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Celso Horta. "Foi o momento mais rico que vivi, abraçar a luta armada como caminho"

Celso Horta. "Foi o momento mais rico que vivi, abraçar a luta armada como caminho"

João Campos Rodrigues 15/04/2021 13:21

O antigo guerrilheiro da ALN, sob comando de Marighella, recorda os porões da ditadura militar brasileira. E o sonho desfeito de um mundo novo. 

“As memórias não estão mais vivas. As pessoas morreram, desapareceram”, desabafa Celso Antunes Horta. Do alto dos seus 73 anos, tenta recordar o que deixou para trás. Já não é “Alcides” o jovem estudante que virou guerrilheiro da Ação Libertadora Nacional (ALN), em 1968, batendo de frente contra a ditadura militar brasileira, enfrentado tortura, pau de arara, cadeira do dragão. Nem o preso político que escrevia um livro às escondidas, com os companheiros, enquanto partilhava cela com loucos, assassinos, mas também gente boa que clamava justiça, da Prisão de Tiradentes ao Carandiru. Longe vão os tempos do sonhador que correu para Cuba, do jornalista que voltou para a imprensa brasileira, do Jornal do Brasil à Folha de S. Paulo, antes de militar no combativo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, casa-mãe de Lula da Silva e, em boa parte, do Partido dos Trabalhadores. Neto de um português, hoje Celso é sobretudo marido, pai de dois filhos, avô de quatro netos, “fugindo do vírus, que é um inimigo invisível”. E assistindo ao retrocesso, furioso que “bandidos e assassinos que protagonizaram a ditadura militar estejam comemorando, como se a ditadura fosse avanço da civilização”, considerando o Governo de Jair Bolsonaro “representante desses herdeiros dos ditadores”.

Num contexto de derrota da esquerda, dos partidos aos sindicatos e movimentos populares, em que “é preciso começar de novo”, Celso começou a olhar para trás. Tem um livro pronto na gaveta, à espera de edição, sobre guerrilheiros que continuaram a luta quando esteve preso, o Movimento de Libertação Popular (Molipo), uma cisão da ALN, que tinha entre os seus dirigentes Carlos Eduardo Pires Fleury. “Foi ele que me levou para a militância”, recorda Celso. “Até é uma forma de entender a minha vida, certo? Porque depois que saí da cadeia não parei de militar, continuei militando a vida inteira”, explica. “Eu queria parar de fazer isso, acabar com esse ativismo constante. Queria pensar no que tinha feito, no que tinha sido meu próprio percurso, voltar às raízes. Daí é que vem essa vontade de mergulhar no passado”.

“É um mergulho difícil de se fazer. Na verdade, você não consegue reconstruir o passado. Ainda mais uma história tão movimentada, tão rica, mas ao mesmo tempo cheia de violência”, diz Celso. “Esse grupo de companheiros do Molipo só tem dois ou três sobreviventes. E tem vários desaparecidos, pessoas que a gente nem sequer teve acesso aos corpos. Não sabemos como morreram, por que morreram, onde morreram. Enfim”, suspira o antigo guerrilheiro. “O que se consegue encontrar nisso aí são muitos fragmentos de história. E realmente a história é difícil de ser contada”. 

Gorilas e gringos

Enquanto a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP) ardia, incendiada por cocktails molotov, Celso acorria a defendê-la, de pedras na mão. Era 2 de outubro de 1968, e a rua Maria Antônia, no coração de São Paulo, virara campo de batalha. De um lado ficava a FFCL-USP, conhecido centro de agitação de esquerda, do outro a Universidade Presbiteriana Mackenzie, sede das organizações estudantis de direita, em particular do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), liderado por Raul de Lima, um estudante de Direito que viraria torturador do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), sob alcunha de “Raul Careca” – o futuro guerrilheiro, de 20 anos, não imaginava que Raul, do outro lado da rua, seria um dos agentes envolvidos na sua detenção, no ano seguinte. 

