Do homem eterno

Do homem eterno


“E o que há a dizer de novo sobre cowboys, pistoleiros, garimpeiros, caçadores de peles, xerifes, cavalaria?”


Na meia-idade, Russell ia mudar de rumo, não por capricho ou prémio da lotaria, mas por o seu trabalho tornar-se obsoleto, portanto dispensável. Consigo trazia uma nova razão de vida: Bennett, órfão de um amigo, com atraso mental, de quem se propôs cuidar.

Por que razão continua o western a atrair tanta gente, nas mais díspares latitudes? O que leva dois franceses a contar a história de um vaqueiro habituado a conduzir manadas até aos matadouros de Chicago, que se prepara para ficar sem trabalho com o advento do caminho-de-ferro? Talvez nunca como até então na história, o ser humano estivesse tão entregue a si próprio enquanto indivíduo que se autodetermina, gozando de autonomia moral e intelectual, como no Oeste americano de há século e meio; mas também é difícil encontrar maior exposição e vulnerabilidade. Não por acaso estamos no cenário do “cowboy solitário”.

Quem queria seguir com a vida, sem atropelar ninguém, tinha a religião como guia ético e consolo espiritual; e também a lei, se fosse preciso, a indicar os interditos. E tinha também mais: uma arma, suficientemente portátil para com ela andar em permanência, servindo tanto a audazes como a medrosos, pelo aparente conforto de proteção. Este individualismo, que muda tudo, confronta-se com um espaço natural desmedido e bravio; defronta o outro, os nativos, diferentes e ininteligíveis ao primeiro contacto; e ainda os outros seus semelhantes, também eles munidos de instinto de conservação, além de porte de arma. No limite, o encarar de si próprio, quando a jornada parece prosseguir, sem esperar quem é apeado.

E o que há a dizer de novo sobre cowboys, pistoleiros, garimpeiros, caçadores de peles, xerifes, cavalaria? Não foi já tudo dito, mostrado, repisado? Questões sem grande sentido, pois nada foi referido ou mostrado da forma que o argumentista Jerôme Félix e o desenhador Paul Gastine o fazem no álbum de hoje. Um verdadeiro autor não prescinde da própria voz; e sendo própria, a voz, é por isso única, e então tudo é novo porque nunca foi comunicado exatamente daquele modo.

Com mestria narrativa e com um desenho realista enriquecido por múltiplos pormenores e um tratamento de cores notável, O Último Homem… mostra-nos sem pudor como os seres humanos, de ordinário ocupados em viver, mediante a ocasião que se ofereça e o livre arbítrio de que dispõem, podem dar-se céu e inferno, a si e aos outros, levantando questões que são do momento – quanto custa uma consciência; quanto vale a vida dum homem? –, mas também as eternas: viver, para quê?; o que é viver?…

Chegados ao fim desta crónica, parece que mal falámos da narrativa. A verdade é que só dela falámos.