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Jorge Dias de Deus e a engenharia daquilo que ainda não existe

Jorge Dias de Deus e a engenharia daquilo que ainda não existe

Luís Oliveira e Silva 09/02/2021 09:43

Jorge Dias de Deus, físico, professor do IST, líder académico e divulgador de ciência, falecido no dia 1 de fevereiro, foi um professor marcante para várias gerações de alunos.

Na nossa experiência individual, todos reconhecemos professores que nos marcam profundamente e que recordamos ao longo de toda a vida. Sendo uma combinação de múltiplos fatores, os mais extraordinários destes professores conseguem unanimidade entre os alunos que se tornam seus devotos, repetem exaustivamente os seus chavões e, passados muitos anos, recordam episódios das suas aulas ou tentam reinventar, agora como professores, muito do que aprenderam. Jorge Dias de Deus, conhecido por muitos como DD, líder estudantil, físico, professor do Instituto Superior Técnico (IST), líder académico e divulgador de ciência, falecido no dia 1 de fevereiro, foi um desses professores marcantes para várias gerações de alunos da licenciatura em Engenharia Física Tecnológica (LEFT).

Muitos dos que com ele conviveram como cientistas e colegas já escreveram sobre DD [1, 2]. Atrevo-me, no entanto, a arriscar que o seu maior impacto, e o seu maior legado, é a LEFT e o seu mais de um milhar de licenciados e, pelo menos, outros tantos alunos de outros cursos no IST que DD inspirou, como Engenharia Biomédica, Engenharia Informática ou Engenharia Aeroespacial. DD foi um dos principais mentores da LEFT do IST e, durante muitos anos, o seu principal “ideólogo”. A Engenharia Física Tecnológica, atualmente um dos cursos universitários com a média mais alta de acesso ao ensino superior, deve a sua reputação, e a sua aura, a muito do que foi sendo construído desde meados dos anos 80 por, entre outros, Mariano Gago, Matos Ferreira e Dias de Deus.

DD sintetizava a engenharia física tecnológica como “a engenharia daquilo que ainda não existe”. Esta abertura total ao futuro e à incerteza tinha consequências imediatas na própria LEFT: incentivo à curiosidade e à exploração dos alunos em cadeiras com forte componente experimental, elevada flexibilidade curricular e liberdade para os alunos fazerem cadeiras dos mais diversos cursos do Técnico, trabalhos de fim de curso com duração de um ano nos mais variados temas e orientados por professores de diferentes departamentos, visão de que o ensino universitário só faz sentido em estreita ligação com a investigação. Como escreveu DD no seu Ciência: Curiosidade e Maldição [3], entre os que são travões ao renascimento científico em Portugal contavam-se “(...) os ‘pedabobos’ que tentam criar uma oposição entre ensino e investigação, como se o melhor ensino não fosse a prática da investigação científica”. No final dos anos 80, a LEFT antecipava, em muitas décadas, tudo aquilo que, de forma mais genérica, entendemos deve ser o ensino universitário no séc. xxi.

Era, por isso, natural o apelo e a atração de alunos com um perfil distinto, com uma escolha não ditada por questões vocacionais, mas por uma combinação de curiosidade imensa pela física e pela matemática, o desejo de ser desafiado por outros excelentes alunos e o gosto pela ciência. Esta diversidade é visível na variedade de percursos profissionais, das melhores universidades do mundo às Nações Unidas, das maiores empresas tecnológicas a startups, em domínios tão diversos como a física, a matemática, as engenharias, a economia e a gestão, a biologia e as ciências sociais.

Dias de Deus também acreditava que o ensino universitário nos primeiros anos devia ser assegurado pelos professores com mais experiência. Imaginem o deslumbramento dos alunos recém-chegados à universidade perante um professor, na sua voz nasalada e óculos grossos de massa na ponta do nariz que, sem condescendência e com grande sentido de humor, conseguia ligar o que estava a ensinar com a própria história da física e com temas mais avançados. A oportunidade de ter alguém que nos falava sobre os grandes avanços da física, mas também debatia os grandes dilemas morais que se colocam aos cientistas, enfatizava o caráter profundamente humano da ciência e partilhava a vivência de um cientista, com os seus anseios, erros, desafios e expectativas, era absolutamente inspiradora. Para muitos dos alunos, que devoravam os livros da coleção Ciência Aberta, da Gradiva, onde Dias de Deus foi o primeiro autor português, era a oportunidade para todos os dias serem desafiados e deslumbrados.

Sempre disponível para apoiar as iniciativas dos alunos (incluindo as mais reivindicativas), foi durante o seu período de maior ligação à LEFT que se lançaram as primeiras iniciativas de divulgação da física por alunos do Técnico e que foi criado o Núcleo de Estudantes de Física do IST (NFIST), um dos núcleos de estudantes mais ativos do país, em particular na divulgação de ciência. Também acreditava no poder dos eventos sociais, estando sempre disposto para participar nas confraternizações com os alunos, sendo memoráveis os jantares na Casa do Alentejo, região de onde era orgulhosamente originário.

Com as suas características únicas, tocou a vida de vários milhares de alunos que, com certeza, irão lembrá-lo para sempre nas suas idiossincrasias, mas principalmente como fonte de inspiração e como modelo. Que maior legado pode um professor e cientista deixar às gerações vindouras?

 

Professor catedrático do Departamento de Física
Instituto Superior Técnico
web: http://web.tecnico.ulisboa.pt/luis.silva/
twitter: @luis_os

[1] https://www.publico.pt/2021/02/01/ciencia/noticia/morreu-jorge-dias-deus-fisico-gostava-multidisciplinar-1948847
[2] https://tecnico.ulisboa.pt/pt/noticias/campus-e-comunidade/jorge-dias-de-deus-1941-2021-o-professor-mobilizador-que-se-divertia-a-fazer-e-divulgar-a-fisica/
[3] J. Dias de Deus, “Ciência Curiosidade & Maldição”, Gradiva, 1ª edição, 1986

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