Celso nem sequer era da USP, estudava Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mas, como tantos outros, estava lá. “Aquela foi uma tarde em que se mobilizam estudantes de São Paulo inteiro. Foi-se formando um clima aí que virou uma guerra, com pedrada, foguetes, tiros”. Do lado da FFCL-USP já havia gente envolvida na luta armada, do lado da Mackenzie não faltavam polícias infiltrados, os famosos “gorilas”, e o confronto prolongou-se durante dois dias de loucura, entre combates corpo a corpo e horríveis ataques com ácido, tirado dos laboratórios de química. Até que, de uma janela da Mackenzie, soou um tiro de espingarda, disparado por um membro do CCC e informante do DOPS, apurou a Comissão da Verdade. Um estudante de esquerda, José Guimarães, foi atingindo na cabeça e morreu no local. Os seus colegas fizeram da sua camisa ensanguentada uma bandeira, ainda com a FFCL-USP a fumegar, “e é assim que a guerra acaba, saí de uma manifestação carregando o cadáver do rapaz”.

Esses dias que marcaram a sua vida e de muitos outros jovens brasileiros. Primeiro, porque a guerra da Maria Antônia foi um dos pretextos para o Ato Institucional n.º 5, ou AI-5, dois meses depois, que apagou quaisquer liberdades civis que restassem no papel, acabando com o sonho de que a noite da ditadura fosse passageira. Segundo, porque empurrou toda uma geração de estudantes paulistas a confrontar o regime de frente. 

“É um processo em que você se vai envolvendo, engajando. E não era um processo localizado. É algo que foi acontecendo no mundo inteiro naquele momento. Nesse ano também teve o Maio de 68 em França, nós estamos vivendo o mesmo clima de revolta, com o mundo assistindo”. Afinal, o contexto era de Guerra Fria, a revolução estava na ordem do dia. “Mas o Brasil, como o resto da América Latina, tinha algo muito especial, tinha Cuba, que era um norte. Se o Vietname era um norte para o mundo inteiro, aqui além disso tinha Cuba, era algo em que nós sentíamos estar a participar”.

“A gente acusava a ditadura, principalmente, de ser lacaia do imperialismo americano. Então toda a mobilização ia nessa direção”, salienta. “Até porque uma das principais bandeiras do movimento estudantil nessa época era a luta contra os Acordos MEC-USAID, que puniam a organização estudantil”. Referia-se ao acordo entre o Ministério da Educação e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, mantido secreto por dois anos, em que o regime, a troco de dólares americanos, se comprometia com reformas educativas – que os críticos viam como forma de privatizar universidades e cortar disciplinas que incentivassem pensamento crítico, como História, Filosofia e Sociologia.
“Nessa época, lembro-me de ver as manchetes de jornal com a morte do Che Guevara. Era uma coisa bastante impactante, naquela juventude toda o Che já era uma referência de mudança, de mundo novo. Sim, a morte do Che era uma derrota para a esquerda. Mas, ao mesmo tempo, é como diz aquela frase famosa dele”, cita. “Seja bem vinda a morte, desde que mil braços se levantem”.

Sangue, tiros e clandestinidade

Para um jovem nascido em Guaratinguetá, no interior do estado de São Paulo, criado numa família católica conservadora, filho de um militante integralista, de um camisa-verde, virar à esquerda “é uma desconstrução bastante traumática”, garante. “Lembro de discutir com o meu pai, depois que vim para São Paulo, já com ideias de socialismo, movimento sindical de esquerda. E o meu pai sustentando que o fascismo também era sindicalista, que, de alguma forma, as corporações fascistas eram corporações sindicais, que o Mussolini dava apoio para os trabalhadores”.

“Mas éramos 11 irmãos. Imagina que seria o meu pai ter tempo para pegar o que estava acontecendo na cabeça de um deles!”, diz, entre risos. “E eu estava entrando na universidade nesse contexto, com o movimento estudantil em grande ascensão. Então a cabeça era participar. As raízes que trazia da família, da religiosidade, também contribuíam para isso. Todo o cristão tem obrigação de mudar o mundo, resolver os problemas da humanidade”.

Entretanto, a fé desapareceu, para não mais voltar. “Mas era isso que trazia na minha cabeça da minha infância. E tudo combina com esse processo de ebulição que estou vivendo quando vou para São Paulo”. O medo, a brutalidade, os polícias a espreitar a cada esquina do campus só contribuíam. “Para um jovem, quanto mais difícil, mais estimula, mais desafiador, envolve mais. Quanto mais eles reprimiam, mais interessante ficava”.

