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Khalid Jamal. "O Islão ensina-nos a sermos pessoas moderadas"

Khalid Jamal. "O Islão ensina-nos a sermos pessoas moderadas"

Miguel Silva Sónia Peres Pinto 27/08/2021 15:03

O senior advisor do presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa admite que depois do 11 de setembro foi criada uma “visão muito distorcida e radical do Islão”.

Khalid Jamal é português, nasceu e cresceu em Portugal, mas pratica a religião muçulmana. Censura os extremismos de alguns grupos que seguem os seus valores, como os talibãs e a Al-Qaeda e acredita que se não houvesse este radicalismo “a imagem seria diferente”. Defensor do bom senso e do equilíbrio garante que a saída das tropas norte-americanas no Afeganistão foi “um bocadinho atabalhoada” e, por isso, mostra-se apreensivo em relação ao novo regime, afirmando que o papel das mulheres no Islão seja minimizado. E não tem dúvidas: “Acho incompreensível que, mais uma vez, se olhe para questões pontuais e se minimize o papel da mulher em função da religião, dizendo que é a religião que a inferioriza quando na realidade é a cultura e a forma de ver de alguns países islâmicos”. No entanto, reconhece que a partir do 11 de setembro a forma de ver os muçulmanos mudou na opinião pública, começando a serem vistos “com reserva e desconfiança”. E os problemas não ficam por aqui, o senior advisor do presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa garante que “os crentes vão ter de encontrar novas formas de praticar a sua fé porque a prática religiosa vista hoje quando comparada com há 20 anos está completamente ultrapassada”. E isso aplica-se a todas as religiões. Quanto a Portugal afirma que “é um país singular, para não dizer absolutamente extraordinário e talvez um dos mais marcantes, onde existe uma liberdade religiosa quase vivida no seu pleno a nível mundial”.

Como vê a situação vivida no Afeganistão?

Como português que sou e professo a religião islâmica é evidente que fico aqui um pouco dividido. Dividido não na questão da própria política ou da soberania que são questões sobre as quais, enquanto dirigente de uma comunidade islâmica, procuro não interferir, mas fico um pouco apreensivo com este regime talibã e com estes senhores que dizem ser meus irmãos de fé que praticam atos, muitas vezes, bárbaros e completamente incompreensíveis à luz da sociedade ocidental e quase mundial. Ou seja, à luz de uma civilização moderna e cosmopolita praticam estes atos em nome da religião. Para mim, é completamente incompreensível como é que, por exemplo, no século XXI se desrespeita, viola e menoriza o papel da mulher em função de uma religião e que é uma religião que, segundo se consta estatisticamente, é a segunda maior religião a nível mundial. Estamos a falar de 1600 milhões de pessoas. Não queria intrometer-me muito em matéria política, mas devo dizer que lamento esta situação porque me parece um retrocesso civilizacional gigante. Se em 2001, com a entrada norte-americana no terreno, vimos luz ao fundo do túnel e achámos que provavelmente as circunstâncias iriam mudar no terreno, hoje ficamos com a perceção que parece que foi tudo em vão. E isso sabe a pouco e deixa-me um pouco amargurado, confesso.

Considera que a saída das tropas americanas foi precipitada?

Nunca foi fácil combater no Afeganistão, não quero tomar as dores do Governo norte-americano e sei que são decisões difíceis. A fatura é muito pesada para estar lá e não foram só os Estados Unidos, foram todos os países da União Europeia, entre os quais Portugal, como aliados da NATO. Confesso que a saída das tropas do regime norte-americano parece-me um bocadinho atabalhoada como temos vistos pelos meios de comunicação. E isso é visível pelas declarações do meu amigo Jaime Nogueira Pinto que fala numa ‘espécie de debandada’ e, segundo o que nos é permitido observar, parece que a saída foi um tanto ou quanto apressada, o que prejudica uma transição de regime que fosse feita de forma paulatina e mais pacífica para que fosse o melhor para os locais.

Os talibãs aparecem sob uma nova liderança e prometem respeitar os direitos das mulheres, desde que estas sigam a lei islâmica….

Enquanto dirigente de uma comunidade deveria dizer que sim, mas confesso que tenho muitas reservas em relação a isso. Sempre acreditei que a forma de educar, formar sociedades e criar novas mentalidades no quadro de uma sociedade é muito difícil e é um processo demasiado longo. Não acredito que em 20 anos, porque decorreram 20 anos desde a entrada de tropas americanas no Afeganistão, que os afegãos e o regime talibã tenham a maturidade que desejávamos para que começassem a tomar decisões no terreno. Por um lado, devido ao sentido de Estado desejável para dominar uma nação e, por outro lado, para que se despissem ou se despojassem daquilo que são os seus princípios ultraconservadores, não islâmicos, mas fundamentalistas ou extremistas para que conseguissem dignificar ou, pelo menos, não menorizar o papel da mulher. Olho para esta nova tomada de posse com muitas reservas e com uma enorme apreensão.

