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Contra a solidão. Alugue um amigo por 40 dólares à hora

Contra a solidão. Alugue um amigo por 40 dólares à hora

Pedro Miranda 06/10/2021 15:05

A economista Noreena Hertz explora no livro O século da solidão um fenómeno iniciado no Japão e que chegou agora aos EUA: há cada vez mais gente a pagar para alugar amigos.

 

1.SINTOMAS.

a) Rent a friend. São 40 dólares à hora. Já foi tempo de ser uma especificidade japonesa, o negócio migrou para os EUA, e diversos outros países seguiram-lhe os passos. Há empresas que “alugam amigos” - a quem está sobrecarregado de trabalho e não tem tempo de construir amizades, a quem se sente só, a quem quiser pagar por uma hora, tendo quem o escute, tendo com quem falar. Normalmente, nos EUA, são jovens, estudantes universitários sem emprego, ultra-endividados com as elevadas propinas do ensino superior, os “amigos” que se disponibilizam para serem “alugados” (o sítio, na net, da empresa ‘Rent a friend’ tem 620 mil amigos para alugar, p.11). Também há “abraçadores” profissionais, 80 dólares/hora (e a economista Noreena Hertz, durante a elaboração de “O século da solidão” (Temas e Debates, 2021), conheceu um homem que, de tão carente, se desfez da casa para ter ocasião de gastar 2000 dólares/mês com profissionais deste ofício, passando a viver no carro – vide, p.219); 

b) As avós japonesas andam a assaltar lojas para irem presas – e são reincidentes. Nas últimas duas décadas, quadruplicou o número de crimes cometidos por japonesas com mais de 60 anos. 70% reincidem no crime nos 5 anos seguintes;

c) Estrelas de Mukbang. Comer até cair para o lado, com milhões a assistir do lado de lá do ecrã. Chegam a ter dois milhões de fãs (que lhes enviam chuva de estrelas a preço elevado). Se almoçar sem companhia pode ser deprimente, o mesmo parece não acontecer, para muitos humanos deste estádio do século XXI (em que nos encontramos), se se estiver a seguir, via net, enfarta-brutos, comendo como desalmados, do outro lado do mundo. Ver para crer (p.88);

d) Há estudiosos que, com minúcia, decantaram a semântica das canções deste tempo (comparando-as com o imediatamente precedente). A Ocidente, mas também a Oriente – nomeadamente, na China -, as letras das canções, nas últimas três/quatro décadas, perderam, sucessivamente, os “nós” para ganharem, sistematicamente, muitos “eu”;

e) Face há uma década, é agora menos provável: i) o humano ir a uma Igreja ou Sinagoga; ii) viver ou comer juntamente com outros humanos; iii) tocarmo-nos ou termos relações sexuais;

f) Em 2010, 60% dos residentes em lares, nos EUA, não tinham tido uma única visita durante o ano;

g) Menos uma hora dia, de socialização, pelos adolescentes norte-americanos, do que em 1980 (p.131);

h) Reverência pelos anciãos a Oriente? Dado tão poucos filhos visitar em os pais, negligência parental passou a ser crime na China, desde 2013 (p.175); no Japão, a quantidade de pessoas que vivem com um dos filhos diminuiu 50% nas duas décadas antes de 2007;

i) 15% dos homens japoneses passam semanas sem falar com alguém; 1/3 acha que não tem a quem pedir ajuda para trocar uma lâmpada; 

j) 2,5 vezes mais abstinentes sexuais, na atual geração, do que os da geração X, uma década antes; 3/5 dos japoneses, dos 18 aos 34, não estão em nenhuma relação romântica, aumento de 20% face a 2005;

k) parece crescer, em várias latitudes, o afecto por robôs: há quem tricote gorros para os seus robôs em lares (de idosos, em que os cuidados prestados por robôs estão muito presentes; no Japão, ao contrário do Ocidente, os robôs não têm sido representados como assassinos, mas como solidários e heroicos (p.228); um soldado norte-americano, durante uma das (recentes) missões no exterior, chorou a morte de um robô, O iPal, humanoide, para tratar de crianças, já é bastante procurado na Ásia e já há robôs transgénero (dentro do afecto por objectos, um homem, em Boading, norte da China, foi sepultado no carro, tal a ligação que tinha com o seu Hyundai, p.222). Noreena Hertz documenta a existência de “caixas de bênçãos religiosas” – em lugares onde estavam “caixas multibanco”.