Esses tempos estavam prestes a terminar. “No começo de 1969, estava passando por um processo de discutir política não mais dentro do movimento estudantil, mas sim de adesão às organizações da luta armada, que nessa altura já estavam constituídas”. Em São Paulo, uma corrente inteira de estudantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), incluindo colegas de Celso, rompera com o “Partidão”, que optara por “uma política conciliadora, de não resistir, uma política burocrática. Que era uma crítica que se fazia aos comunistas do mundo inteiro”, considera. “Nessa época, eu ainda não alcançava as críticas que se fazia ao socialismo real, lá na União Soviética e na Hungria. Mas a crítica ao burocratismo era muito consolidada”. Preferiram juntar-se a Carlos Marighella, poeta e antigo deputado do PCB, que se tornaria o “inimigo número um” do regime, como retratado no filme Marighella, de Wagner Moura, de 2019 – o filme ainda não saiu no Brasil, após ser bloqueado pelo Ministério da Cultura de Bolsonaro. 

Negro, baiano, Marighella trouxe consigo memória dos levantamentos populares do Nordeste, sonhando com uma guerrilha capaz de derrubar os militares, a que chamaram ALN. Não seria uma organização leninista, trotskista ou maoísta, seria brasileira, proclamava Marighella, alto e bom som. Seria “clandestina, pequena, bem estruturada, flexível, móvel. Uma organização de vanguarda para agir”, enunciou, encarregando Grupos de Trabalho Estratégico (GTE) de preparar a conquista do campo, enquanto Grupos de Táticos Armados (GTA) travavam a guerrilha urbana, debaixo do nariz da ditadura, escondidos na multidão – seria num desses GTA que nasceria “Alcides”, nome de guerra de Celso. 
“Antes de se participar em ações armadas, a gente era convidada a participar da preparação. Nessa altura a organização já tinha aprendido que havia todo um processo de transição que era preciso ser feito. Por exemplo, quando se pensava assaltar um banco, era preciso ter informações sobre seu funcionamento. E, para isso, nada melhor que gente que não tinha envolvimento direto na ação militar. Então você ia lá, ficava na porta, olhando... E isso de ficar olhando, investigando, passando informação a quem ia fazer a operação, era um processo muito forte, mexia com a tua cabeça. Foi o momento mais rico que já vivi, de amadurecimento, decidir estar ali, abraçar a luta armada como caminho”.

“Claro, para você ter a sua arma, você precisa de tomar sua arma. Ninguém te vai dar arma de presente. Empresta-se uma arma para você participar numa operação, onde você vai num guarda que está dando giro de quarteirão e toma a arma dele. São sempre dois, alguém com experiência e alguém sem”.

“Eu sabia dirigir automóvel, era um exímio motorista em 1969, e não era todo o mundo que sabia dirigir nessa época. Fiquei com essa função, que era importante e ao mesmo tempo subalterna, não ia participar diretamente da ação”, recorda Celso. “Geralmente estava dirigindo, parava o automóvel na porta do banco, as pessoas desciam. Depois que apreendi a manusear metralhadora, ficava com a metralhadora no banco e fazia também função de segurança”.

Seria ao volante que Celso conheceria Marighella, o mais procurado revolucionário do Brasil, que tinha o rosto estampado em todos os jornais, após a ALN assumir autoria da onda de assaltos e ações armadas. “Cheguei a vê-lo uma única vez, dentro de um automóvel, um fusca de uma militante amiga nossa”, conta, referindo-se ao Volkswagen Type 1, ou “carocha”, em Portugal. “Outro companheiro, Carlos Eduardo Fleury, tinha reunião com o Marighella, e foi nesse fusca, andando nas ruas de São Paulo. Mas foi impactante, a presença dele é muito forte. Nem que fosse porque íamos num fusca. Você imagina, um mulatão grandão sentado no banco de trás, ocupava metade do carro. E tem vozeirão, fala forte, é muito firme nas opiniões”.

