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Medicamento esgotado deixa portugueses desesperados

Medicamento esgotado deixa portugueses desesperados

João Amaral Santos 27/08/2020 15:43

O medicamento para tratar ataques de ansiedade e pânico está esgotado desde junho em Portugal. A rutura de stock vai manter-se até outubro. Doentes desesperam pelos comprimidos.

A rutura de stock do medicamento Victan, usado para situações de ataques de ansiedade e pânico, está a levar a uma corrida às farmácias e ao agravamento do estado de saúde de quem sofre de doenças do foro psíquico.

Segundo apurou o i, as embalagens de Victan, um remédio que deveria ser usado, por regra, em situações de SOS, ficaram indisponíveis desde 17 de abril (as caixas de 60 comprimidos) e de 15 de junho (as de 20), depois de o laboratório francês Sanofi, único titular de autorização de introdução do remédio no país, ter comunicado ao Infarmed “a incapacidade temporária de abastecer o mercado”, pelo menos, até outubro.

A própria relação abusiva dos portugueses com os antidepressivos e ansiolíticos complica a questão, pois o Victan, quando tomado numa base diária, pode mesmo levar a um quadro de dependência.

Este facto explica, em grande medida, a corrida às farmácias que se verificou assim que surgiram informações da rutura de  stock do medicamento. A situação  contribuiu decisivamente para que o Victan se esgotasse em tempo recorde (no espaço de apenas uma semana), primeiro nas farmácias mais concorridas, nos centros urbanos, e, depois, nas localidades menos povoadas, no interior do território nacional.

Sem alternativas, milhares de doentes passaram a percorrer, no último mês, muitos quilómetros em busca do medicamento. E alguns já terão mesmo cruzado a fronteira à procura do Victan na vizinha Espanha.

 

Infarmed aconselha evitar fármacos

Ao i, o Infarmed confirmou que a rutura de stock é da responsabilidade do laboratório Sanofi._A farmacêutica informou o regulador que, neste momento, não reúne condições para exportar o Victan para Portugal. O Infarmed, por seu lado, isenta de quaisquer responsabilidades as farmácias portuguesas.

A entidade refere ainda que “averigua regularmente o circuito do medicamento, tendo por base também as orientações que emite regularmente, através de circulares, efetuando análises e averiguações de mercado, inspeções e podendo também aplicar contraordenações, em conformidade com as disposições legais e sempre que tal se afigure necessário” – não acrescenta, porém, se vai avançar  ou não para alguma medida adicional na sequência desta situação.

Em nota publicada no seu site, o Infarmed já tinha esclarecido que existem alternativas ao medicamento esgotado disponíveis no mercado. Em comunicado, a entidade liderada por Rui Santos Ivo indica que o Victan é uma “substância ativa Loflazepato de Etilo, classificado como benzodiazepina com atuação ao nível do sistema nervoso central, encontrando-se indicado para a ansiedade e sintomas ansiosos”. O regulador acrescenta que solicitou orientações à Comissão Nacional de Farmácia e Terapêutica e identificou “a substância ativa Alprazolam em formulação de libertação prolongada” como alternativa disponível no mercado português.

A questão, porém, é que o Victan é um medicamento que, normalmente, é tomado em SOS por quem está a passar por um ataque de ansiedade ou de pânico. Na sua aplicação prática, o comprimido deve ser colocado por baixo da língua, para se obter um efeito imediato. O Alprazolam, por outro lado, é um ansiolítico com características preventivas. Quem o utiliza como alternativa ao Victan terá, neste caso, de passar a tomar um medicamento numa base diária. Para mais, o Alprazolam causa uma diminuição em várias funções do sistema nervoso central (consoante a dose), que pode ir desde um comprometimento leve dos reflexos e desempenho diário até sono provocado ou quadro de sedação – tornando-se, pois, uma opção nem sempre viável para muitos doentes.

O próprio Infarmed acrescenta, na sua nota, que a alternativa ao Victan deve passar por outras estratégias: “Deverá ser equacionada pelos profissionais de saúde a implementação de medidas não farmacológicas para controlo de ansiedade, direcionando a solução farmacológica para doentes com distúrbios de ansiedade crónico e refratário”. Ou seja, na opinião do regulador, deve, neste momento, ser evitada a substituição de medicamentos, o que, por si só, é esclarecedor quanto à eficácia das alternativas.

 

Rotinas dificultam

O contexto da pandemia contribuiu para o agravamento da saúde mental dos portugueses. Portugal já era, recorde-se, mesmo antes da covid-19, um dos países europeus com maior consumo de antidepressivos e ansiolíticos – o relatório da OCDE para o setor da saúde em 2019 revela que Portugal apresenta um consumo de 104 doses diárias por mil pessoas, quando a média da OCDE é de 63. Ao i, o psiquiatra Júlio Machado Vaz admite que, nos próximos meses, os casos de ansiedade, depressão e situações pós-traumáticas podem aumentar, na sequência da pandemia e do confinamento.

A rutura de stock do Victan é uma preocupação, pois quando se trata de doenças do foro psíquico, basta alterar as rotinas do paciente para se enfrentar um desafio de difícil resolução. “Existem, de facto, alternativas no mercado, mas, neste caso, em última instância, a mente é sempre mais forte que a resposta médica”, diz o psiquiatra, contando um exemplo: “Há mais de 40 anos, quando ainda era médico de clínica geral, não consegui receitar um medicamento para dormir a um paciente porque o mesmo estava esgotado. Receitei-lhe outro, exatamente com os mesmo componentes, o mesmo princípio ativo, mas, a partir desse dia, o paciente nunca mais conseguiu dormir. Tentei explicar-lhe que era tudo igual, mas de nada serviu, uma vez que ele só me dizia que não conseguia dormir”.

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