2.DIAGNÓSTICO. UMA ENORME SOLIDÃO PERPASSA O MUNDO.  Em 2018, no Reino Unido, 1/8 dos cidadãos afirmava não ter um amigo em quem confiar; 1/3 dos holandeses sente-se só, o mesmo que ¼ dos suecos e 3/5 dos adultos nos EUA (e 56% dos londrinos); 2/3 dos alemães consideram a solidão um problema grave (p.12). No Reino Unido, 2/5 de todos os idosos indicaram que a TV era a sua principal companhia; nos EUA, 1/5 dos millenials diz que não tem quaisquer amigos.  Mais: a solidão está subestimada, dado que há um estigma associado a ela. Estudiosos dos crimes de idosas no Japão concordam que a solidão é o factor fulcral para estas práticas (basta um furto em loja). A solidão é 2 vezes mais prejudicial do que a obesidade; é tão má como o alcoolismo; pior do que não praticar exercício; equivale a 15 cigarros por dia (p.15). A probabilidade de morte prematura em quem se sente só é 30% superior à de quem não se sente só (p.29). Quem se encontra em elevado grau de solidão, tende a desenvolver o dobro de pensamentos suicidas (p.42). Os desempregados são mais solitários do que quem trabalha (p.53). Em 1992, investigadores começaram a encontrar sinais de correlação entre isolamento social e votos em partidos de extrema-direita.