“Foi uma conversa muito operacional, muito sobre a guerrilha”. Afinal, era um momento particularmente delicado para a ALN, que fora decapitada em São Paulo, com a morte de Marco Braz de Carvalho, vulgo “Marquito”, de 28 anos, apanhado após metralhar o capitão americano Charles Chandler, apontado como agente da CIA no Brasil, à porta da casa onde este vivia com a família. Depois disso, Carlos Eduardo Fleury, três anos mais velho que Celso e seu colega de curso, “um companheiro de classe média, muito, muito competente”, ficaria encarregue de reorganizar a guerrilha em São Paulo, junto com Virgílio Gomes da Silva, o “Jonas”, um operário e sindicalista de 36 anos, que regressara de Cuba após receber treino militar. “Me chamava atenção muita coisa que ele falava. Tinha uma outra cabeça, um outro mundo”, lembra Celso.
Tinham uma tarefa dura à sua frente. “Desde janeiro de 1969, nós já tínhamos notícia de que todos os companheiros que eram presos eram torturados”. E mesmo no dia-a-dia de operações era fácil que tudo corresse mal de um momento para o outro, como Celso viu acontecer perante os seus olhos.

“Houve uma operação em que fomos lá tomar a metralhadora de um guarda de banco, em junho, na rua Penha de França, na zona leste. Mas houve um erro operacional nosso, um companheiro pegou a metralhadora e correu para o carro, que eu estava dirigindo”. Tratava-se de Francisco Gomes da Silva, o “Chiquinho”, irmão mais novo de Virgílio. “O erro foi ele não tirar o revólver do soldado, achando que dava uma porrada e ia embora. Era gordinho e baixinho, teve de dar a volta a outro carro em vez de pular por cima, deu tempo para o soldado puxar a arma e atirar nele pelas costas. Levou quatro tiros, um de raspão na cabeça, três no tronco”. 

“Quando o guarda atirou no companheiro, todo o mundo atirou no guarda, teve tiroteio que nem sei se funcionou se não”, conta Celso. “E aí um outro companheiro, que estava fazendo cobertura da operação, nem estava no carro de ação, foi lá e deu um tiro no guarda. Esse guarda morreu. Nós fomos recolher o companheiro ferido, pusemos no carro e fomos embora. Teve um prejuízo muito grande para a organização, porque a gente não estava muito bem preparado para cuidar de um baleado”.

“A primeira coisa a fazer foi apelar à transfusão de sangue, isso numa casa de ação importante nossa, num bairro chique de São Paulo. Chamámos o banco de sangue, e a partir da chamada a repressão localizou posteriormente a casa. Além de perdermos essa casa, tiveram de fugir dois companheiros vinculados a ela. E o médico que estava dando atendimento para nós pegou esse companheiro ferido, levou para o hospital onde trabalhava, na Itapecerica da Serra, uma cidade vizinha daqui. De revólver na mão, intimou a equipe médica a fazer a cirurgia, salvou a vida do companheiro. Só que perdemos o companheiro médico, que teve de entrar na clandestinidade por conta dessa operação”.

Pau de arara e cadeira do dragão

A maior vitória da guerrilha foi também o início do seu fim. A 4 de setembro de 1969, em conjunto com outros grupos armados, militantes da ALN raptaram o embaixador dos EUA no Brasil, Charles Elbrick. Um comando liderado por Virgílio Gomes da Silva intercetou o Cadillac de Elbrick em Botafogo, no Rio de Janeiro, imobilizando-o com uma coronhada e escapando a abrir, escreveu à época a Folha de S. Paulo.

Conseguiram furar a censura em plena Semana da Pátria, exigindo a leitura do seu manifesto em todas as rádios e televisões nacionais, bem como a libertação de 15 presos políticos, a troco do embaixador. O sequestro atordoou a ditadura, que se viu pressionada pelo Presidente Richard Nixon a aceder às exigências dos guerrilheiros – no entanto, a partir daí, Washington pôs ainda mais recursos à disposição do regime, que apostou nos “esquadrões da morte” de São Paulo como nunca.