Há relatos de jovens afegãos que dizem ter sido espancados, chicoteados e ameaçados por usarem calças de ganga...

Não acredito que seja mentira, mas penso que são casos isolados. Também acho que há algum exagero porque evidentemente o que se pretende retratar quando se fala destes casos caricatos é que haja um retrocesso civilizacional grande. Acho que devemos ser prudentes, não olhar para um caso isolado e generalizar e achar que todos aqueles que usam calças de ganga no Afeganistão vão ser chicoteados até à morte. É preciso observar estes casos que são sintomáticos de um retrocesso civilizacional, mas também a pouco e pouco começar a formar esta sociedade que se vai criar com uma nova mentalidade e espero que com uns resquícios de alguma mudança que os Estados Unidos e que os aliados tentaram pôr no terreno.

Sente que há uma visão destorcida da interpretação da religião?

Sem dúvida. Infelizmente e com muita pena digo que a minha religião tem sido, nos últimos 20 anos, instrumentalizada em função de vários fins e de várias agendas, seja económica, política, etc. E, mais uma vez, acho que claramente estamos perante uma situação destas, em que alguém se apodera de uma religião e sob a falsa capa de uma religião tem outro tipo de motivações: política, de negócio, mercantilista e acho que é isso que acontece com os talibãs. Se reparar no famoso autoproclamado Estado Islâmico vemos que essas pessoas que se dizem muçulmanas, quando vamos analisar os seus hábitos de vida e o seu quotidiano não nos parecem, embora não seja ninguém para julgar, porque têm um conjunto de atitudes, seja de princípios, seja depois de atitudes de quotidiano e de prática que se possam dizer compatíveis com uma religião. Fala-se que a maior parte dos agentes do Estado Islâmico, ou seja, dos combatentes que estão no terreno depois drogam-se, bebem bebidas alcoólicas. Ora bem, há com certeza muçulmanos que bebem álcool, mas em bom rigor, a nossa religião condiciona-nos a uma série de hábitos, de comportamentos e até de uma atitude e de uma conduta que não é compatível com aquilo que estes senhores fazem.

Este tipo de comportamentos acaba por arrastar toda a comunidade muçulmana?

Vou usar uma expressão que é muito simbólica: ‘O justo paga pelo pecador’ e infelizmente o que tentamos – não tentamos vender uma religião que não existe – dizer é que a religião que praticamos e a forma como encaramos essa prática é de uma forma pacífica, de uma forma moderada. O Islão obriga-nos a isso, ensina-nos que devemos ser pessoas moderadas, não devemos ser só pessoas que praticam a religião porque a vivência quotidiana e social é tão importante quanto a prática religiosa. A nossa relação com Deus só é boa se respeitar o meu vizinho, o meu irmão. No Islão, o direito do vizinho é superior ao direito da família. Claro que o Islão surge num conceito tribal na Península do Golfe Pérsico, hoje Arábia Saudita, em que o vizinho era muito mais importante do que a família. Dou-lhe um exemplo do quotidiano em que isso acontece: se for de férias quem põe, por exemplo, o meu carro a trabalhar talvez seja o meu vizinho e não a minha tia que vive no Brasil. É preciso olhar para isto, observar aquilo que a religião islâmica diz em relação a certas coisas e sobretudo adicionar uma dose de bom senso porque sem bom senso nada se faz.

E em relação às mulheres, o que diz?

O Alcorão diz que homem e mulher são diferentes. Essa diferença não significa necessariamente desigualdade. Sou um bocadinho suspeito para falar porque tenho na minha família grandes referências de mulheres, seja a minha mãe, seja a minha avó e acho que os homens estão um bocadinho enganados quando dizem que a sociedade é patriarcal porque de facto existem muitas matriarcas. E o papel da mulher e principalmente da mãe é absolutamente imprescindível. Gosto sempre de dar o exemplo do Profeta que quando foi questionado se devia gostar mais da mãe ou do pai e respondeu: primeiro da mãe, segundo da mãe, terceiro da mãe e só em quarto lugar é que está o pai. O Islão dá um grande enfoque ao papel da mulher, especialmente nesta feição maternal que todas as mulheres, em princípio, terão. Acho incompreensível que, mais uma vez, se olhe para questões pontuais e se minimize o papel da mulher em função da religião, dizendo que é a religião que a inferioriza quando na realidade é a cultura e a forma de ver de alguns países islâmicos.

Mas quando diz que são diferentes, isso não significa que um seja superior ao outro?

Não há uma relação de superioridade e de inferioridade. Se olhar para o Islão, o que o Islão define é que homem e mulher são uma criação divina e reflexo daquilo que são as qualidades divinas, num plano diferenciado em relação a Deus. A singularidade do Islão é que, ao contrário do cristianismo – em que Deus criou o homem para se aproximar do ser humano – no nosso caso Deus não gerou, nem foi gerado. No entanto, está numa dimensão física diferente da do homem. O que defendemos é que homem e mulher são uma criação de Deus e foram criados como seus servos. Gosto especialmente de olhar para o papel da mulher como aquilo que os meus imãs me ensinaram no passado e com uma visão muito especial em relação à mulher porque é dotada de qualidades e de capacidades que um homem não tem.

