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Filipe Froes. "Estamos duas a três semanas atrás de Espanha, se tanto"

Filipe Froes. "Estamos duas a três semanas atrás de Espanha, se tanto"

Bruno Gonçalves Marta F. Reis 09/10/2020 08:49

Pneumologista alerta que o risco de rutura do SNS continua a existir. Defende que o país tem de aumentar a capacidade de testagem e rastreio para evitar uma segunda onda maior e confinamentos.

Nos últimos meses tornou-se uma cara mais conhecida do grande público mas há anos que, por esta altura, alerta que sempre que começa uma época de gripe, “prognósticos só no fim do jogo”. Filipe Froes acredita que com a covid-19 essa ideia de um vírus também benigno para a maioria das pessoas tem mascarado ainda mais o esforço feito para tratar os doentes, que não são só idosos, e que sem medidas seriam muito mais e avisa que mesmo nos casos ligeiros e assintomáticos poderá haver sequelas a longo prazo. Explica por que não tolera a ideia de uma gripezinha e considera errado comparar as mortes da época gripal com esta pandemia. Os assintomáticos são neste momento uma das suas maiores preocupações. Defende que o país tem de aumentar a capacidade de testagem e começar a fazer testes periódicos nos setores mais expostos, como lares e escolas, para evitar um novo confinamento. Na semana em que o país volta a passar a barreira dos mil casos diários, alerta que o risco de rutura do SNS se mantém – e afetaria todos os doentes, covid e não covid – e dá o exemplo de Espanha, onde em pouco tempo a epidemia se tornou explosiva. “Temos pouco tempo para fazer tudo o que é preciso fazer”, apela. Defende que não é agora o tempo de fazer contas ou avaliar o Governo mas de coesão e deixa desde já um repto: no final, deve ser feita uma auditoria internacional à forma como o país e todos os intervenientes geriram esta crise, para tirar lições para o futuro.

A primeira vez que falámos sobre este vírus, em fevereiro, dizia que uma pandemia era um jogo de preparação, paciência e conhecimento. Notava-se no entanto uma certa ideia geral de que o problema não chegaria cá com a dimensão que estava a ter na China, na altura com 17 mil casos. Houve uma desvalorização?

Revelámos provavelmente que não estávamos suficientemente preparados e que não tínhamos aprendido as lições das pandemias anteriores. E portanto repetimos os mesmos erros e continuámos a viver naquilo que muitos autores designam por ciclos de pânico e de negligência. Pânico durante a pandemia e indiferença e negligência entre pandemias. Que é um bocado o que começámos já a viver nesta pandemia, à medida que o tempo foi avançado começámos a assistir a ciclos de indiferença e negligência. Friedrich Hegel tem uma citação que diz: o que a história nos ensina é que não aprendemos nada com a história.

Vê-o em quê neste momento?

Há cem anos, na pandemia de gripe espanhola, tivemos uma primeira onda que, curiosamente, começou também em março/abril. O pico em Portugal foi em junho/julho de 1918. Depois tivemos uma segunda onda que começou em setembro/outubro e o pico foi outubro/novembro. Na segunda onda houve cem vezes mais mortes do que na primeira. A 25 de outubro morreria o pintor modernista Amadeo de Souza-Cardoso. Houve depois uma terceira onda que se iniciou em fevereiro/março, que teve o pico em Portugal entre março/abril. Morrem nessa altura os pastorinhos de Fátima, Jacinta e Francisco Marto, com nove e dez anos.

Hoje os recursos da medicina e as medidas em vigor são incomparáveis.

Mas o que não aprendemos foi que, da primeira para a segunda onda, houve uma diminuição da adoção das medidas de prevenção e uma maior saturação das pessoas, que fez com que o pico de atividade tivesse sido muito mais elevado, bem como a mortalidade.

Receia que isso aconteça nesta segunda onda? Passámos esta sexta-feira a barreira dos mil casos diários.

Espero que não, mas há sinais preocupantes. Na última semana já tínhamos ultrapassado a taxa de incidência semanal máxima atingida na primeira onda. Acabámos com mais de 55 novos casos por 100 mil habitantes na janela temporal de sete dias. Se havia dúvidas, o exame chegou. Temos de perceber que para comparar a atividade entre países temos de usar métricas semelhantes tendo em conta a população. Mil casos em Portugal, e serão mais, representam mais de 8 mil casos na Alemanha e perto de 5 mil casos em Espanha.

Tem sido assinalado pela DGS que existe agora um padrão diferente, com menos casos em idosos, mas analisando os dados percebe-se que estão também a aumentar. O padrão pode alterar-se?

Infelizmente vai alterar-se. Neste momento temos de facto mais transmissão através dos grupos nas comunidades mais jovens, que são os mais ativos e mais móveis, mas necessariamente, aumentando a transmissão, vão levar o vírus a todos os grupos etários e progressivamente vamos ter mais doença nos mais vulneráveis. Isto não é estanque. Estamos a comparar o que está a acontecer agora com uma primeira onda em que tínhamos menos capacidade de testagem, isso é verdade, mas tínhamos também um menor envolvimento de pessoas jovens na transmissão porque estávamos em confinamento. Agora as pessoas vieram das férias, a atividade escolar reabriu. As pessoas mais expostas terão mais facilidade em adquirir o vírus. São as primeiras. Mas depois essas pessoas vão criar cadeias de transmissão, que até podem ser assintomáticas, até que vão transmitir a pessoas que acabarão por ter a doença. Neste momento nos hospitais sente-se já um aumento enorme da pressão de internamento, vindo da comunidade e de outros hospitais que começam a entrar em dificuldades, o que justifica uma necessidade imperiosa de maior coordenação a nível regional perante o que temos pela frente. 

Outros destaques

“Se o SNS entrasse em rutura, afetaria todos: doentes covid e não covid. Isto não é  um trade-off”

“Precisamos de aumentar a frequência de transportes públicos. Vamos sofrer as consequências”

“Se Trump tivesse adoecido entre março e maio, não teria recebido nenhum destes fármacos”

“Não existe gestão de recursos humanos no SNS. Quem faz a gestão é o privado, que pesca  à linha quem precisa"

“Uma das maiores machadadas no SNS foi a criação de grandes centros hospitalares.  É um tabu” 

"Seria útil auditar quem e como fragilizou a nossa autoridade nacional de saúde"

 

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