22/10/21
 
 
António Cluny 12/10/2021
António Cluny

opiniao@newsplex.pt

Onde reside hoje o desencanto dos jovens com a coisa pública?

Os jovens, como qualquer trabalhador, querem salários justos: não um estatuto de eternos subvencionados. 

A questão de estarmos, possivelmente, a criar uma geração desencantada, não é um problema exclusivamente nacional e veio abordada, desenvolvidamente, no Le Monde de 7 de outubro deste ano.

Não há muito tempo, foi publicada, em França, também, uma pequena obra intitulada «Une Jeunesse Sacrifiée» da autoria de Tom Chevalier e Patricia Loncle.

 Nela se refere exatamente este tema e se situam muitos dos problemas relacionados com a condição laboral precária e mal paga desta nova geração e, especialmente, dos que nela integram os mais recentes quadros que as universidades e politécnicos vão formando.

Os artigos que o Le Monde dedicou, naquela data, a esta questão procuram analisar o posicionamento de tal juventude em diversos planos e partindo dos diversos pontos de vista que ela exprime, incluindo, necessariamente, a desencantada, mas ainda assim expectante, relação que mantém com a política.

Seria, porventura, também interessante saber, a este propósito, qual foi, entre nós, a taxa de novos eleitores que se absteve nas últimas eleições autárquicas e em que sentido os que se quiseram exprimir o fizeram.

Não relacionado, em exclusivo, com este específico tema, calhou-me ter lido, não há muito, uma obra, que recomendo, intitulada «La Trahison des Élites Allemandes – 1770-1945», de Christian Baechler.

Quando li os artigos do Le Monde e o estudo de Tom Chevalier e Patricia Loncle, não pude evitar lembrar-me do que Baechler reportava sobre a frustração da geração que atingiu ao ensino superior, no contexto da política de democratização do acesso à universidade desenvolvida, especialmente, durante a República de Weimar.

Tal geração de jovens, que viu crescer enormemente o número de licenciados e doutorados, deparou-se, todavia, em seguida, com um mercado de trabalho fechado e muito mais mal remunerado do que o que dera emprego à geração anterior, tanto no sector público, como privado.

O congelamento dos salários da função pública alemã, agravado pela inflação existente, colocou, então, muitos funcionários e, especialmente, muitos professores numa situação de quase indigência, o que os impedia de prover às suas necessidades básicas, designadamente os impossibilitava de ter acesso a uma habitação decente quando eram deslocados para sítios remotos e onde não tinham contactos ou apoio familiar.

O desapontamento criado em relação ao regime democrático que havia facilitado a tal geração de jovens o acesso ao ensino universitário foi muito importante no aproveitamento político que os nazis dele fizeram antes e depois de chegarem ao poder.

A referida obra de Baechler não aborda apenas, ou especialmente, este tema.

Enquadra-o, antes, numa visão mais geral da evolução, posicionamento e perturbação da identidade de diversos corpos profissionais e religiosos (cujos representantes eram então pagos pelo Estado alemão) e que constituíam o que aí se caracteriza como “burguesia cultural”.

Não deixam, aliás, de ser deveras interessantes as análises também dedicadas, por exemplo, à evolução do posicionamento político das profissões jurídicas (e nestas dos juízes e procuradores), dos médicos, dos académicos e, em geral, dos funcionários públicos.

Tudo questões atuais, portanto.

Reler esta obra e meditar no que acontece hoje e pode acontecer no futuro, parece, pois, de grande relevância num momento em que, entre nós, se projetam e se esperam tomar medidas que condicionarão os caminhos imediatos e próximos da nossa sociedade.

Uma das coisas que mais me impressionou num dos artigos que li do Le Monde foi, precisamente, a repulsa dos jovens de serem encarados como destinatários de uma política essencialmente assistencial, em vez de deverem ser, como é e seria natural, vistos como sujeitos merecedores de salários justos, condignos e proporcionais aos seus conhecimentos e desempenho profissional.

A mesma questão foi, aliás, levantada por uma manifestante francesa que foi entrevistada pela TV na mesma semana, aquando de uma manifestação por melhores salários ocorrida nesse país.

Com rara clareza e veemência, referiu essa cidadã francesa que o que queriam os manifestantes não era, no essencial, mais apoios estatais para minorar uma situação social gerada por salários de miséria.

Queriam, sim, como trabalhadores responsáveis que eram, salários justos e não um estatuto de subvencionados.

Esta qualificação de muitos dos salários atuais como injustos e de miséria não é, todavia, uma radicalidade política:  até o insuspeito Boris Johnson se lhes referiu assim no recente congresso do partido conservador britânico.   

Este parece ser, de facto, o cerne do problema: os empregadores passam para a responsabilidade do Estado – para os contribuintes, portanto – a fatura devida pelos insuficientes salários que pagam aos seus trabalhadores.

O Estado comparticipa, afinal, por via assistencial e indireta, no assegurar dos rendimentos (dos salários) da maioria dos trabalhadores e não apenas nos da função pública.

Perante os que lhes pagam as empresas, os cidadãos e, sobretudo, os mais jovens, para sobreviverem, necessitam, absolutamente, de tais compensações suplementares estatais.

São, por isso, essas compensações que, bem ou mal, evitam a rutura total do sistema político e social e permitem, ainda assim, a paz pública de que vamos gozando e que, além do mais, permitem o funcionamento da economia.

Mas são elas, também, que deprimem e desencantam quem, e muitos caos, tem, por sistema, de a elas recorrer por sistema.

Certo é que, de outro modo, a pobreza – que muitos dizem e repetem querer combater – seria ainda maior e mais chocante.

O Estado – que uns tantos abominam e outros diabolizam – acaba, pois, por se substituir aos empregadores privados na compensação parcial do trabalho que lhes é prestado pelos que para eles laboram sem receberem o que devem e merecem.

É ele que paga os subsídios e fornece apoios sociais vários, que, em alguns casos, só se justificam, precisamente, por os salários diretos dos trabalhadores serem absolutamente insuficientes para proverem as suas necessidades normais e as das suas famílias.

Aqui a falácia de quem defende «menos Estado, melhor Estado».

Desta forma, porém – convém lembrar –, haverá sempre um aumento crescente da despesa pública e não haverá nunca, também, a possibilidade da tão almejada redução de impostos aos que trabalham e aos que, verdadeiramente, desenvolvem a economia.


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