Isso não é impedimento para não trabalharem.

Nada disso, são um conjunto de normas que são criadas no contexto de sociedades e que vão beber inspiração ao texto corânico e que enviesam ou, de certa forma, criam interpretações obtusas e enviesadas daquilo que é o texto do Alcorão. Não há sítio nenhum em que o Islão defina que a mulher não possa trabalhar. Aliás, o profeta Muhammad [Maomé] na Arábia Saudita inaugurou um conjunto de regras que até então eram consideradas muito inovadoras e muito singulares, naquele contexto altamente primitivo. Nesse tempo, as bebés recém-nascidas do sexo feminino eram enterradas vivas e o profeta Muhammad foi o primeiro líder a abolir e a dizer que aquilo era uma barbárie o que se fazia. Temos sempre a tendência, por ignorância nossa, de sobrepormos a cultura e a religião. Em bom rigor, os hábitos culturais e as tradições culturais nada têm a ver com aquilo que a religião defende.

Este estigma foi criado a partir do 11 de setembro?

Acho que o 11 de setembro foi um evento de tal modo marcante ou importante, seja a nível mundial e especialmente no contexto de universo islâmico, que rompe com aquilo que era uma visão razoável que as pessoas tinham do Islão. Criou-se aqui um conjunto de novos paradigmas, uma visão muito destorcida e muito radical daquilo que é o Islão. A partir do 11 de setembro, a esmagadora maioria da opinião pública começou a olhar com reservas e com desconfiança para a religião que pratico e a associá-la a uma religião radical, que na realidade não é. Também não quero ilibar a responsabilidade dos meus ditos irmãos de fé, infelizmente estes senhores que dizem ser muçulmanos também ajudaram na criação de uma imagem negativa. Se não houvesse pessoas que se consideram muçulmanas radicais, extremistas e que praticam atos bárbaros, se não houvesse uma Al-Qaeda provavelmente essa imagem seria diferente.

Elogiou recentemente o Papa Francisco por ver outras religiões com outros olhos...

Diria que as nossas relações com o catolicismo são feitas de avanços e de recuos. Tivemos um Papa extraordinário como João Paulo II que perdoou o cidadão turco, não sei se era muçulmano ou não, mas que o atingiu e deu mostras de um diálogo e de uma abertura de espírito enorme para outras religiões, incluindo a islâmica. Tivemos depois um Papa incompreendido no mundo islâmico – o Papa Bento XVI – essencialmente por causa daquelas declarações de Ratisbona, onde na visão de muitos muçulmanos foi um bocadinho severo em relação à religião islâmica. Não fiquei ofendido, nem magoado com as suas afirmações porque acho que era um intelectual e que falava para um determinado grupo de pessoas. Este Papa caracteriza-se por coisas que acho extraordinárias. Primeiro, tem uma mensagem muito aberta, muito universalista, muito humanista e parece-me pretender que quer retomar os valores da compaixão, da irmandade e da união entre os povos. E a religião islâmica inclui-se nisso. A primeira atitude que todo o crente deve ter é o de não julgamento ao próximo. Os católicos dizem ‘quem nunca pecou que atire a primeira pedra’. O que me parece que faz falta, especialmente nos países de maioria islâmica, é praticar a minha religião, sem estar a vigiar o próximo. Não tenho de ser inspetor da religiosidade do próximo. A minha religiosidade tem de ser espontânea, natural na minha vivência quotidiana. A partir do momento em que deixarmos de julgar o próximo ou de olhar para o vizinho do lado, sem perceber se esse pratica mais ou menos a religião vai ser um grande avanço e uma grande melhoria na convivência e na relação entre as pessoas.

Sente que a maioria está de costas voltadas para a religião?

Acho que os crentes vão ter de encontrar novas formas de praticar a sua fé porque a prática religiosa vista hoje quando comparada com há 20 anos está completamente ultrapassada e isso é fruto de várias circunstâncias. Primeiro, devido ao avanço, à globalização e a um conjunto de fenómenos que assistimos nos dias de hoje. Em segundo lugar, costumo brincar e apontar o dedo a mim próprio e dizer que também é fruto da mediocridade de alguns líderes. Os nossos imãs, os nossos responsáveis das comunidades – sejam religiosos, sejam eclesiásticos puros, quer estejam a liderar comunidades – têm de encontrar formas apetecíveis dos crentes voltarem a falar com Deus e de regressar às suas comunidades. A noção de comunidade não está ultrapassada, nem a noção de espiritualidade, por isso é que olhamos hoje para outras práticas que não são tidas, pelo menos, do ponto de vista conceptual encaradas como religiões puras, mas que têm imensos adeptos e fiéis. E porque é que isso acontece? Porque as pessoas sentem falta de algo, de uma espiritualidade mas estão cansadas das instituições religiosas e de pessoas que lhes dizem que se desviarem um bocadinho daquela linha condutora não têm lugar nesta comunidade religiosa. Acho que isso tem de deixar de existir.

