12/5/21
 
 
Carlos Zorrinho 15/04/2021
Carlos Zorrinho
opiniao

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Marés Vivas

Depois de uma primeira metade de exercício solidária e competente, a Presidência portuguesa da União Europeia enfrenta agora uma segunda metade de marés vivas.

Que nós somos um povo dito de brandos costumes, mas com uma psicologia coletiva muito pendular, capaz de passar da euforia ao desânimo com um golo na baliza certa ou uma votação de um júri internacional, já nós sabíamos.
Das ondulações vigorosas do sentimento europeu em Portugal e em toda a União quando colocado perante altas pressões políticas, económicas ou sociais também já suspeitávamos, mas face às marés vivas que o mundo atravessa, provocadas pela pandemia e todas as suas consequências, é cada vez mais incerto o balanço final da reação europeia e da leitura que os seus cidadãos vão fazer dela. A ondulação é mais estimulante que o marasmo, mas os líderes europeus e as suas instituições têm que mostrar competências de sobreviventes para aproveitarem a onda e fortalecerem o projeto europeu.     

A resposta europeia à pandemia, desenhada com base nos princípios da cooperação e da solidariedade, foi forte, surpreendente para os mais céticos e capaz de colocar a parceria um patamar acima na perceção da sua utilidade concreta para que os seus territórios e cidadãos possam desfrutar de melhores condições de resposta e recuperação. 
Esse ganho estrutural, conquistado em condições muito difíceis, tem, no entanto, enfrentado adversidades múltiplas, de que a contaminação burocrática na negociação das vacinas e a fragilidade nalguns relacionamentos geopolíticos constituem os factos mais visíveis. Perante esses percalços a resposta necessária tem que se basear no reconhecimento do erro e na sua solução imediata e robusta para não dar pasto às crises de confiança e às narrativas derrotistas sempre prontas a florescer quando encontram terra fértil para isso.

A capacidade de colocar em ação e reforçar se necessário a potência do mecanismo de recuperação e resiliência, a estabilização competente da estratégia solidária de vacinação e a emissão de certificados verdes digitais seguros e acessíveis, o lançamento credível e dinâmico da Conferência sobre o Futuro da Europa e a realização de uma Cimeira Social com medidas concretas e de rápida colocação no terreno, mais de que boias de salvação, poderão e deverão ser pranchas para surfar a onda, reduzir o número de náufragos da crise sanitária, económica e social e dar um novo impulso político à parceria europeia.

Depois de uma primeira metade de exercício por todos reconhecida como solidária e competente, a Presidência Portuguesa da União Europeia (PPUE2021) enfrenta agora uma segunda metade de marés vivas, em que o nosso ADN de navegadores e marinheiros será mais importante do que nunca.

Não nos deixemos embalar por cantos de sereia, discursos derrotistas, teorias desculpabilizadoras, Não podemos esperar facilidades.  Os desafios são muitos e de textura muito diversa, exigindo decisões difíceis e corajosas, algumas delas com riscos elevados. Estamos perante um cenário de profunda complexidade que não deixa espaço para o tom de lamúria desistente que por vezes se sente perpassar e mesmo capturar algumas análises.  A resposta é a ação convicta e com propósitos bem definidos, enquanto as marés ainda permitem fazer as boas escolhas.  

Eurodeputado do PS


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