24/1/21
 
 
António Galamba 17/08/2020
António Galamba

opiniao@newsplex.pt

É Avante!

A polémica em torno da Festa do Avante! é apenas mais um de muitos exercícios estratégicos do PCP para transmitir a perceção de vigor na afronta aos poderes instituídos, enquanto é parte das soluções de Governo, das opções políticas e, simultaneamente, da contestação.

Nunca fui à Festa do Avante nem conto ir. Nunca fui a um desfile militar na Coreia do Norte nem conto ir. Quem cresceu com noção do que é o modus operandi do Partido Comunista Português não esquece as listas negras pós-Abril ou as divergências profundas entre a propaganda da gestão autárquica das coligações que escondem o PCP atrás de siglas e a realidade. A Festa do Avante!, que tem sido um grande evento político-popular, é apenas uma face de uma certa noção de privilégio assente numa alegada dívida de gratidão eterna que a democracia portuguesa tem de ter pelo PCP pela luta contra o Estado Novo. Essa pretensa autoridade moral, qual dívida em permanente cobrança por cobradores de fraque do comité central, tem sido um garante para uma espécie de abuso de posição dominante, ora por relevância política na sustentação das soluções governativas, ora pela força direta ou sindical do poder da rua. É assim que a Festa do Avante! serve para ter anúncios publicitários nas televisões, algo vedado aos partidos políticos, mas permitido pelo formalismo do truque. É ainda assim que a Festa do Avante! tem sido sucessivamente fustigada pela entidade que fiscaliza as contas dos partidos políticos, por ter uma inconsistência contabilística que não é permitida a um pequeno agricultor que pretende vender o que produz na fazenda ou a um prestador de serviços. A Festa do Avante! assume uma relevância de saco azul do partido, e o Estado, tão zeloso com os cidadãos no arrecadar da receita fiscal e ainda mais com quem obtém lucro no desenvolvimento das atividades, é permissivo e conivente com o lucro não documentado daquela festa partidária.

A polémica em torno da Festa do Avante! é apenas mais um de muitos exercícios legítimos, legais e estratégicos do PCP para transmitir a perceção de vigor na afronta aos poderes instituídos, enquanto é parte das soluções de Governo, das opções políticas e, simultaneamente, da contestação daquilo que, direta ou indiretamente, viabiliza em Lisboa. Depois de ter viabilizado uma solução governativa e de ter colocado em risco o modelo de rotação de quadros do partido nas autarquias locais, com a perda de municípios-chave nas últimas eleições autárquicas, o PCP vive a angústia das consequências da proximidade do poder, da duplicidade do posicionamento e da erosão do tempo.

A legitimidade das intenções não elimina a suprema falta de senso, ofensiva e indecorosa, de insistir na realização do evento em 2020, num quadro de risco pandémico, quando outras realizações foram adiadas e todos os cuidados são poucos. É que, mesmo que o retrato final seja de ordem e de observância das regras da DGS, o 1.o de Maio na Alameda revelou que o antes e o depois da fotografia, nos transportes em autocarros municipais pagos com dinheiro do erário público, são de total rebaldaria no cumprimento das regras. E se somarmos a venda de álcool, vedada a tantos, mas certamente permitida no recinto, tem tudo para ser um grandioso momento de afirmação do risco de contágio. É certo que só vai quem quer, quem gosta ou quem tem a obrigação de contribuir para um dos momentos altos da gestão financeira do partido. É que em 2021 há eleições autárquicas e a festa tem mesmo de acontecer em 2020, contra quase tudo e quase todos.

O problema, para além dos riscos de contágio numa concentração de pessoas que, se tiver a lotação anunciada, será a maior realizada em contexto de pandemia, é o exemplo para a cidadania num território metropolitano que tem estado sujeito a grande pressão pelos dados registados. Tudo é menor face aos desígnios do PCP. “O que faz falta é animar a malta”, marcar uma posição de força em jeito de donos disto tudo e reforçar os cofres para os desafios autárquicos vitais que se avizinham. O PCP conta com isso e deverá contar com um PS que nada de consequente fará para que o partido seja ainda mais fragilizado no seu poder de implantação autárquico, decisivo para continuar a contar no plano democrático e no plano da inserção laboral dos seus quadros políticos. Perder autarquias como Seixal, Setúbal, Évora ou Loures significaria a asfixia de um modus operandi que António Costa não devia permitir. Precisa de um PCP, ainda que debilitado, para desgraduar a relevância do Bloco de Esquerda e de outras emergências fracassadas.

Vai ficar tudo bem. O PCP vai ter a sua Festa do Avante!, com ou sem Pedro Nuno Santos, projetará uma posição pífia de força, mas consequente nos financiamentos, e aos restantes será exigido muito mais, no dia-a-dia ou na resposta aos resultados dos desmandos perante os riscos de contágio. Há sempre alguém que tem de resistir. Há sempre alguém que diz sim. É Avante!

As contradições, as modelações e as injustiças, no sentido de haver regras mais permissivas para alguns, ainda que sob a capa de direitos, liberdades e garantias protegidos pela Constituição, são pasto fértil para os populismos e para um sentimento de revolta que medra na sociedade portuguesa. Para quem se arvora em detentor de uma alegada superioridade patrimonial sobre a luta antifascista e as conquistas de Abril, não perceber que essa insistência posicional partidária é geradora de oportunidades para os populistas é não compreender o tempo atual e as dinâmicas em curso. É perpetuar passados sem nexo no presente e para o futuro.

NOTAS FINAIS

O país real De férias por Almograve, como sempre há mais de uma década, sente-se uma crescente tensão entre os residentes originais e os residentes supervenientes que vieram para trabalhar no setor agroalimentar. É daqueles contextos que, a não serem dadas condições para um trabalho de reforço da coesão da comunidade, têm tudo para dar disparate e, depois, gerar um sobressalto nacional, com comoção e comentário presidencial.

O país que temos Já não há paciência para as comoções nacionais. Depois de anos de indiferença em relação às realidades, o país sobressalta-se com as consequências. Agora é o caso do lar de Reguengos. Como em tantos outros setores da sociedade, há quem tenha uma lógica estritamente comercial da concretização de respostas e quem procure concretizar soluções humanizadas, com qualidade e conforto para os utentes. Estes têm realizado um enorme esforço de sustentabilidade das respostas, compatibilizando o pagamento dos investimentos do PARES na construção de novos equipamentos, a manutenção de padrões de qualidade, a perda de rendimentos das famílias por via das sucessivas crises económicas, a dificuldade na captação de recursos humanos para o trabalho a realizar e a não atualização adequada das comparticipações da Segurança Social.

 

Escreve à segunda-feira

 


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