Daí a Sharia que informa e aconselha, em teoria, os muçulmanos sobre todos os aspetos da vida...

A Sharia é um quadro de normas que emerge do próprio Alcorão e, portanto, inspira-se nos valores corânicos, que deixam de ser os valores religiosos e tem um aspeto particularmente importante: para nós, o Alcorão, ao contrário, por exemplo, da Bíblia é uma relação divina. É uma revelação que o próprio Deus deu a Muhammad por intermédio do Arcanjo Gabriel. Por isso é que os muçulmanos têm sempre muita cautela na interpretação do texto do Alcorão porque qualquer interpretação ao lado daquilo que achamos que deveria ser o espírito da lei corânica ou daquilo que foi a mensagem que Deus quis dar aos seres humanos pode ser interpretada e considerada uma blasfémia. Acresce a isto o facto de não termos um Papa islâmico, enquanto, por exemplo, os católicos se não vão no sentido daquilo que é o espírito da Bíblia existe um Papa que os pode reorientar na sua interpretação, nós muçulmanos não temos. Os muçulmanos optam por jogar, se me permiti a expressão, um bocadinho à defesa e talvez não avancem tanto na interpretação. Acho que nós muçulmanos temos de atingir um ponto de maturidade, temos de ser mais arrojados e mais ousados ou atrevidos em esmiuçar aquilo que a lei corânica diz. Dito isto, a Sahria é um conjunto de princípios e de valores que brotam do Corão e que pretendem regular aspetos da nossa vida quotidiana e social, designadamente tudo aquilo que são as relações sociais, seja no trabalho, seja na vida social, seja na vida familiar ou religiosa.

Mas há vários tipos de Sharia?

Há. Em bom rigor devia ser só uma lei e uma lei que deveria cingir-se àquilo que são os mínimos, mas cada país de maioria islâmica interpreta à sua maneira. A lei de Sharia não é igual, por exemplo, na Arábia Saudita ou no Paquistão ou na República islâmica da Indonésia.

Isso não pode criar más interpretações?

Claro que sim. Esse é que é o grande problema. Cada um dos países de maioria islâmica interpreta a Sharia à sua maneira e à luz daquilo que é a sua vivência, o seu produto cultural e acha que aquilo é a lei única e divina. Isso é um grande problema porque não tenho limite de dizer que a minha lei religiosa, embora ambas derivem do Alcorão, é mais sagrada do que a sua. Não existe uma lei universal no universo sunita, não estamos a falar dos xiitas que também acreditam no Alcorão mas têm uma autoridade piramidal, hierarquizada que não acontece no islão sunita. Os sunitas são uma espécie de protestantes no universo islâmico. Tenho dito que faz falta uma certa autoridade no mundo islâmico sunita, pese embora seja difícil de definir quem. Muitos dos países de maioria islâmica não se reveem, nem reconhecem a legitimidade do Rei da Arábia Saudita, que é o guardião das duas mesquitas sagradas.

Seria importante ter uma espécie de ‘Papa’ islâmico para evitar estes grupos extremistas?

Na minha opinião fazia falta uma certa autoridade. Não sei se um ‘Papa’, confesso que não sei se o mundo islâmico está preparado para ter um ‘Papa’. Uma das belezas do islão é a riqueza da sua diversidade. Este mosaico de culturas, esta interpretação diversa, Deus diz no Alcorão ‘Se eu quisesse ter-vos-ia criado de uma só uma tribo’, mas criou de várias e isso é uma forma de Deus dizer aos seres humanos que ele nos criou de várias raças, tribos, culturas para que aprendêssemos a conviver entre nós e para que respeitássemos essa diferença e essa diversidade. Um ‘Papa’ ou uma autoridade central poderia ter uma certa tendência autocrática de querer homogeneizar algo que é heterogéneo e isso é um risco. Por outro lado, imagine se essa liderança fosse parar às mãos de alguém menos liberal ou mais radical e extremista era um risco. Se calhar estávamos à beira de uma terceira guerra mundial. É preciso olhar para isto com alguma cautela e acho que nestas coisas é preciso que a população seja satisfeita. Às vezes, no Ocidente temos a tendência, por exemplo, de achar que para os países do Médio Oriente a democracia era o melhor regime. Estou absolutamente convicto que a democracia, embora imperfeita, é o melhor regime que conhecemos, como dizia Churchill, mas não tenho a pretensão e acho um erro do Ocidente tentar impor e martelar uma democracia nos países que não estão preparados para a receber. E vê-se isso nos países árabes.

Acha que há muita desinformação em matéria religiosa?