3.CAUSAS DA SOLIDÃO. x) Migração em massa para as cidades - o nível de cordialidade nas cidades é mais baixo do que no campo (a pessoa dá um encontrão a alguém, a caminho do metro, e a probabilidade de encontrar aquela pessoa é ínfima: em muitos casos, não sente o estímulo, nem o dever, de pedir desculpa pelo acto); e quanto maior a densidade urbana, menor a cordialidade; o anonimato protege a hostilidade e o descuido (pp.78-79). Ritmo de movimentação na cidade, hoje, 10% superior à observada em 1990. Mais acelerado, ainda, no Extremo Oriente. xx) Reorganização do trabalho – se o open space, em meados de 70, poderia germinar como que uma utopia de uma colaboração próxima entre funcionários da mesma empresa ou da administração pública, hoje, este tipo de escritório (½ dos escritórios na Europa e 2/3 nos EUA), tende a conceber-se como de estrita vigilância, levando ao recolhimento, à defensiva por parte de cada um. Nenhuma conversa significativa medra, o sentimento é de alienação. Já não se toma café a meio da manhã, um copo depois do trabalho, deixou de haver jantar em casa de colegas (p.165). Desde 1990, horários extremamente longos aumentaram nos países da Europa Ocidental. No Japão, há, inclusive, uma palavra própria para pessoas que se matam a trabalhar: karoshi. Na China, fala-se em “996”: estar às 9h, sair às 9h, 6 dias por semana. Trabalhar demasiadas horas torna-nos solitários (p.173). Os nossos trabalhadores, de resto, tornaram-se inescapáveis - nas férias, aos serões ou fins de semanas. Clientes enviam sms a empregadas às 2h da manhã – mas, e por outro lado, é o chefe que obriga a abrir email ou somos nós que não resistimos a uma dose de dopamina? (p.175). O movimento MeToo, nos excessos que terá aduzido quanto ao relacionamento homem-mulher pode, também, ter contribuído para um receio de um contacto que passe para lá da formalidade; os sindicatos conhecem uma hora de grande erosão; a eficácia e eficiência tudo dominam, superando a dimensão do bom relacionamento inter-pessoal. Em realidade, 40% de trabalhadores de escritório em todo o mundo sentem-se solitários; no Reino Unido, são 60%; na China, mais de 50%; nos EUA, 1/5 dos trabalhadores não tem um só amigo no trabalho; 85% dos trabalhadores a nível global não se sentem comprometidos com o seu trabalho (p.153). Ademais, 1/8 dos trabalhadores do UK em 2018 eram trabalhadores pobres (11% em Portugal). E muitos trabalhadores pensam que “ou comem” ou “são comidos”. Numa palavra, há um “crescente sentimento de impotência no que toca aos direitos” laborais (p.197). xxx) um modelo económico-social neoliberal – tal como, por exemplo, por exemplo, Paul Collier (em “O futuro do capitalismo”, D. Quixote, 2020), Noreena Hertz, pretende não uma alternativa, mas uma cura à atual fisionomia que o capitalismo assume. Para a autora, é claro que “o capitalismo nunca foi uma ideologia singular” (p.282), ou seja, há vários “capitalismos” (vários tipos de capitalismo). E evidenciará, como veremos de seguida, como várias empresas e Estados começam a seguir várias boas práticas para uma mutação desejável. Para a economista, no entanto, o modelo das últimas décadas exacerba a ênfase na competitividade, no interesse individual, o egoísmo erigido a virtude, o pretenso self made man como ídolo, acima do bem comum; a desigualdade gerada, imensa; muita gente deixada para trás, uma sociedade dividida em (ou entre) vencedores e fracassados; com condições crescentemente piores para trabalhadores. A solidariedade, a generosidade, o cuidado com o outro foram subestimados consecutivamente. O lema passou a ser, desde há cerca de quatro décadas, “a ganância é boa”. y) a preeminência que atribuímos, no quotidiano, aos smartphones e às redes sociais, bem como a robotização emergente. Em média, olhamos para o telemóvel 221 vezes ao dia, 3h15 minutos de uso diário, estamos quase permanentemente online; 1/3 dos adultos do mundo consulta o telemóvel 5 minutos depois de acordar. Muitos, a meio da noite, caso acordem, entretanto. Uma rua de Seul está a instalar raios laser que ativam notificação no smartphone dos peões zombie; semáforos de parar/avançar no chão dos passeios para peões saberem se é seguro atravessar sem terem de levantar os olhos do chão em cidades como Sidney, Telavive e Seul (p.115). Metade das crianças com 10 anos no Reino Unido tem smartphone e, destas, mais de metade dorme com ele junto à cama. Por outro lado, ainda, note-se que os mais pobres passam mais tempo em frente aos ecrãs e o guru Bill Gates só permitiu telemóveis aos filhos aos 14 anos. Escolas sem ecrãs, escolas (que seguem o modelo) Waldorf são as escolhidas por uma boa parte dos executivos de Sillicon Valley que, aliás, promovem contratos com amas em que estas se comprometem a não utilizar telemóveis à frente de crianças (p.128). Em Singapura, ¾ dos adolescentes dizem que foram vítimas de assédio online. Verdadeiro perigo: acharmos que o nosso verdadeiro “eu” é menos popular do que o “eu digital” optimizado. O tempo passado nos smartphones e redes sociais será roubado à socialização humana – ou, pelo menos, à intensidade da mesma (registo para “o papel crucial do rosto na criação de empatia” (p.122), ainda que dados sobre a utilização e presença nas redes sociais tenham evidenciado que estas são, também, geradoras de felicidade para muitos humanos; atente-se, ainda, que as mensagens do Facebook com menos de 80 caracteres conseguem mais de 66% de interacções). Esta “virtualização da vida” gera constrangimentos ao nível de competências outrora dominadas por uma esmagadora maioria: “como é que se pede a alguém para sair connosco?” é uma interrogação que hoje se coloca…ao Google; no Boston College, há créditos extra para os alunos que saírem com alguém presencialmente; há universidades (norte-americanas) que oferecem cartões-presente da Starbucks aos alunos que não tocarem nos telefones durante a aula.

yy) Fontes de identidade tradicionais em causa: classe, emprego, Igreja - nacionalidade, etnicidade, língua e género surgem, hoje, para muita gente, como mais atractivos para se pertencer. A natureza, sempre mutável, das relações; a natureza, sempre mutável, do trabalho, a “sociedade líquida”, contribui, igualmente, de sobremaneira para o estado de coisas. yyy) para os “conservadores”, o colapso da “família tradicional”, o declínio da participação no culto religioso, um estado-providência muito presente e não responsabilizante (dos indivíduos) conduziu à presente situação; os “progressistas”, por sua vez, apontam ao que falta colectivamente realizar, assumindo que o Estado tem um papel de importância crucial a desempenhar, até porque “quando alguém acha que nem a comunidade, nem o estado se preocupa consigo, então é a própria fé na política que fica em causa.”. Para Noreena Hertz, algo haverá de verdade em ambos os diagnósticos – “conservador” e “progressista” – mas o concatenar de causas é mais amplo, complexo e extenso, conforme vimos de observar.

