Chega p’ra lá


O chega p’ra lá na Região Autónoma dos Açores é a conjugação de muitos fatores, mas é sobretudo uma expressão de uma escola de oportunismo democrático que António Costa iniciou em 2014.


Há uma cultura de irresponsabilidade política, no limitar da impunidade, que parece tocar alguns titulares de cargos públicos que agem como se não tivessem responsabilidade nas causas das coisas, em função do que fazem ou deixam de fazer. Perante as realidades que emergem decorrentes do que fizeram ou deixaram de fazer albardam o burro da comunicação à vontade do dono com um exercício de comoção perante a situação, um desvio de atenção ou uma fuga para a frente. Nesta deriva de sobrevivência, alheada do azimute dos princípios, dos valores e das matrizes históricas, só interessam os fins, com recurso a todos os meios que a habilidade, o domínio das variantes e a coluna vertebral permitem.

O chega p’ra lá na Região Autónoma dos Açores é a conjugação de muitos fatores, mas é sobretudo uma expressão de uma escola de oportunismo democrático que António Costa iniciou em 2014. Podem os acéfalos ou tribalistas apelidar de azia, que se trata apenas de realidade histórica factual. O vale tudo de não governar ou ter a oportunidade de governar quem ganhou, pelo voto democrático, tem um percursor e agora continuadores. E mesmo a deriva criativa de vale tudo do PSD/Açores com o Chega, a coberto do estadista de outras ocasiões Rui Rio, na ótica dos serviços prestados aos governos do PS, funda-se em oportunidades geradas pelo exercício do poder na Região e na República. Quantas vezes as opções e as omissões não têm sido pasto favorável para os populistas e os extremistas, com demasiadas conivências de democratas com responsabilidades que preferem o conforto da sobrevivência política ao incómoda da redução das margens de oportunidade para aquela gente, amiúde ou estruturalmente racista e xenófoba? O resultado é um chega p’ra lá, legitimado pelo histórico e pela prevalência parlamentar, sem grande cimento e sem glória para um projeto político em que participei em três campanhas eleitorais. A dispersão insular ocorrida é uma antecâmara do que acontecerá na República nas eleições autárquicas, em que o aproveitamento dos dissidentes dos maiores partidos e os populismos locais serão caminho fácil para o vale tudo, e nas legislativas.

A gravidade do atual contexto pandémico, em parte previsível há três meses, não pode ser pretexto para, à falta de capacidade de planeamento e de concretização, se enveredar por um caminho de chega p’ra lá nas liberdades, direitos e garantias só para dar um ar de reação perante as realidades não acauteladas. Nada justifica a falta de vacinas para a gripe nas farmácias, as dificuldades no acesso aos cuidados de saúde não covid, a falta de camas, a falta de profissionais ou a incapacidade para agir com prontidão e eficácia perante suspeitas ou confirmações de contágios em diversas expressões das dinâmicas da sociedade, a não ser a incapacidade política para antecipar e concretizar. De igual modo, de pouco vale ao PCP, ao Bloco de Esquerda, ao PEV ou ao PAN verbalizarem insuficiências no Serviço Nacional de Saúde, que poderiam ter sido mitigadas ou supridas ao longo dos últimos 5 anos, se as prioridades políticas tivessem sido outras, de interesse geral, em vez dos nichos eleitorais. A composição das respostas remete-nos para o número de circo dos malabaristas dos pratos a girar no topo das varas em que o desnorte em socorro das eminências de quedas e de cacos dá um ar de baratas tontas a caminho da “casa sem pão, onde todos ralham e ninguém tem razão”. Se tudo é para ser levado a sério, não pode haver espaço para mais zig-zagues ou exceções para a observância das limitações. Num contexto de emergência de saúde pública, não é possível debitar medidas em função de calendários partidários, do tipo limitar os fins de semana de 14 e 15 e 21 e 22 de novembro para deixar de fora o de 28 e 29 só porque o PCP tem um congresso agendado. É isto que alimenta os Chegas desta vida, os relaxamentos e os incumprimentos.

O povo americano, através do voto nos termos previstos, presencialmente e pelo correio, concretizou o chega p’ra lá a Donald Trump. Sendo certo que a vitória de Joe Biden, mais do que um voto de aprovação, expressa a rejeição de um perfil de governação populista, irresponsável e vale tudo, mas representa uma oportunidade de reposição de um nível de previsibilidade, sanidade e senso em função de valores e princípios históricos na América e do seu papel no Mundo. Uma expetativa que terá tanto mais êxito quanto tiver em conta a realidade existente, de forte polarização acumulada e impulsionada por Trump, e a necessidade de concretizar mudanças nas opções políticas correntes e da gestão da pandemia. Num tempo de emergência e do volátil, espera-se que Joe Bidem e Kamala Harris consigam deixar marcas positivas de inversão das tendências negativas dos últimos anos, na América e nas dinâmicas multilaterais fundamentais para uma globalização diferente.

Este tempo de emergência e de contradições deveria ser o suficiente para um exercício de funções públicas mais responsável, eficaz e tolerante. Infelizmente, os sinais não vão nesse sentido. É sementeira para os populismos.

 

NOTAS FINAIS

Chega p’ra o enfado // Diz o Povo que quem não quer ser lobo não lhe veste a pele. Depois do fim dos debates quinzenais, ter um debate parlamentar sobre a declaração do Estado de Emergência sem o primeiro ministro é sinónimo de enfado com o essencial do exercício institucional do cargo.

Chega p’ra tolerância // O PS sempre teve inscrito nos seus valores a tolerância e o respeito pela diversidade. A possibilidade de a troco do voto do PAN no OE 2021, introduzir novas limitações no acesso às touradas é miserável e violador da sua matriz histórica. É como se se impusesse a proibição dos menores serem obrigados pelos pais a terem uma alimentação vegan.

Chega p’ra liberdade // 46 anos depois de Abril, com um governo do PS em funções, com 30 anos de intervenção pública, há seis anos afastado da vida política e há seis anos a trabalhar no setor privado, julgava não ser possível que a empresa onde trabalho fosse penalizada numa consulta de uma empresa da órbita estatal por delito de opinião, mas voltou a acontecer na semana passada. “Essa não que ele está lá”. Não tenho nenhuma ambição ou vontade de voltar à política, é página muito arrumada, mas o Portugal democrático conta com a minha e todas as opiniões diferentes ou convergentes, prescindindo dessa gente pequena para a construção do que quer que seja. Era a melhor proposta técnica, prevaleceu o delito de opinião, com assinatura PS.

 

Escreve à segunda-feira