verde. França quer reatores ao estilo ‘Ikea’, a China aposta forte.  

A energia nuclear virou tema desconfortável nos bastidores da COP26, em Glasgow. Se nos últimos anos começou a haver um certo consenso em redor da necessidade de abandonar os combustíveis fósseis, e o mais difícil é que as ações batam certo com a retórica, não há grandes certezas quanto ao papel que as centrais nucleares poderão ter nessa transição verde. 

No seio da União Europeia, a discórdia é notória. Países como França empurram a ideia de que o nuclear é verde, por causar emissões mínimas de gases com efeitos de estufa. Outros, como a Alemanha, veem-no como um risco de segurança, uma outra tragédia que deixamos aos nossos descendentes, pela produção de toneladas de resíduos nucleares, alguns dos quais continuarão radioativos durante dezenas de milhares de anos, senão centenas. E a definição da energia nuclear enquanto verde, ou não, poderá ter impacto no acesso da indústria a milhares de milhões de euros em fundos europeus, ao longo dos próximos anos. 

Enquanto isso, os Estados Unidos têm abraçado a energia nuclear como solução para países em desenvolvimento – anunciaram esta semana que vão gastar 25 milhões de dólares para financiar reatores no Brasil, Quénia, e Indonésia, enquanto deixam os seus 56 reatores nucleares envelhecer, mantendo alguns ativos bem para lá do prazo de validade, com o investimento no setor a cair. E a China, cada vez mais sedenta de energia, aposta forte no nuclear, planeando construir pelo menos 150 reatores ao longo dos próximos 15 anos. 

«Apesar de toda esta aposta nas energias renováveis, que deve ser feita e incentivada, dificilmente estas energias sozinhas vão conseguir produzir a quantidade de energia necessária, com a fiabilidade que é preciso para podermos fazer esta transição», sentencia Bruno Gonçalves, presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear, do Instituto Superior Técnico (IST).

Olhe-se para o caso de França, que obtém mais de 70% da sua eletricidade de reatores nucleares. Tornaram-se pioneiros no campo no rescaldo das crises do petróleo dos anos 70, que causaram uma enorme crise económica e deixaram este país decidido a não depender mais deste combustível fóssil. 

«Atualmente, com o diminuição da energia nuclear em vários países próximos de França, esta está a fornecer energia elétrica proveniente do nuclear a vários países que disseram que a iam abandonar», salienta Bruno Gonçalves. «Se pensarmos bem, Portugal também consome energia nuclear, compramos energia a Espanha e a França. Parte dessa energia, em alguns momentos, é energia nuclear».

É que não é só uma questão de volume de produção energética. Boa parte das energias renováveis, apesar de cada vez mais eficientes e baratas, têm o problema de não serem constantes. Pode faltar vento para a energia eólica, sol para a solar, água nas barragens para a hídrica – de momento, temos muito poucas opções constantes, como a energia geotérmica, que não é possível obter em todo o lado.

E cada vez mais cientistas reconhecem que uma porção de energia nuclear, no meio de uma mistura de renováveis, pode ser o suporte do sistema energético, aquilo que está lá quando as restantes falham. 

«Há necessidade de que haja maior foco no desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia. Isso poderá potenciar o uso de energias renováveis como a eólica ou solar», explica o investigador do IST. «Uma maior interligação entre as energias solar e eólica com a hídrica pode ajudar. Por exemplo, termos bombeamento de água nas barragens, para que esta esteja disponível nos momentos em que as energias mais intermitentes falham. Ainda que não seja eficiente, é melhor do que perder essa energia».

Terror antigo

Não é uma discussão fácil. O nuclear evoca-nos visões de nuvens com forma de cogumelos, clarões de luz vaporizando Hiroshima e Nagazaki, o horror de cancros e malformações, o pânico perante o acidente nas centrais nucleares de Three Mile Island, o pior em solo americano, Chernobyl e, mais recentemente, Fukushima. 

Contudo, olhando para as estatísticas, vemos que, historicamente, as centrais nucleares causam menos mortes devido a acidentes ou poluição, em função da energia produzida, que os combustíveis fósseis, e estão num nível comparável às energias renováveis. «Pense, o rebentamento de uma barragem pode ser tão mais nocivo no imediato para as populações e causar muitas mais mortes que um acidente como o de Fukushima». realça Bruno Gonçalves.

«Ainda há uns tempos rebentou uma barragem no Brasil, que não era de produção elétrica mas podia ter sido», exemplifica. Referia-se ao rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, onde se acumulavam os resíduos de uma mina de ferro, e que fez 270 mortos, devastando toda a região. 

«Há medo e estigma criado em torno do nuclear», salienta o presidente do Instituto de Plasmas e Fusão Nuclear do IST. «As pessoas conheceram o nuclear pelas bombas atómicas. Posteriormente, houve um desenvolvimento bastante grande na produção de energia elétrica, mas ficou sempre esse medo. E depois houve alguns acidentes trágicos, que aumentaram os receios do nuclear».

Hoje, a indústria nuclear promete a criação de reatores mais seguros, asseguram que diminuíram os riscos de um meltdown – o cenário catastrófico num acidente num reator, quando o líquido de arrefecimento não consegue chegar ao combustível, permitindo-lhe sobreaquecer e destruir o seu contentor, talvez até explodir. 

Além disso, as novas centrais são mais eficientes a utilizar o combustível, logo deixando menos resíduos nucleares – em vez das varetas de urânio que vemos nos filmes, típicas de centrais mais antigas, do tempo da Guerra Fria, está-se a trabalhar em soluções como combustíveis líquidos, ou manter o urânio em pequenos invólucros de cerâmica especial, do tamanho de uma bola de golfe, quase impossível de derreter 

No entanto, mesmo com todas estas inovações, não é por acaso que não vemos o investimento no nuclear a explodir – fora da China, que neste momento quer tudo o que seja energia, das renováveis, às fósseis e nuclear. Por um lado, como se costuma dizer, não há segundas oportunidades para fazer uma boa primeira impressão. Depois, porque o preço do nuclear está a escalar, comparativamente às energias renováveis, em parte devido a crescentes requisitos de segurança. 

No entanto, Bruno Gonçalves vê sinais de que esse custo possa diminuir nos próximos tempos. «Esta construção massiva que está a existir na China tem o mérito de que está a tornar a construção destes reatores uma coisa que é quase um produto em série. Tornou-se em algo em que é quase só repetir processos, isso tem tendência a fazer baixar os preços».

«Se vários países embarcarem nesta produção, talvez com reatores mais pequenos e novas tecnologias, isso possa levar a uma redução do preço», salienta. É exatamente isso que planeia França, que esta semana reverteu a sua orientação nuclear tradicional, que apostava em reatores cada vez maiores, para reatores mais pequenos, construídos por módulos, «a resposta da energia nuclear ao Ikea», descreveu a France Press.   

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