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Joana Mortágua 24/09/2020
Joana Mortágua
Cronista

opiniao@newsplex.pt

A mulher que não podia morrer

“Ela é demasiado preciosa. Esqueçam a toga preta: ela devia andar embrulhada em papel com bolhas de ar e ser levada pelas escadas como se fosse um ovo Fabergé”.

Os cargos vitalícios dão outro significado à morte. Não falo do como ou do onde se morre, isso em princípio fica na intimidade de cada um, mas do quando a morte abre uma vaga que depois voltará a ser ocupada pelo tempo de uma vida. Tendo em conta que a morte muitas vezes não é uma decisão mas uma espera e dependendo da magnitude do terramoto potencialmente provocado pela substituição, viver pode ser um ato verdadeiramente revolucionário.

Pelo menos era esse o sentimento de milhões de norte-americanos em relação à juíza Ruth Bader Ginsburg, bem ilustrada na angústia humorada de Stephen Colbert, anfitrião do talk show Late Night, quando a octogenária caiu e partiu duas costelas: "ela é demasiado preciosa. Esqueçam a toga preta, ela devia andar embrulhada em papel com bolhas de ar e ser levada pelas escadas como se fosse um ovo Fabergé”.

Ruth Ginsburg não podia morrer porque chegou àquele patamar em que as pessoas se tornam insubstituíveis. Conhecida por uma alcunha inspirada num famoso rapper norte-americano, a  “notourious RBG” foi uma das nove mulheres a entrar em Direito em Harvard em 1956 e a melhor aluna da sua turma em Columbia. Em 1993 tornou-se a segunda mulher a integrar o Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América por nomeação do então Presidente Bill Clinton.

Feminista orgulhosa, foi progressista o suficiente para arrancar de Trump a acusação medieval de ser bruxa e, crime ainda mais grave, dela também se diz que ensinou a uma geração inteira o valor do dissenso. Por outras palavras, nunca terá dito amém a nada e por isso saiu derrotada na decisão que levou o Supremo a parar a recontagem de votos dando a vitória a Bush nas eleições presidenciais de 2000. Por um voto Al Gore perdeu as eleições e o mundo que podia ter sido outra coisa acabou por ser o que foi.

Mas sobretudo Ruth Ginsburg não podia morrer agora porque essa era a notícia que Trump esperava. E esperava há tanto tempo que sacrificou qualquer réstia de decência na sofregidão de perpetuar o seu poder através de mais uma nomeação para o Supremo. Duas horas depois da notícia da morte começou a corrida a uma das nove vagas vitalicias a quem é dado o poder de decidir sobre todas as leis e de ter a palvra final em questões tão fundamentais como o aborto, os direitos dos imigrantes, a privacidade, a pena de morte, a posse de armas ou as eleições presidenciais.

Nem todos os presidentes têm a chance de nomear alguém para o Supremo e Trump já teve duas oportunidades. A possibilidade de nomear o terceiro deixa os juízes progressistas em desvantagem de 3 para 6, péssimas notícias para qualquer ilusão do tão norte-americano equilíbrio de poderes que supostamente tempera a extrema-direita em exercício.

A quatro meses de eleições, qualquer intenção que não fosse o assalto ao poder levaria o Presidente à magnanimidade de deixar a decisão nas mãos do povo. Se esse plano de confiar na ética do presidente falhasse, qualquer Presidente do Senado teria feito o mesmo que McConnel fez em 2016, quando rejeitou o nomeado escolhido por Barack Obama, dizendo que não fazia sentido uma nomeação em ano eleitoral. Só que agora o mesmo presidente mudou de ideias, e vai apoiar uma nomeação que já só pode ser travada por uma rebelião na bancada republicana.

Ruth B. Ginsburg morreu no dia 18 de setembro. Sobre ela, o The Guardian escreveu que “conquistou amor e admiração não apenas enquanto campeã da igualdade mas pelo brilhantismo da sua capacidade de persuasão. Os homens que agora procuram desfazer o seu trabalho, através da nomeação de mais um ideólogo conservador para o Supremo Tribunal, sabem que não podem instigar nenhuma mudança através de uma visão ética. Simplesmente não a possuem, contam apenas com o poder bruto.”

Há mortes que transcendem muito o valor individual da vida que levam. Há mortes que são prenúncio e outras que são princípio. No ano da morte de Ricardo Reis, romance de Saramago delicadamente adaptado para o cinema por João Botelho, o ano de 1936 é sujeito de um enredo político que acaba da pior maneira e de que a morte de Ricardo Reis é prenúncio.

A nossa esperança - sim, porque ainda temos direito a uma - é que a morte de Ruth Bader Ginsburg seja princípio. A democracia no mundo precisa que Donald Trump perca as eleições e tem do seu lado a grande vantagem desta história ainda não estar escrita.

 

Deputada do Bloco de Esquerda

 

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