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Manuel Pinto Coelho. "Preocupa-me o medo da pandemia, porque o medo é imunossupressor"

Manuel Pinto Coelho. "Preocupa-me o medo da pandemia, porque o medo é imunossupressor"

Joana Faustino 19/03/2021 14:18

Foi pai do sexto filho aos 69 anos e diz que sabe estar a assistir a “um milagre”. Fala na importância das hormonas e do sistema imunitário, a sua especialidade. Acredita que se cuidássemos dele como devíamos, “não estaríamos a atravessar a crise atual”.

Médico doutorado em Ciências da Educação, Manuel Pinto Coelho especializou-se no ramo da imunologia. No seu mais recente livro, O Segredo do Sistema Imunitário (ed. Oficina do Livro) dá conta de pequenos truques ao alcance de todos para manter este sistema forte e saudável. Defende, por exemplo, que o Governo devia dar a cada português a dose necessária de vitamina D – fornecida essencialmente pela luz solar – para fortalecer o sistema imunitário. Caso isso fosse feito, acredita, “não estávamos a atravessar este momento aflitivo”. Ele próprio é um excelente exemplo dos benefícios trazidos pelos princípios que prescreve: atualmente com 72 anos, foi pai pela sexta vez aos 69, provando que nunca é tarde demais para nada, muito menos para ter “a alegria de viver” que tem hoje. 

Foi pai aos 69 anos pela sexta vez. Essa possibilidade veio daquilo em que acredita e dos conselhos que dá para as pessoas manterem um estilo de vida saudável e um sistema imunitário forte?

Veio de tudo isso, sim, e da suplementação hormonal. A partir dos 25 anos temos um défice de produção de hormonas de 1% a 2% ao ano. Aos cinquenta anos temos metade do equipamento que tínhamos aos 25 e aos 72, como é o meu caso, imagine-se a desgraça que não vai para aqui. Se eu não fizesse uma otimização destes valores, não tinha de certeza a alegria de viver que tenho hoje. Como disse num livro que escrevi, as hormonas são o sumo da vida, elas condicionam tudo.

Acha que neste momento tem a mesma paciência e a mesma disponibilidade para os seus filhos do que tinha quando foi pai pela primeira vez?

Isso é uma pergunta interessante. Por acaso nunca tinha pensado sobre isso... Acho que tenho mixed feelings [sentimentos mistos] em relação a essa questão. Por um lado, chego a casa cansado porque vejo diariamente o primeiro doente às 7h30 e acabo de ver o último às 17h00. Chego a casa, janto e deito-me por volta das 20h00 ou 21h00, por isso não tenho muito tempo para estar com os meus filhos. Por outro lado, sei também que nunca vou poder voltar a experienciar esta fase da vida deles – um tem dois anos e o outro quatro. Por isso, por mais cansado que me sinta, faço das tripas coração porque sei perfeitamente que aquilo a que eu estou a assistir é um milagre.

Quais são, para si, as qualidades essenciais para se ser um bom pai?

Primeiro que tudo ter entusiasmo. Acreditar que através da sua ação pode fazer dos seus filhos pessoas com algumas sementes e raízes para irem atrás da sua criatividade e serem aquilo que eles quiserem ser. Depois, verdade. Dizer sempre a verdade e nunca mentir a uma criança. Eles têm uma capacidade de aprendizagem muito superior à nossa, apesar de terem um banco de dados muito menos preenchido. Têm muito mais milhões de neurónios do que nós, percebem sempre quando uma pessoa mente. E, por mim, muito afeto, carinho e amor, que é disso que uma criança precisa.

Com a covid-19 temos ouvido falar cada vez mais sobre a importância do sistema imunitário. Acha que as pessoas já lhe davam a devida importância antes da pandemia?