Sem dúvida, acho que sempre houve porque as pessoas já manifestavam um certo desinteresse genérico pela religião porque dá trabalho e a religião como não é bem explicada parece uma seca. Um jovem de 20 anos já não quer, com todo o respeito, ouvir um padre ou um imã, a falar durante uma hora, sentado numa igreja ou numa mesquita. Precisa de ser estimulado audiovisualmente e, por isso digo que temos de aligeirar a linguagem e os meios de ensinar a religião aos mais jovens. Outro aspeto que me parece importante é que – o 11 de setembro também marcou isso evidentemente – a sociedade de informação e este mundo global fez crescer um conjunto de interesses e uma panóplia de outras coisas. A religião que no passado ocupava, centralizava e tinha um papel muito importante percentualmente naquilo que era a divisão do nosso tempo, hoje deixou de ter. As pessoas deixaram de ir à missa uma vez por semana, nós muçulmanos temos cinco orações diárias, uma particularmente importante à sexta-feira e aquilo que assistimos é que as pessoas deixaram de ir tantas vezes à mesquita, ao contrário do que iam no passado.

Essa redução foi antes ou depois da covid?

A pandemia acentuou esse êxodo da ida aos templos. Já no passado assistíamos a uma certa diminuição da frequência da ida dos templos, especialmente na vivência urbana, porque nos meios rurais continuam muito mais ligadas e o sentimento de pertença à comunidade é muito grande. E porquê? Porque a ida à mesquita comporta também um fim social e de convívio, não é só religioso. Quando vou à mesquita não vou só para falar com Deus também vou para conviver com os meus irmãos de fé. Aliás, a nossa mesquita de Lisboa é um bom exemplo disso porque é um templo que não está circunscrito ao âmbito religioso. Tem um refeitório, um pavilhão desportivo, uma biblioteca e um cibercafé, ou seja, tem um conjunto de valências que permite cumprir um fim também social. Há um estudo bastante interessante da Fundação Francisco Manuel dos Santos em conjunto com a Universidade Católica que espelha bem isso: as pessoas na vivência urbana são tentadas a ir à praia, aos bares e a outros sítios e resta-lhes menos tempo para irem aos templos. E temos de encarar isso com naturalidade.

Quando diz que se devia aligeirar as orações, isso não pode sofrer resistência por parte dos mais velhos?

Acho, mas também acho que isso é um erro. Embora perceba que haja determinados rituais, como é o caso da missa e das orações que devem ser observadas tal e qual, o preço a pagar por não aligeirar vai ser muito pior no futuro.

Caso contrário haverá esta tendência para o abandono?

Precisamente. Se formos mais Papistas que o Papa, permita-me o uso desta expressão, e se quisermos que os novos jovens sigam tudo, o que vai acontecer é que eles se vão afastar por completo da religião. Mais vale fazer algumas concessões, quais não digo, nem sei, agora como forma de trazê-los à fé e de fazê-los compreender aquilo que é a fé, a religiosidade e a espiritualidade do que mais tarde tê-los afastados por completo.

Como é ser muçulmano em Portugal?

Gosto muito de uma expressão que me foi ensinada pelo professor Tariq Ramadan, um intelectual admirável do século passado e ainda deste, dizia ‘sou um português que professa a religião islâmica, não um muçulmano português’. E esta pequena diferença de formulação espelha bem aquilo que é a minha convicção, ou seja, acima de tudo sou um português, nascido e crescido em Portugal e, como tal, com uma tradição e uma aculturação de valores culturais ocidentais plena. Estou completamente integrado no seio da sociedade portuguesa, mas pratico uma religião diferente. Porque digo isto? Essencialmente por duas razões: primeiro acho que não temos o direito de impor a nossa religião na esfera pública, a religião não deve ser só praticada no seio da minha intimidade, ou seja, devo ser livre de a poder trazer à praça pública, mas não impô-la. Quanto mais reservá-la dentro das minhas quatro paredes, seja de tijoleira, seja mentais. Isso não significa que, numa ou noutra manifestação pontual, não a espelhe externamente. Em segundo lugar, havendo o bom senso e algum equilíbrio que o Islão convida ou sugere, acho que as coisas se conseguem fazer. Não vou dizer que é fácil praticar as cinco orações diárias num país que não é islâmico. Por exemplo, nos Emiratos ou na Arábia Saudita, normalmente as lojas, os centros comerciais têm espaços para se fazer a oração e as pessoas param nem que seja cinco minutos para fazer a oração. Aqui seria um pouco incompreensível dizer a meio de uma reunião ou de um almoço de negócios que tenho de parar para fazer a oração. Às vezes quando tenho mais confiança digo, outras vezes não digo, mas faço uma pausa de cinco minutos e faço a minha oração. Mas também se não fizer no imediato e se fizer passado um pouco quero acreditar que o meu Deus, que é compassivo e misericordioso, não me lançará ao inferno por adiar cinco minutos a minha oração.

Sentiu alguma discriminação?