Na onda de assassínios e detenções que se seguiu, caiu também Celso. “Tinha um encontro marcado com o Chiquinho”, explica. “Mas ele tinha sido preso, e, sob tortura, indicou o local do encontro e levou lá a repressão, para me prender. Na hora percebi que havia qualquer coisa errada, quando vi um dos policiais atravessando a rua, vindo na minha direção com a mão na cintura. Eu não estava armado, saí correndo, mas estava montado um cerco muito forte. Um agente pôs o pé e eu caí, fui preso aí”. 

“Fui direto para a tortura”. Celso deu por si numa esquadra da polícia, entre rua Tutóia e Tomás Carvalhal, no sul de São Paulo, a infame sede da Operação Bandeirantes, futuro DOI-CODI, que se tornaria um modelo para a repressão no resto do Brasil, financiada com contribuições de empresários e banqueiros. Estima-se que pelo menos dez mil presos tenham passado por estas câmaras de horror, incluindo nomes conhecidos como o jornalista Vladimir Herzog, ou Dilma Rousseff.
“Mal desci do carro para dentro do pátio desse prédio, fizeram um corredor polonês, que é o que se chama a passar no meio de um corredor de policiais, todos descendo cacete, dando porrada, murro”. A partir daí só piorou, quando foi atirado para o pau de arara. “O pau de arara, como usado no Brasil – acho que deve vir lá da experiência de tortura da Argélia e do Vietname, do que os militares brasileiros aprenderam com franceses e americanos por aqui – era pendurar as pessoas de joelho dobrado atravessado por uma barra, com as mãos amarradas no joelho”.

“Não sei se tem noção de como isso afeta o corpo. Na hora em que pendura, isso já é uma violência, mas eles ainda combinavam com o choque elétrico. Quando você está amarrado e é submetido à aplicação de choque, isso produz movimento muscular muito forte. Essa distensão é extremamente dolorosa”.

“Eles usavam muito o telefone de campanha, isso produz alta amperagem, que causa um movimento muito forte. Acho que às vezes, além de telefone de campanha, usavam a tomada de parede mesmo. Mas acho que o telefone de campanha não tinha tanto perigo de vitimar o cidadão, então eles usavam mais”.

“O sentido é que você não vai aguentar. Que você vai explodir, entendeu? Você retoma o fôlego, você perde o fôlego. E cada vez que retoma eles vêm e aplicam de novo. Você percebe que vai explodir, mas eles também percebem e te suspendem um pouco. É difícil. E está tudo subordinado a responder a perguntas que eles te estão fazendo. Onde é que você estava, quem é que você conhece... Foi um processo”. E, nesse processo, liderava o infame capitão Benoni de Arruda Albernaz, de 36 anos. “Para mim, foi a figura que mais me aterrorizou, pelo nível de violência e loucura que manifestava” – no ano seguinte, o capitão do exército arrancaria um dente a Dilma, ao soco, contaria a própria. 

Subitamente, um momento de trégua. Mais ou menos. “Eu fui preso no mesmo dia, quase na mesma hora, que o meu comandante Virgílio Gomes da Silva. Eu estava lá já na operação bandeirantes quando o Virgílio chegou. Para minha sorte. O facto de chegar um outro personagem, mais importante que eu, descarregou de cima de mim”.

“Estava numa sala no pau de arara e me tiraram dessa sala. Me levaram para outra sala e me puseram numa cadeira do dragão, que ofende menos que o pau de arara”. Mas é difícil imaginar como. “Era uma cadeira com partes de metal, e você era amarrado na cadeira, pelos braços e pernas também. Com você todo imobilizado aí te aplicam choque”. Por vezes, militares atiravam água sobre o corpo nu do torturado, outras vezes alternavam com espancamentos. “Se produz uma dor aparentemente insuportável”.

Entretanto, os torturadores “ficaram com o Virgílio na outra sala, que era maior. Jogaram ele lá, estava vivo, foi espancado pelos caras, como eu fui. Mas o Virgílio reagia com muito mais violência, era treinado no boxe, tinha uma musculatura muito mais poderosa. Chutava os caras, cuspia os caras”. Pelos corredores da esquadra, ecoavam os gritos do guerrilheiro sindicalista. “Vocês estão matando um brasileiro!”

