28/01/2022
 
 
Rodrigo Gonçalves 29/09/2021
Rodrigo Gonçalves

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Os Novos Tempos em Lisboa

Dia 26 tivemos mais uma tradicional noite de eleições autárquicas onde as grandes surpresas surgiram uma vez mais. Mas de todas as surpresas a maior foi a vitória de Carlos Moedas em Lisboa, “contra tudo e contra todos”, como o mesmo disse no seu discurso de vitória.

Carlos Moedas foi eleito Presidente com 34% dos votos, correspondente a 7 mandatos e Fernando Medina conquistou o segundo lugar com 33% dos votos e os mesmos 7 mandatos que Moedas. Já a CDU garantiu 2 mandatos e o Bloco de Esquerda 1.

Fazendo uma análise simples destes resultados Carlos Moedas terá uma situação difícil uma vez que a esquerda junta tem 10 vereadores contra os 7 da coligação Novos Tempos, o que poderá antecipar um cenário de ingovernabilidade caso a esquerda queira bloquear a governação da Câmara Municipal de Lisboa.

Perante este cenário cresce a expectativa de perceber quais são as reais capacidades negociais de Carlos Moedas que é conhecido pelo seu bom temperamento, capacidade de gerir equipas e capacidade de reunir consensos.

Carlos Moedas trouxe uma nova forma de fazer política e com a sua vitória podemos até antever uma mudança de paradigma relativamente á avaliação que os eleitores fazem dos políticos.

O estilo mais retraído, cordial, algo tímido, com algum nervosismo relativamente ao confronto, a pouca experiência em debates desestruturados (típicos de confrontos eleitorais), mas com um traço intrinsecamente sério parece ter conquistado os eleitores lisboetas.

Por outro lado, o estilo tacticista, mais frio, mais profissional, algo agressivo, por vezes altivo, com excesso de confiança e até revelador de alguma arrogância perdeu em toda a linha.

O perigo da cegueira alimentada pelo poder é o facto de se vender uma realidade que é manifestamente falsa e contrariada com resultados, neste caso, negativos. Esta eleições revelaram isso.

A perceção da realidade, construída por sondagens questionáveis e pelos comentadores de serviço, foi contrariada e Carlos Moedas foi o rosto dessa ação. Lisboa ficará com um ativo diferente de Fernando Medina uma vez que Moedas é um cosmopolita que bebeu muito do seu conhecimento e experiência nas principais capitais europeias e mundiais e isso vai favorecer a cidade.

Lisboa tem de ser uma referência mundial, em todas as suas vertentes, e os lisboetas deram a Carlos Moedas um voto de confiança para que possa cumprir essa missão.

Por outro lado, Fernando Medina foi durante muito tempo um homem na sobra de António Costa e mesmo depois de conquistar a Câmara Municipal, por mérito próprio, a sombra do atual primeiro-ministro sempre o acompanhou, prejudicando a sua autonomia.

No entanto Medina também tem os seus méritos e a sua missão enquanto Presidente teve coisas positivas para a cidade. Fernando Medina, apesar de tudo, é um ativo do Partido Socialista e pertence a uma geração política que tem ainda muito para dar ao País caso os eleitores assim o desejem.

Será profundamente ingénuo e prematuro vaticinar a sua morte política e será ainda mais ingénuo desvalorizar um homem que foi muitos anos membro de um Governo e 6 anos Presidente da maior Câmara Municipal do país.

Mas agora temos Novos Tempos e quem ditou isso foi o eleitorado que é, em todas as circunstâncias, soberano. Portanto abre-se um tempo em que veremos a capacidade de uns de gerir e consensualizar, e a responsabilidade de outros de construir ou pura e simplesmente destruir, sem qualquer respeito pela vontade dos lisboetas.

Negar a natureza conflitual da política é negar a sua essência. Mas apesar da natureza conflitual o que deve prevalecer é a capacidade de construir consensos que permitam antever um futuro mais promissor para os que votam nas mudanças.

O tacticismo cego tem transformado o paradigma da política ao longo dos tempos, pelos piores motivos, e isso tem-se revelado com o crescente afastamento dos eleitores. Estas eleições autárquicas foram mais uma prova disso com níveis de abstenção elevadíssimos. No entanto a vitória do homem menos político, menos tático e mais genuíno, como é Carlos Moedas, pode também representar uma inversão desta tendência.

Uma coisa não nos podemos esquecer. Seja o homem menos político (Carlos Moedas) ou o homem mais político (Fernando Medina), ambos lutaram por conquistar o poder que representa a Câmara Municipal de Lisboa e seja em que contexto for, o poder continua a ser tão cobiçado como sempre.

Citando o ex-primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti (1919-2013), “o poder desgasta, sobretudo quando não se tem”. Nenhum político (mais ou menos hábil) pensa de outra forma e nesta matéria Carlos Moedas ganhou a vantagem de conquistar o poder - sob reserva, por ausência de maioria - para poder construir o projecto da coligação Novos Tempos Lisboa.

As aparentes rupturas com o status quo e a apresentação clara de divergências e novos rumos, feita de forma pouco convencional, têm sempre riscos associados. Como dizia Sun Tzu, no seu clássico milenar, A Arte da Guerra, “A vitória está reservada para aqueles que estão dispostos a pagar o preço.”, e Carlos Moedas, nesta missão (que diz ser a mais importante da sua vida), estava disposto a pagar o preço final.

Neste momento, para Carlos Moedas, a experiência política e partidária que revelar a sua equipa passam a ter um peso de grande relevância na definição do futuro imediato e aqui os entendimentos - da direita à esquerda - são fundamentais.

Veremos se o futuro nos reserva um Presidente com a capacidade de criar uma plataforma de entendimento em Lisboa que permita governar a capital. Veremos por outro lado se a esquerda (tal como já está a ameaçar) se vai juntar para fazer uma frente contra Moedas e levar, eventualmente, a eleições antecipadas.

Uma coisa é certa, quem não tiver a capacidade de ler a vontade do povo pagará um preço elevado e isso os lisboetas deixaram bem claro nestas eleições.

 

Gestor e Mestre em Ciência Política

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