Zero, mas também confesso que sou um privilegiado. Confesso que a construção da minha identidade nem sempre foi fácil. Desde pequenino que ia para o colégio e tinha um nome diferente, ultraconservador e que nos transporta o nosso horizonte mental para um universo quase saudita. É um nome de príncipe saudita e as pessoas olhavam, não digo com desconfiança, mas com alguma curiosidade para saber mais. Acho que essa curiosidade se foi desvanecendo junto dos meus colegas porque tinha respostas para dar. Acho que esse é que é o grande exemplo, os muçulmanos que eram bichos raros ou exóticos no Ocidente no passado, devemos ter uma atitude pró-ativa de explicar e demonstrar a nossa religião. Porque é que não bebo álcool? Porque é que só como carne halal? Se tiver essa resposta para dar e se conseguir justificar razoavelmente para satisfazer a curiosidade acho que é essa a atitude exemplar de um muçulmano que vive inserido num país, em que não é a maioria. Por exemplo, muitas vezes, no passado enquanto dirigente da comunidade estávamos na mesquita e saíamos lá fora para fazer uma pausa e via que as pessoas quando estavam à porta da mesquita olhavam para o edifício, que tem um estilo arquitetónico diferente com inspirações do norte de África, dos países árabes, etc., e convidava-as a entrar. Isso é a forma de estar da comunidade islâmica em Portugal, somos uma comunidade independente, de portugueses que professam uma religião islâmica. Temos a nossa forma de vivenciar a religião e que não nos rotulamos a nenhum dos países de maioria islâmica, que porventura têm uma agenda imperialista.

E as pessoas entravam?

Entravam, mas não vou mentir, entravam com alguma desconfiança. Descalçavam-se por uma questão de respeito para entrar na sala de culto, as mulheres normalmente punham um véu por uma questão meramente simbólica e de respeito com o espaço, mas posso garantir que quando saíam da mesquita saíam com uma ideia diferente do que é o Islão. É nisto que acredito, que as pessoas devem conhecer melhor o muçulmano, conhecer uma mesquita. E nós dirigentes de uma comunidade definimos que a mesquita é uma casa de Deus e é um espaço que deve estar aberto a todos. Não tenho a pretensão de converter ninguém. Às vezes até tenho, mas a mesma pretensão que tenho de converter alguém é a liberdade que os outros têm para dizer ‘não quero ser convertido’. Acho que isso é que é a liberdade religiosa vivida no seu pleno.

Mas fazer cinco paragens para oração nem sempre é fácil num país europeu...

Depende muito de cada um. Por acaso quando era mais novo, não sei se fruto da idade ou não, pouco ligava às orações. Hoje ligo cada vez mais e procuro fazê-las no momento adequado, até porque no Islão dá-se uma especial importância a isso. É como em vez de ir à missa ao domingo ir à segunda ou terça-feira. Também há missa nesses dias, mas como sabemos, o domingo sendo um dia de descanso semanal dos católicos há um certo simbolismo em ir à missa no domingo. As nossas orações também devem ser observadas no momento adequado. Embora possa fazê-lo na rua, procuro sempre fazê-lo num espaço onde esteja mais recatado. Acho que não feria ninguém fazê-lo na rua, especialmente em Portugal, em que temos um clima pacífico e de grande convivência, mas procuro fazer sempre num local mais discreto.

Quantos muçulmanos existem em Portugal?

O número que adiantamos são cerca de 50 mil, hoje creio que seja um bocadinho mais: cerca de 70 mil. Há quem fale em 100 mil, mas não acredito. 70 mil é um número fiel, embora infelizmente não tenhamos conseguido fazer aquilo que era uma vontade antiga do meu pai, enquanto dirigente da comunidade, que seria fazer os censos islâmicos. Embora não haja necessidade porque há o recenseamento geral da população, mas temos a pretensão de fazer um recenseamento da população islâmica.

Como surgiu este aumento de 50 para 70 mil?

Porque recentemente houve uma vaga de migração de irmãos oriundos do Bangladeche e que aumentou um pouco a população islâmica em Portugal. A esmagadora maioria são pessoas de origem africana, oriundas de países como a Guiné, Angola e Moçambique, depois temos uma franja muito pequena de árabes, temos alguns imigrantes do Magrebe – Marrocos, Argélia e Tunísia – mas temos recentemente esta vaga de cidadãos do Paquistão e do Bangladesh, que trouxeram um novo fulgor, por exemplo, à Mouraria.

Estão concentrados mais nas grandes cidades?

Sim, concentrados nas metrópoles de Lisboa e Porto e nas suas áreas metropolitanas. Embora o caso da Mouraria seja um caso singular e no caso da Baixa do Porto também, mas normalmente estas comunidades dada a sua condição de imigrantes e na legítima aspiração de melhores condições de vida – e essa é a razão de virem para Portugal – normalmente concentram-se nas periferias das grandes cidades.

O Ramadão continua a suscitar muito interesse junto dos portugueses?