Ouve-se falar do sistema imunitário em grande parte por minha intercessão. Faz agora um ano, desde março do ano passado, que falo do sistema imunitário e que gravei vídeos com dois milhões de visualizações em que apontava ao nosso governo, entre outras coisas, a necessidade distribuir gratuitamente pela população portuguesa vitamina D na quantidade necessária e ajustada a cada pessoa. O meu colega Sobrinho Simões, numa entrevista ao Diário de Notícias no dia 2 de janeiro de 2019, referiu que iríamos ter as doenças que os políticos quisessem. Do meu ponto de vista, essa entrevista foi premonitória: é mesmo isso que está a acontecer. Se se tratasse do sistema imunitário da melhor forma e se o governo distribuísse gratuitamente vitamina D – que é um mecanismo importante, mas não o único – a todos os portugueses, não estávamos a atravessar este momento aflitivo que estamos. Há vários estudos em curso relativamente aos efeitos da vitamina D no corpo humano, um deles do Instituto Superior de Sanitat de Turim, em que se refere que pessoas que têm menos de 30 nanogramas de vitamina D por mililitro no sangue têm mais probabilidades de ter de ficar hospitalizados devido à covid-19; quem tem entre 30 a 50 nanogramas por mililitro só tem alguns sintomas; quem tem mais de 50 é provável que nem tenha sintomas. Portanto, se toda a gente tomasse alguns suplementos como vitamina C, vitamina A, vitamina K2, zinco, magnésio e melatonina e tivesse cuidado para evitar os alimentos inflamatórios (visto que 80% do nosso sistema imunitário está na parede do intestino), não estaríamos a atravessar a crise atual. Eu sei, através da minha experiência médica, que quem tem um bom sistema imunitário muitas vezes não apanha nem um resfriado no inverno. Por outro lado, se as pessoas tomassem todos estes cuidados tinham melhor saúde e consequentemente outro estado de espírito. E uma das coisas que mais me preocupa é o medo que surgiu em consequência desta pandemia, porque o medo é imunossupressor e não ajuda nada a quem quer ter uma imunidade q.b. para melhor resistir a este vírus.

O facto de as pessoas estarem fechadas em casa está a contribuir para uma diminuição da imunidade da população?

Quando as pessoas saíam de casa, não estavam enfiadas em escritórios e tinham uma vida mais ao ar livre, não havia tanto cancro, tantas doenças autoimunes, tanta obesidade, diabetes, hipertensão arterial. Pelo menos estas doenças não existiriam com a mesma intensidade com que há hoje.

Os países africanos beneficiam bastante da componente do sol. Por outro lado, as populações dos países menos desenvolvidos estão seguramente mais vulneráveis devido à alimentação. Isto afetou a forma como o continente está a lidar com a covid-19?

O engenheiro António Guterres previu, em março do ano passado, que a pandemia acabasse por se tornar um cataclismo devido às condições em que estavam as populações. Acontece que, passado este tempo todo, podemos verificar que as suas previsões falharam. Porquê? Porque as populações não estão confinadas nos escritórios e estão ao ar livre. Infelizmente, a maioria não tem recursos para ter roupa e anda de tronco nu, mas por isso mesmo sintetiza a vitamina D numa percentagem muito superior às pessoas que vivem nas grandes cidades, embora se saiba também que, para que as pessoas de pele escura sintetizem esta vitamina, tenham de passar muito mais tempo ao sol. Se se fizesse uma análise transversal a toda a população dos países de África, de certeza que encontraríamos níveis de vitamina D muito superiores àqueles que encontramos na Europa e na América. Em segundo lugar, temos a importância do intestino. O meu livro O segredo do sistema imunitário, que saiu recentemente, é um hino ao intestino. Na NOVA Medical School introduziram uma cadeira de Ciências da Nutrição em que estão a realizar um estudo, coordenado pela Professora Conceição Calhau, sobre a importância gritante do intestino e da microbiota, que é uma população de micróbios que lá se alojam e contibuem para cerca de dois quilos do nosso peso. Ao contrário do que muita gente diz, nós não somos o que comemos mas sim o que aquelas bactérias digerem. Temos 10 triliões de células mas temos 100 triliões de micróbios, entre eles bactérias, dentro do nosso intestino. A população de África, como não come hambúrgueres com batatas fritas e o pouco que come, porque não têm dinheiro, são vegetais, legumes e frutas, tem uma parede intestinal muito mais saudável do que as populações dos países desenvolvidos. O Brasil, por exemplo, é a população do mundo que mais consome açúcar e, por este ser tão inflamatório, deixa as paredes do intestino muito sensíveis. Nos Estados Unidos passa-se a mesma coisa: mais de metade da população é obesa e, para que a covid-19 provoque estragos, têm de existir, na maioria dos casos, comorbilidades associadas. Não é por acaso que estes dois países são os mais flagelados pela doença da covid-19. Um estudo da Instituto Superior de Sanitat de Turim revelou que cerca de 99% das pessoas que tiveram problemas associados à pandemia tinham comorbilidades, essencialmente hipertensão arterial, diabetes e obesidade. Quanto mais competente for o sistema imunitário, menos probabilidades há de ficar doente. A resposta para uma imunidade bem conseguida é a mudança de estilo de vida. Mas aparentemente isso não interessa a ninguém, porque nunca houve quem se debruçasse sobre fazer um fórum relativamente aos benefícios que o estilo de vida poderia trazer ao sistema imunitário das populações.

 

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