“Ele repetia essa frase, repetia muito essa frase. Depois foi jogado no canto da sala, e aí houve um momento de trégua. Eles saíram, deixaram a porta aberta, mas rapidamente voltaram. Aí me tiraram da minha sala. E nunca mais vi o Virgílio”. O corpo do comandante da ALN nunca seria encontrado, tornando-o num dos primeiros desaparecidos da ditadura militar. Dias depois, começavam os Anos de Chumbo, sob a presidência do general Emílio Garrastazu Médici, que se preocupou em esconder crimes que antes eram cometidos às claras, enquanto aumentava a escala da atrocidade.
“O Virgílio foi trucidado pelos caras. Posteriormente, os torturadores mostravam a parede suja de sangue e diziam que era dele”, garante Celso. “Desde aquele momento, nós denunciamos a todos as possibilidades que havia que ele tinha sido preso vivo, foi visto vivo na cadeia e tinha sido desaparecido”.

Livro chamado João

Celso deu por si num outro mundo. Em novembro, como os restantes presos da ALN, fora transferido das caves do DOPS para a prisão do Tiradentes, abrindo espaço à operação que mataria Marighella – “foi um choque muito grande”, diz, com emoção na voz, mais de 50 anos depois – e marcaria um novo capítulo para Celso, que passaria oito anos na cadeia com os seus companheiros.

“No começo da nossa prisão, todos nós vivíamos na expectativa de que um sequestro permitisse o resgate. Depois essa perspetiva deixou de existir”. No ano seguinte, a ALN, junto com outros grupos armados, ainda sequestraria o embaixador da Alemanha Ocidental, Ehrenfried von Holleben, trocando-o por 40 prisioneiros políticos, incluindo Carlos Eduardo Fleury, que regressaria do exílio para combater na Molipo. Mas, na prática, o sequestro fora o último fôlego da ALN. “Aí a vida foi na cadeia, a gente abraçou uma vida de muita participação”.

“Cria-se uma solidariedade muito forte, que é uma questão de sobrevivência. Sobrevivência em todos os sentidos, desde o psicológico e emocional, até ao físico mesmo”, explica. “Quando alguém era levado para interrogatórios, o coletivo garantia que houvesse uma comunicação com a família, com os advogados. Se criava uma rede de proteção”, para evitar os temidos “desaparecimentos”.

“Houve períodos em que a gente tinha de se relacionar não só com a repressão, mas também com o ambiente carcerário, com os bandidos que estavam presos. Quando se conseguia estar organizado em coletivo facilitava, porque a gente se protege melhor”.

“Eu vivi um ano dos meus oito de cadeia no Carandiru, como um dos presos comuns. É muito difícil, embora você tenha também o contraponto disso, que é oportunidade de conhecer gente de outro tipo, conhecer bandido de perto, com suas várias nuances. Aliás, conheci um cidadão que era um preso famoso, até porque tinha comandado uma rebelião de presos, o João Pereira Lima”. Falava do histórico “Pernambuco”, que liderou uma centena de presos em fuga do campo de trabalhos forçados da Ilha da Anchieta, em 1952. Acabou capturado no litoral, num tiroteio com a polícia que durou mais de 16 horas. “Era um cidadão incrível, tinha uma alma fabulosa, fiquei grande amigo dele na cadeia. Era uma convivência diária. Por outro lado, conheci bandidos também que eram impossíveis de conviver. Tive atritos que só não descambaram para a violência física sei lá porquê”.