Sim, mas também existe mais informação. Hoje quando uma pessoa está a jejuar até brincam comigo e perguntam ‘então não é altura do Ramadão?’. As pessoas já sabem o que é o Ramadão, não sabem é pequenos pormenores, como quantas horas são, quando é que é. E é simples por uma razão, o calendário islâmico retrocede todos os dias 10 anos. Ou seja, hoje calha em agosto, para o ano vai calhar 10 dias antes e vai mudando. E as pessoas não fixam quando é que é a altura precisa do Ramadão. Porquê essa curiosidade? Porque acham um bocadinho lunático que um tipo como eu jejue 17h ininterruptas. O Ramadão é muito intenso, não sejamos ingénuos. Mas costumo brincar e dizer ‘a fé é capaz de coisas incríveis’. Pode parecer um pouco incompreensível como é que um tipo nos dias de hoje jejua 17h ininterruptas em nome de um Deus que não vê, mas posso dizer que, no plano da minha experiência pessoal, o jejum é altamente libertador.

E qual é o objetivo do jejum?

Tem três fins. Primeiro sentir a omnipresença de Deus, nunca vi Deus mas sinto-o. O segundo fim é passar voluntariamente aquilo que outros passam por força da necessidade. Não nos esqueçamos que há ainda pessoas a morrer à fome em África e em outras zonas do globo, portanto se passar um bocadinho de fome talvez seja interessante na experiência de dar valor àquilo que os outros passam por força da necessidade. E o terceiro é visto como uma libertação. O cristianismo também ensina o mesmo e a renúncia é vista como uma libertação. Não é fácil, chega a hora do almoço e a algumas horas do dia em que estamos com alguma fome – costuma-se dizer que o homem é um animal de hábitos e chega à hora do almoço e estamos esganados de fome e só se pensa em comida – mas depois quando se ultrapassa a barreira da fome, semelhante à barreira do cansaço quando fazemos uma direta, posso dizer que é uma experiência muito interessante do ponto de vista espiritual porque o nosso foco deixa de ser a satisfação das necessidades fisiológicas e primárias e passa a ser um foco na necessidade espiritual. Normalmente só costumamos alimentar o nosso corpo, mas não nos esqueçamos que não somos só corpo também somos alma. E o alimento da alma é o jejum, assim como a oração. Estamos sistematicamente a alimentar o corpo, a comer, beber, dormir mas e alimento da alma?

Exige algum sacrifício...

Mas depois há uma libertação. E a libertação é essencialmente o buffet Pantagruel (risos). Os muçulmanos jejuam enquanto é dia. Fazemos uma oração antes da aurora e depois fazemos uma ultra refeição quando é o pôr-do-sol. No fundo é um prémio de consolação para termos estado tantas horas a jejuar (risos).

A lei da liberdade religiosa fez agora 20 anos. O que se conquistou?

Acho que Portugal é um país singular, para não dizer absolutamente extraordinário e talvez um dos mais marcantes, onde existe uma liberdade religiosa quase vivida no seu pleno a nível mundial. E Portugal é referenciado como um exemplo de sã convivência entre religiões e isso é não só fruto de uma Portugalidade e de nós portugueses sermos fantásticos na receção de outros povos. Também o facto de as comunidades islâmicas em Portugal serem oriundas das ex-colónias traz um sentimento de vínculo e de afetividade e de sentimento à pátria muito maior do que em relação a outros países. E isso explica a ausência de radicalismo num país como Portugal. Primeiro porque somos uma comunidade muito pequenina – estatisticamente ainda não temos uma grande expressão – e em segundo lugar, porque as pessoas gostam realmente de Portugal. Os muçulmanos têm Portugal no coração. Mas em relação à sua questão acho que se atingiram enormes progressos e avanços no âmbito da liberdade religiosa, designadamente dando condições às comunidades religiosas para que tivessem a sua forma de organização. Enquanto no passado, fruto da Concordata, entre a Santa Sé a e República portuguesa só era reconhecido à Igreja Católica ou à religião cristã a sua liberdade de conformação, esta lei trouxe um significativo progresso porque permitiu que comunidades minoritárias ou ultra minoritárias, como é o caso da comunidade islâmica, se pudesse organizar e criar as suas próprias regras. Acho que isso é um avanço extraordinário e essa liberdade de conformação permitiu que depois a comunidade tivesse uma série de direitos que lhes foram reconhecidos.

Que espécie de direitos?

Por exemplo, nós portugueses islâmicos podemos casar civilmente sob forma religiosa. O que é significa isto? Que o xeque Munir que está credenciado para a prática deste ato faça um casamento religioso e que este tenha efeitos civis na ordem jurídica portuguesa. Isto ocorreu fruto da lei da liberdade religiosa, mas também da generosidade dos nossos irmãos católicos. Sempre houve uma enorme vontade dos católicos e dos cristãos em Portugal em alargar o catálogo de direitos que a comunidade cristã e católica tinha como religião maioritária que é. E com isso podemos ver finalmente os direitos reconhecidos, quer seja em termos de educação islâmica livremente nas escolas e nos locais de ensino credenciados para o efeito, seja em termos de práticas alimentares. Não nos podemos esquecer que os muçulmanos e os judeus têm uma alimentação halal, seja depois na prática religiosa.

As escolas, pelo menos as públicas, estão preparadas para essa diferença?