4.O QUE DIZEMOS, AFINAL, QUANDO DIZEMOS “SOLIDÃO”? Com o que fica até aqui referido, podemos assinalar que a solidão é um “estado interior e existencial – pessoal, social, económico e político” (p.18); “a solidão não é [pois] um problema exclusivamente individual” (p.239). Se o sentimento de solidão advém da percepção de não sermos escutados ou compreendidos; de (percepção de) darmos valor a ideias que para os outros são improváveis; de (percepção de) não podermos comunicar aos outros coisas que consideramos importantes (p.56); do sentimento de perda (de comunidade, de segurança económica, de estatuto social) e, mais radicalmente se quisermos, da necessidade evolutiva básica de pertencermos a algo maior do que nós (p.64: note-se, aqui, a entrega a todos os fundamentalismos, religiosos ou políticos), a solidão não é, reitera-se, apenas um estado de espírito subjectivo. É também uma forma de estar colectiva que nos cobra um custo elevado; sentimento de sermos negligenciados e desapoiados; solidão que, em suma, implica (para a debelar) governos, sector empresarial, indivíduos (p.279). Ou seja, e em definitivo, dependência do smartphone, vigilância do local de trabalho, economia gig (isto é, economia de biscates), experiencia sem contacto (uma série de coisas que vêm, nos nossos dias, ter connosco, a nossa solicitação, sem que tenhamos que ter contacto com humanos por causa disso): a solidão vive dentro de um ecossistema.
Já em fase de ensaios clínicos, encontram-se comprimidos para diminuir a percepção da solidão (actualização de Huxley, e sua Soma, com um sorriso irónico lá onde estiver, por certo), quando esta tem causas políticas, económicas, culturais.

5.IDEIAS, SUGESTÕES, SOLUÇÕES, BOAS PRÁTICAS PARA SUPERAR A SOLIDÃO. Pressuposto: uma Comunidade - que é, ao fim e ao cabo, o que gostaríamos de (voltar a) ter - não se pode comprar, nem impor pela Administração (não chegam, pois, o mercado ou o Estado unilaterais/exclusivos ou excludentes). Comunidade: pessoas a fazerem coisas juntas (p.270)  z) Entretanto, nas CIDADES: entre a sociedade civil, porque não?, atentar no exemplo, em uma cidade norte-americana, do café com grupo de tricô, às quartas-feiras, ou concurso anual de confecção de tartes, ou anotar a disposição de cadeiras (do mesmo), segundo a qual as pessoas se sentam de frente umas para as outras; entretanto, antes da covid-19, tínhamos já a noção de, um pouco por toda a parte, muito frequentadas aulas de ginásio, ioga, zumba - nas quais as pessoas buscavam, sobretudo, convívio, verdadeiros novos lugares litúrgicos (em tempo em que a conservação do corpo e da saúde, como Lipovetsky escrevia, há décadas, sobre o vazio, são tudo); o mesmo – quanto ao desiderato final - se diga, em grande medida, sobre muitos festivais de música (como nota, com graça, Hertz, se, nestes festivais, se ouviu uma banda musical é porque alguma coisa correu mal…). As empresas locais podem contribuir, pagando acima do salário mínimo, com regalias e formação profissional e estágios remunerados a jovens da comunidade. Por outra banda, as livrarias locais desempenha(ra)m, historicamente, o papel de centros comunitários fundamentais – grupo de leitura que abrangia toda a cidade – e pode considerar-se, atento este papel, isenções fiscais às mesmas. Quanto ao poder político, portanto, olhemos o município de Camden, em Londres, e registemos que aquele selecionou 56 residentes – empresários, imigrantes, aposentados, funcionários públicos – para debaterem/encontrarem soluções de combate ou mitigação às alterações climáticas (como encorajar os cidadãos a adquirir alimentos locais? Como tornar as escolhas verdes mais acessíveis?), com moderadores qualificados a orientarem as discussões – e, diga-se, chegaram a acordo quanto a 17 medidas; zonas e dias sem carro à experiência, instalar mais ciclovias exclusivas (p.291). Em Taiwan, o processo de democracia deliberativa online conta com 200 mil pessoas. Já em Roeselare, foi criado um imposto sobre lojas vazias, dando um muito maior dinamismo a zonas da cidade paradas. E, porque não, tendo regressado o serviço militar em diferentes países, um serviço comunitário? Emmanuel Macron criou um projeto-piloto de serviço cívico obrigatório para adolescentes. Durante o mesmo, estes são expostos a/debatem temas como sobre discriminação, igualdade de género, etc. (p.300). Outra ideia: aulas de cozinha, teatro ou desporto frequentadas por crianças de escolas de diferentes meios sócio-económicos, étnicos, religiosos para mobilizar uma renovada coesão social. Acampamentos para adolescentes de 16 anos com gente de todos os meios. (p.301). Em um mundo extremamente polarizado (os extremos ideológicos prosperam), também os media desempenham (ou podem desempenhar) um papel fulcral: o jornal alemão “Die Zeit”, por exemplo, face a esta realidade, organizou uma espécie de “tinder político”, em que participam 40 mil pessoas, de lados opostos do espectro político (e cujos resultados evidenciam uma maior compreensão do outro e seu ponto de vista, uma não demonização daquele e das suas perspectivas). Estes debates passaram, nomeadamente, por perceber a perspectiva do outro sobre a UE ou acerca do nuclear; outros exemplos de práticas de procura de formação de comunidade(s): em Nova Iorque, o Public Theatre junta pessoas para representarem e debaterem peças de teatro; Bristol, junta pessoas em torno da gastronomia; na Colômbia, o futebol junta membros que eram das FARC e suas vítimas (p.297). 

