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O que foi Stuart? (1)

O que foi Stuart? (1)

Ricardo António Alves 20/09/2021 20:43

Uma única exposição individual realiza, aos 45 anos, na Casa da Imprensa. Stuart, talvez desleixado e pueril, mas livre, não tinha jeito ou apetência para se vender, embora do trabalho lhe viesse o sustento.

Nova visita a um pioneiro dos quadradinhos em Portugal, embora num âmbito mais largo, abrangendo as várias dimensões em que Stuart se expressava, do cartoon à pintura, do capismo e ilustração ao desenho publicitário. Foi o que fez João Paulo Cotrim (Lisboa, 1965), argumentista de BD, entre outras coisas, aqui no papel de historiador ensaiante em torno da vida e obra do criador de Quim e Manecas, em Stuart – A Rua e o Riso (2006), livro de grande formato e volume, para ser lido e visto (e, no nosso caso, também sublinhado) – tudo menos um coffe table book, embora o sainete seja garantido. É excelente o trabalho de Cotrim, pela profusão das imagens, a forma pensada com que o livro foi arrumado e o levantamento das fontes, em que não faltam as homenagens de colegas do mesmo ofício (de Valença a Amarelhe) ou nossos coetâneos (de António a João Fazenda, inéditos até aqui). Acresce fragmentos dos homens dos jornais, como Norberto Araújo, das revistas literárias, o caso de José Pacheko (Contemporânea e Portugal Futurista), e o incomparável e desvairado Reinaldo Ferreira, o Repórter X (nom de plume que aproveitou de um desenrascanço de tipógrafo que não percebera a assinatura), que assim escrevia sobre essoutra deste Stuart, em 1923: “Um S a tombar sobre um t hirto que estende a mão ao u escancarado e que ameaça engolir o a d’imprensa que se lhe segue e que, por sua vez, parece galgar um r que vai encostado a um t final, espécie de poste de cruz, a fechar...” (p. 22). Com eles, fragmentos de escritores de coturno mais alto, como veremos para a semana.

Nascido em Vila Real, José Herculano Stuart Torrie d’Almeida Carvalhais (1887-1961), provindo de famílias tradicionais, foi um aristocrata da boémia lisboeta, de onde irradiava o talento que a necessidade e a dependência alcoólica não tolhiam. Muito cedo iniciado nas lides jornalísticas, começa a publicar em O Século, no ano seguinte ao da morte de Rafael Bordalo Pinheiro, de que não será herdeiro, como Cotrim sublinha, ao contrário dos nomes proeminentes do desenho humorístico de então. Começa por assinar JStuart Carvalhaes, mas na década de 1910 já marcava de espadachim os trabalhos que lhe saíam. Depois de um breve período em Paris, que lhe alargou as vistas, regressa, casando-se, em 1913, com uma varina, “como a querer dizer que desposa a cidade” – escreve o autor; essa Fausta Moreira, cujo traço não conheceremos, tornada onírica à força de a imaginarmos; e ele, Stuart, o culpado, graças a essa obsessão boa pela beleza do sexo feminino, como também veremos.

Uma única exposição individual realiza, aos 45 anos, na Casa da Imprensa. Stuart, talvez desleixado e pueril, mas livre, não tinha jeito ou apetência para se vender, embora do trabalho lhe viesse o sustento. Norberto de Araújo, numa passagem que impressiona, fala “[n]esse rapaz que a si próprio tão insuficientemente se respeita” (o “rapaz” já tinha 40 anos), fazendo uma comparação um pouco forçada com Verlaine. Pode ser, Mas respeitar-se como e o quê, senão o próprio trabalho, numa Lisboa, retrato do país, provinciana e basbaque? (continua)

Stuart – A Rua e o Riso
Autor João Paulo Cotrim
Editora Assírio & Alvim e El Corte Inglés, Lisboa, 2006

 

BDTECA

Abecedário.
I, de Iznogoud (Goscinny e Tabary, 1962). “Quero ser califa no lugar do califa!” A perfídia com requinte oriental instalada na BD. O grão-vizir Iznogoud tudo faz para remover o soberano, porém não foi avisado pelos autores de que ele é apenas uma personagem – embora a mais popular – de uma série intitulada “As Aventuras do Califa Haroun el Poussah”, o indolente nababo que governa os crentes.

Livros.
Concerto para Oito Infantes e um Bastardo, de Fernando Relvas (1954-2017). Um dos primeiros “contemporâneos” da nossa BD, este álbum publica as aventuras do Jaca, figura surgida no semanário Se7e, em 1982 e 1983 (A Seita).

Debout les Morts, de Frantz Duchazeau. Quando os zapatistas derrotados da Revolução Mexicana são mandados trabalhar nos campos, é-lhes dito: se precisarem de mais braços, que desenterrem os que perderam a vida na sangrenta guerra civil. É assim que no dia dos mortos, as caveiras saem dos túmulos e empreendem a perseguição aos carrascos. Na vanguarda desse exército de mortos e vivos está Emiliano, jovem coveiro, sedento de vingança sobre os terratenentes brancos que lhe mataram o pai, exploram os camponeses mestiços e usam o corpo da noiva, Malinche, uma índia, a troco de dinheiro. (Éditions Sarbacane).

 

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