Mas sobreviver não era a única preocupação. Além das greves de fome e protestos pelos direitos dos presos, dedicavam-se, em segredo, a estudar a repressão, a registar os crimes da ditadura e fazê-lo chegar ao exterior. Entre pavilhões usavam língua gestual para comunicar, entre celas código morse dedilhado no cimento, passando notas em papel de seda aos seus familiares, em pequenos embrulhos com forma de balas – o pai de Celso, ao vê-lo na prisão, até “mudou a cabeça”, virou de integralista para comunista, chegando a fundar um núcleo do partido na pequena Guaratinguetá.
O resultado do esforço do coletivo foi a denúncia do nome de 233 torturadores, bem como Repressão militar-policial no Brasil – o livro chamado João, que chegaria a ser publicado em França, na década de 70, e republicado no Brasil em 2016. Escrito a nove mãos, traça as raízes da brutalidade na sociedade brasileira, dos tempos da escravatura e império, passando pela ditadura de Vargas até à ditadura de 64. O próprio ato de obter bibliografia, muito mais extensa do que seria de esperar num livro escrito atrás das grades, foi uma aventura. As capas de livros proibidos – contrabandeadas pelas famílias ou por criminosos de delito comum, exímios a fazer qualquer coisa entrar na prisão, a troco de uns quantos cigarros – eram trocadas por capas livros autorizados, conseguindo-se o golpe final de roubar o próprio carimbo da censura. “Como presos, nos restava fazer isso”, explica Celso. “Organizar informações”.

De Cuba à Folha

Quando Celso saiu da prisão, em 1977, com 29 anos, decidiu dedicar-se ao jornalismo, tirando um curso na USP. Não que tivesse grande esperança de conseguir furar a censura brasileira. Na década de 80, Celso acorre a Havana – “tinha uma expectativa muito grande, Cuba sempre esteve na raiz dos sonhos da minha geração” – para trabalhar no Granma, o órgão oficial do Partido Comunista Cubano.

“Você via um povo bastante sofrido, com muita carência material, não tinha cafezinho em todas as esquinas, nem boteco. Mas, ao mesmo tempo, você não via fome na rua, menor abandonado, roubo, nada disso. Me marcou muito, porque contrariava tudo o que se dizia sobre Cuba, que se vivia sobre ditadura. Eu nunca vi isso lá, vi um povo que participava, que discutia, debatia, brigava. Via o Granma na mão de todo o mundo, todo o mundo lia, o índice de alfabetização era muito grande, continua sendo hoje. É uma surpresa muito grande para quem saía do Brasil e chegava lá”, garante. “O socialismo que os cubanos conseguiram construir ali tinha raízes fundas, eu via um povo militante. Mas, é lógico que existia já alguns desvios, de burocratas que acabavam prevalecendo pela condição de dirigentes para atitudes de oportunismo, isso eu também vi”.

A sua estadia em Cuba seria sol de pouca dura. Havana entrara em negociações para restabelecer laços diplomáticos com Brasília, e era tempo de Celso voltar para o Brasil. Deu por si na grande imprensa, em jornais como a Folha de S. Paulo – cujos veículos a guerrilha costumavam queimar, dado o jornal emprestar camionetas com o seu logótipo ao DOPS, para apanhar opositores de surpresa, como confirmou a Comissão da Verdade.

“Quando você está na mídia no Brasil, a primeira coisa a pensar é que você está trabalhando para sobreviver. E você é obrigado a fechar os olhos a muita coisa porque senão você não trabalha”, explica Celso. Aliás, surpresa das surpresas, o antigo guerrilheiro marxista acabou dedicado a cobrir o mercado financeiro. “Olha onde eu fui me meter”, diz, entre risos. “No dia-a-dia vertia as informações que as fontes falavam do que estava rolando na economia. Mas também foi bom, aprendi muita coisa ali”.

Acabou por não ficar. “Após uns dez anos trabalhando na imprensa escrita, eu volto a sobreviver trabalhando em sindicato e no Partido dos Trabalhadores, militando também”, conta Celso. Viu com os seus olhos a maré rosa que varreu a América Latina, as esperanças enormes em cima da primeira eleição de Lula. Mas, já reformado, também viu a queda de Dilma, o regresso do saudosismo da ditadura, a eleição de Jair Bolsonaro.

Hoje, Celso preocupa-se sobretudo covid-19, “um inimigo invisível”, que até lhe traz à memória os seus tempos de guerrilheiro. “No outro dia, eu queria ver um companheiro nosso aí, que hoje é deputado estadual aqui em São Paulo. Liguei para ele e falei: ‘Vamos fazer como era na ditadura. A gente se encontra na rua, andando. Vamos marcar um ponto’. E gente foi andando, fugindo do vírus”.

 

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