Passemos, agora, ao zz) mundo do TRABALHO. Começando por BOAS PRÁTICAS EMPRESARIAIS rumo a um tempo menos solitário, mais cortês, com maior sentido de comunidade: a ‘Daimler’ estabeleceu que todos os emails enviados para os colaboradores durante as férias seriam automaticamente apagados. O ‘Lidl’, em alguns dos seus mercados, proibiu emails entre as 18h e as 7h da manhã, bem como aos fins de semana (p.177). A maior Companhia de Electricidade no Reino Unido dá 10 dias suplementares de licença paga para os seus colaboradores que cuidam de idosos ou outros familiares incapazes; assim, poupa-se, ao mesmo tempo, em ausências imprevistas (cujos custos, já agora, ascendem a milhares de milhões de euros) (p.180). A ‘Nationwide Building Society’ oferece aos seus colaboradores dois dias por ano dedicados a ajudar comunidades locais. A ‘Salesforce’ dá até 7 dias de voluntariado remunerado em cada ano; A ‘Microsoft’, no Japão, oferece 5 sextas-feiras consecutivas de folga sem reduzir remuneração. Além disso, proporciona apoio financeiro a cada colaborador, de 750 libras, nomeadamente para viagem em família. Após estas medidas, verificou-se que a produtividade aumentou 40%, absentismo diminuiu 25%. Diminuíram os custos, houve benefícios ambientais, em particular com a diminuição do consumo de electricidade em 23%, sendo que foram impressas menos 59% de páginas de papel.

Diversamente, há, ainda, CONSTRANGIMENTOS e perigos em ACTUAÇÕES CORPORATIVAS que importa ter em conta: a ‘Amazon’ adquiriu patentes de bracelete que permite por exemplo monitorizar o coçar de uma comichão, ou o tempo que se demora a ir à casa de banho (p.191); No Wisconsin, a empresa ‘Three Square Market’ colocou microchips nas mãos de 50 trabalhadores (ainda que de modo voluntário) (p.203); entrevistas virtuais para emprego parecem estar a tornar-se norma (as grandes corporações recebem milhares de currículos, cujo exame se torna muito prolongada): candidatos avaliados em função do léxico utilizado, o tom, a cadência, as expressões faciais – mas estes items necessitam de ser fortemente sindicados/escrutinados. E pense-se, por exemplo, na exigência do sorriso: há grandes diferenças culturais relativamente ao sorriso (americanos sorriem mais vezes, e mais rasgadamente, do que alemães, japoneses e finlandeses; o que num lado seria quase como um requisito, ainda que duvidoso que se pudesse exigir a alguém, noutro seria tomado como uma impertinência de um trabalhador); uma pessoa com deformação facial, já agora, não consegue sorrir da mesma forma (p.188-189). Nos EUA, ¼ dos adultos foi despedido ou ameaçado de despedimento por tirar tempo para recuperar de doença ou cuidar de familiar doente. 

