30/7/21
 
 
Óscar Afonso 15/07/2021
Óscar Afonso

opiniao@newsplex.pt

Miranda do Douro: 476 anos depois

Não há demagogia que não tenha traços de ridículo.

Após o ano do absurdo que foi 2020, dado que a pandemia alterou por completo a vida de muita gente, por Miranda do Douro o ano de 2021 prossegue em trajetória de passagem do absurdo para o ridículo. A história política mostra que, uma vez alcançado o absurdo de deixar a população entregue a si própria, fatalmente se chegou ao ridículo. O apogeu foi sem dúvida a comemoração dos 476 anos de elevação a cidade.

O impensável de se ser político ou, em alternativa, de se ter convite para poder ver e ouvir o Senhor Presidente da República aconteceu em Miranda do Douro no passado dia 10. Quem pensava que a cidade são os Mirandeses enganou-se. Egocentricamente, os políticos locais entendem que a cidade são eles próprios, que assim se auto-entitulam como a elite local. A usurpação do que é público, do povo, para fins privados tornou-se, pois,parte do modus operandi da própria ação. Algo que já se sabia, é certo, mas que se reconfirmou. Tratando-se de um aspeto inerente aos períodos de decadência de ciclos políticos, tal parece ter sido algo de inevitável.

Afastando o povo de Miranda, comemorou-se propriamente o quê? A hecatombe na produção agrícola que, em poucos anos, caiu para um terço do seu valor? O não pagamento de impostos pela EDP que são devidos? O acentuar da desumanização cuja manutenção da trajetória aponta para uma perda de 1000 habitantes em cada 10 anos? O drama associado a cada jovem que abandona a sua terra? Ou o envelhecimento?

Como se não bastasse, pelo menos para aqueles que não perderam o bom senso, no contexto vivido, a auto-condecoração foi sem dúvida uma das mais ridículas demagogias a que já assisti. Não estão em causa as condecorações aprovadas em Assembleia Municipal, mas as restantes, por favor! Foi a transformação da esfera política em esfera publicitária, em pura propaganda. Não que os nossos atuais representantes sejam figuras políticas ridículas nem tão pouco memoráveis. Sem se importarem com o caráter caricato do ato, serão para sempre lembrados pelos atos grotescos com que nos têm brindado. Quem consegue auto-condecorar-se é certamente capaz de se “vestir” e “fantasiar” do que, em cada momento do tempo, considerar desejável.

Neste contexto, quem não acha que o Senhor Presidente da República foi capturado para abrilhantar uma cerimónia privada? E quem não acha que as mensagens dos discursos foram inócuas para o bem-estar dos munícipes? Esperaria que, ao Senhor Presidente da República, se exigisse mais e melhor acção social, com a saúde e a educação à cabeça, mais e melhor atividade económica e ainda os impostos devidos pela EDP. Mas não, não houve coragem ou interesse em que assim fosse. No marasmo das mensagens, a única relevante foi o subtil apoio do Senhor Presidente ao Movimento Cultural da Terra de Miranda (MCTM). Se num ano de existência o MCTM defendeu mais os interesses da Terra de Miranda que todos os políticos juntos porque não foi condecorado e é, pelo contrário, ostracizado pelo executivo municipal e pela Assembleia Municipal? O bem que o MCTM deseja para a Terra de Miranda faz sombra a quem?

O ridículo e a demagogia caminham, de facto, sempre juntos. São, na verdade, como irmãos gémeos, pois não há demagogia que não tenha traços de ridículo. Não nos podemos esquecer, no entanto, que num mundo cada vez mais regido pela ordem das imagens, pela forma narcisista do querer ser visto, apresentar-se de modo ridículo é uma das formas de atrair maior atenção para sua própria imagem. Se o que importa é ser visto, na maioria dos casos, a forma como se é visto não importa muito. Basta recordar que imagens de coisas ridículas são sempre muito visualizadas. Algumas por serem absurdas e ridículas, outras por serem apenas ridículas. Das absurdas e ridículas podemos rir-nos, já das que são apenas absurdas não. O ridículo do entretenimento é comédia, mas o da política é, quase sempre, tragédia.

Não podendo perpetuar-se no teatro político do ridículo, têm, no entanto, adeptos emblemáticos e (re)continuadores. Estes, em sucessivas declarações vão profetizando o desejo da continuação da era do ridículo e do egocentrismo ao se insinuarem como experientes ex-fazedores de tudo: cómica confusão entre o carisma e o conhecimento que não têm, mas gostariam de ter, e a atenção bajuladora que desejam. Até hoje, o ridículo, mais que a demagogia, tem dado forma a esse naipe de políticos.

Neste contexto, entre plutocratas experientes, carreiristas, elitistas, ex-fazedores de tudo e de coisa nenhuma é obviamente sempre preferível alguém competente, verdadeiro, humilde, diligente, com moral, com ética e próximo da vida real do povo.


Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×