Ainda não, porque ainda continua a haver uma certa ignorância, não por culpa dos próprios, mas mais por culpa das comunidades pequeninas que, muitas vezes, também não se dão a conhecer porque têm dificuldade por serem poucos. Acho que há ainda um largo caminho a percorrer nesta matéria. Um dos desafios que tenho e que sugiro, muitas vezes, aos nossos governantes é essencialmente que no manual, seja no plano nacional de leitura, seja quando se faz os planos das disciplinas de História e outras, que o Islão tivesse um lugar mais digno e que se retratasse um bocadinho aquilo que foi a presença islâmica no passado na Península Ibérica e que a religião fosse tratada com maior dignidade e com mais informação do que aquilo que é tratada.

E a alimentação..

Infelizmente ainda não. Há um projeto-piloto que arrancou há cerca de um mês e vai começar no início do ano letivo em Odivelas. Em Odivelas existem muitos muçulmanos e tem uma mesquita e a autarquia aceitou que algumas das escolas, onde há muitos jovens alunos muçulmanos, tivessem dieta especial que é a dieta halal.

Mas a meta será alargar?

Evidentemente. Em teoria para respeitar os direitos dos muçulmanos era haver essas adaptações onde houvesse um, agora também admito que haja dificuldades. Se temos mil alunos e desses mil só há um ou dois muçulmanos criar todo um conjunto de regras e uma dieta só para esse um ou dois seria complicado. A dificuldade é criar procedimentos e aligeirar ou de certa forma adaptar uma lei que é geral, abstrata e dirigida a todos para um grupo étnico, religioso minoritário, como é o caso do Islão. Mas sou um otimista e acho que o caminho vai-se fazendo e há um presságio que nos augura um bom futuro que é não há resistência e não há falta de vontade, seja das autarquias, seja do Ministério da Educação, em receber de braços abertos aquilo que é uma regra alimentar para os muçulmanos. Acho que havendo boa vontade e essa recetividade tudo se torna mais fácil.

Falou-se inicialmente que os muçulmanos estariam pouco disponíveis para serem vacinados. Como está a situação?

Havia algumas dúvidas se a vacina teria derivados de origem suína, se assim fosse, a esmagadora maioria dos imãs era contra a toma dessa vacina porque não consumimos carne de porco. Ultrapassada essa questão e sendo acreditado pela comunidade científica que as vacinas não têm derivados de origem suína isso passou a ser uma não questão e os muçulmanos são livres de tomar a vacina. É um bocadinho como aquela história dos alimentos, hoje em dia a indústria alimentar é cada vez mais complexa e quando olhamos para o halal estamos a comer uma gelatina de morango ou um iogurte de morango e ignoramos que na composição dessa cor pode haver derivados de origem animal suína e isso obriga-nos a ter cada vez mais cautela e a fazer uma investigação cada vez maior nessa matéria.

É uma aventura ir ao supermercado?

É. Existe hoje uma aplicação no telemóvel que tem os aditivos e diz-nos quais são os E que podemos comer. Mas nem todos os muçulmanos têm paciência de olhar para aquela Bíblia, se me permite o uso da expressão, de aditivos que está lá e perceber quais são os compatíveis.

Em relação à sua formação. Como é que um muçulmano vai tirar um curso na Universidade Católica?

Alguns conservadores dentro da minha comunidade diziam que o meu curso era ilícito, como a carne de porco (risos). Brinco sempre com isso e tirei o curso na Universidade Católica, onde fiz muitos amigos. Tem piada que quando entrei na universidade, a esmagadora maioria dos meus amigos eram católicos, mas fui muito bem recebido.

Mas era obrigado a ir à missa?

Entrei na Católica um ou dois anos depois do fim dessa obrigação. Mas tive uma disciplina de cristianismo e cultura e essa sim era obrigatória. E foi muito interessante porque só nessa altura é que consegui perceber um bocadinho melhor aquilo que era o conceito da Santíssima Trindade, porque para um muçulmano era absolutamente incompreensível ou difícil de perceber como é que, por exemplo, um católico acreditava em Jesus nessa tria.

Não exerce advocacia?

Não.

Mas é empresário?

Tento ser. A minha formação é a área jurídica e ainda tenho vontade no futuro de vir a exercer. Tive uma pequenina incursão na diplomacia quando estive na missão permanente de Portugal junto das Nações Unidas, em Nova Iorque, mas depois dediquei-me à minha carreira empresarial porque toda a minha família é de ciências económicas-empresariais. Sou português, mas a minha família é de origem indiana e nós indianos temos uma veia muito empreendedora. Somos produto de um ecossistema muito virado para as empresas e decidi dedicar-me a esses projetos da família. Temos um conjunto de empresas em várias áreas: indústria e comércio e serviços. Decidi seguir a veia mercantilista da família.

Tem tempo para tudo?

Deus obriga-me a fazer a oração à aurora, logo às seis e pouco da manhã e começo depois a trabalhar. E tenho menos fins de semana do que as pessoas normais, mas faço com muito gosto. Costuma-se dizer ‘quem trabalha por gosto não cansa’. Se formos rigorosos e tivermos um certo equilíbrio conseguimos ter tempo para tudo.

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