E o que pode fazer uma Administração, ao lidar com as empresas, com o objectivo de um mundo menos solitário, mais próximo? Em França, em empresas com mais de 50 trabalhadores, há o “direito a desligar” (telemóvel, email, etc. pós-laboral), desde 2017. Em Espanha, tal sucede desde 2018 (Itália e Bélgica juntaram-se-lhes). Agora, vários países estão a ponderar o mesmo (assim aconteceu no Chile, Argentina, México, Perú) (p.178). Dado que “estamos na verdade a meio da mais significativa reorganização do trabalho desde a Revolução industrial” (p.190), com a eclosão de uma mais significativa aposta na robotização por uma parte do mundo empresarial em diversos países - nos EUA, há 3,5 milhões de pessoas que são caixas de supermercados e sabemos como temos, já hoje, alternativa automática, nesses mesmos supermercados, a esses profissionais; o ‘Breadboat’, o robô padeiro, lançado recentemente, consegue amassar, moldar, provar e cozer 235 pães grandes por dia. (p.210) colocando, do mesmo modo, os profissionais desta área em cheque; um novo braço robótico prepara 20 cocktails em simultâneo; temos, em um outro exemplo, o robô porteiro; a televisão estatal chinesa, a Xinhua, têm pivots de noticiários vindos da IA, o primeiro – Zhang Zhao, fez a 1ª emissão em Novembro de 2018 e a pivot Xin Xaomeng, surgiria, via IA, em fevereiro 2019; em suma, um mundo cheio de robôs irá intensificar a nossa solidão – poderia propor-se deduções fiscais a empresas que concedam o emprego a humanos; taxação, com imposto sobre os salários, de robôs; por causa da competitividade, a taxação de robôs, sem embargo, teria que ser realizada a nível global; a Coreia do Sul, o país mais robotizado do mundo, cortou nas deduções fiscais e empresas com automação (p.215). Acrescente-se que Trump teve melhores resultados onde os robôs mais tinham sido mais adoptados (p.209). O mundo passa por uma crise que acontece uma vez em cada geração. 

Quanto ao MODELO ECONÓMICO-SOCIAL, “o cuidado e o capitalismo têm que ser reconciliados”, adverte Noreena Hertz. Precisamos de um “capitalismo mais atencioso e gentil”; no trabalho, a máxima já não pode ser apenas satisfazer os accionistas, mas devemos (e as novas gerações demandarão) encontrar companheirismo, propósito, um espírito de comunidade; em um modelo de desenvolvimento sustentável, acederemos a postos para veículos eléctricos; plantaremos árvores; faremos a reabilitação energética dos edifícios municipais; criaremos bibliotecas, clubes de juventude; empenhar-nos-emos em energias renováveis, centros comunitários e haverá substantiva encomenda de obras aqueles que alimentam o espírito a sociedade: artistas plásticos, escritores, músicos (isto que também aconteceu no New Deal, com Roosevelt) (p.284). Alterar métricas/padrões de medição ou aferição de como vai uma sociedade, que não passem apenas pelo crescimento e a produtividade: por exemplo, elaboração de métrica relacionada com a solidão, confiança nos concidadãos e governo, sentimento de pertença (dos cidadãos à comunidade). Em síntese, precisamos de passar “de consumidores a cidadãos, do receber para o dar, de observadores casuais a participantes activos” (p.303). 

Finalmente, e face à DEPENDÊNCIA DE SMARTPHONES OU DAS REDES SOCIAIS, o exemplo de Noreena Hertz passa pela indicação de que temos, actualmente, uma série de pessoas a desligarem-se por completo dessas plataformas. Comprometer-nos com uns dias fora do digital e a Administração obrigar à existência de mensagens a berrar a dizer que as redes sociais fazem mal (tal como sucede, desde há alguns anos, face aos maços de tabaco) são sugestões. Diferentemente, micro-interacções com outras pessoas fazem bem: mesmo a breve conversa com o empregado do balcão, parecendo que não, tem um efeito regenerador. 

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