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Sreya. “Se as letras não passarem ao público são apenas terapia, não são músicas”

Sreya. “Se as letras não passarem ao público são apenas terapia, não são músicas”

Mafalda Gomes Hugo Geada 12/08/2020 18:59

Meio frio, meio quente, Cãezinha Gatinha, o novo álbum de Sreya, é um disco sobre os sentimentos opostos que às vezes nos fazem esquecer quem verdadeiramente somos.

Já todos tivemos planos que nos saíram furados e que, de alguma forma, acabaram por nos marcar. Foi isto que aconteceu a Rita Moreira, que responde pelo nome artístico de Sreya: depois de ter vivido oito meses na República Checa, quando regressou a Portugal não se sentia a mesma pessoa de sempre. Algo nela estava desequilibrado. “Estive em Lisboa a fazer reabilitação para voltar a ser eu [risos] e voltar a ser 50% cãezinha e 50% gatinha, e não só cãezinha ou só gatinha, e ser maluca ou exagerada demais”, confidencia em entrevista ao i.
Uma parte importante neste processo de reabilitação foi a criação do seu segundo disco, Cãezinha Gatinha, com influências da música indie pop mais eletrónica. A primeira metade foi escrita na República Checa e a segunda em Portugal (daí estar divido em duas partes, “Frio” e “Quente”). A artista espera, com o seu lançamento, no dia 31 de julho, encerrar este período contraditório da sua vida.

Como surgiu a ideia de fazer este novo álbum, Cãezinha Gatinha? Foi algo natural, não pensei “vou agora fazer um segundo álbum”. É o seguimento do meu álbum de estreia, Emocional. Esse foi o meu primeiro contacto com a música, gostei muito de o fazer, mas achei que não foi suficiente e que o podia fazer um bocado melhor ou diferente. Entretanto, emocionalmente, passei por uma fase em que precisei de escrever; por isso, as letras surgiram de uma forma natural.

Este disco é feito de contrastes, a cãezinha e a gatinha, o calor e o frio. Porque decidiu seguir esta abordagem? A primeira metade do álbum foi escrita na República Checa – estive lá oito meses –, onde passei o inverno, e quando voltei para Portugal, para Lisboa, tinha noção de que metade do disco estava escrita. Por isso, o resto era sobre este regresso e o processo para voltar a ser a Sreya de antigamente, que na República Checa deixei de ser. 

O que esteve a fazer na República Checa? Estive a fazer um voluntariado de cultura em Hradec Králové, que acabou por sair um bocado furado, por inúmeras razões. Costumo dizer que a minha estadia na República Checa é um bolo em que todos os ingredientes estavam estragados. 

O que aconteceu para provocar esse desagrado? Cada dia da semana tinha um trabalho diferente em campo. Havia dias em que ensinava inglês a crianças em ATL, noutros dias trabalhava em quintas, noutros dias conversava em português na Associação Cultural Fernando Pessoa, com os checos que tinham aprendido a falar português e precisavam de desenferrujar. Também trabalhei com animais.

Com animais? O que fazia? Sim, num zoo e num hospital, onde dava larvas a morcegos e acordava os animais para comerem.

Fez algum concerto na República Checa? Não, fiz dois concertos em Portugal antes de ir embora. Supostamente tinha vários concertos apalavrados para o inverno mas, por isso, até fiquei contente por ir embora: estava supernervosa e não me sentia nada preparada. Por ironia, acabei por voltar mais cedo porque não gostava de estar lá e porque tive um convite da Filho Único para dar um concerto no Lounge. Ou seja, estava contente por me ir embora e acabei por ficar feliz por voltar.

Como era a sua relação com as pessoas da República Checa? Estranhamente parecidas, na verdade, com as devidas diferenças – não existe aquele típico calor humano português. Mas onde encontrei mais semelhanças foi em termos políticos, a forma como os checos têm conversas de café a dizer que está tudo mal mas, depois, não fazem nada. São iguais. Conversei com vários checos da minha idade e eles diziam: “É isto que se passa”. Estão todos descontentes, mas não fazem nada para além de falar mal no café.

Já se sente mais confortável em palco? Os primeiros concertos foram muito difíceis para conseguir gerir os meus nervos, mas agora, depois de dar alguns, sinto-me mais confiante.

Já tem concertos marcados? Ainda não tenho, está tudo muito incerto. Há conversações, mas as coisas podem ser canceladas de um dia para o outro, como aconteceu com o Vaiapraia nas Damas.

Como foi colaborar com o Bejaflor e o Primeira Dama? O seu primeiro álbum foi produzido pelo Conan Osíris [Tiago Miranda], que é seu amigo. Sente que houve uma grande diferença?
Houve muitas diferenças. Para já, a maneira como eles encaram este disco foi diferente de como eu e o Tiago encarámos o Emocional, que foi muito mais uma experiência e um trabalho de amigos – não é que o Bejaflor e o Primeira Dama não sejam meus amigos, mas foi diferente, foi mais profissional, e pelo processo acabei por conhecê-los melhor. O Cãezinha Gatinha também tem uma carga emocional um bocado maior para mim. Por isso, queria que tudo estivesse mais como eu idealizei e no trabalho com o Conan foi mais “um para um”: “Eu faço isto, tu fazes isto”. Eu só lhe dava os moods das músicas. Mas neste fui mais impositiva.

Isso é evidente na produção, mais hi-fi. O conceito também é completamente diferente e aprendi muito. Com o Tiago foi um processo muito rápido, enquanto este disco demorou mais de um ano e meio a fazer. Foi um processo mesmo muito diferente.

Qual foi para si a maior diferença na produção dos dois discos? Eu fiz a pré-produção com o Bá, Bernardo Álvares, que foi a pessoa que pegou em mim e disse que eu estava a ter um hype maior do que aquilo que eu imaginava e incentivou-me a fazer mais músicas. Nós os dois fomos desenvolvendo este conceito. Ele tem um grande conhecimento de música. Enquanto eu lhe falava das minhas ideias para as canções, ele foi-me mostrando referências de coisas que achava que podiam ser interessantes. Logo aí houve um processo de pré-construção. O primeiro foi um processo mais imediato, em dois meses estava pronto. O Cãezinha Gatinha começou como uma espiral muito pequena e foi crescendo e apanhando outras pessoas. Entretanto, o Bernardo saiu do processo criativo e juntou-se o José Mendes, Bejaflor, que é incrível a fazer beats. Estava sempre a dizer-lhe: “Estas músicas precisam de mais gomas”. Precisava de alguns pormenores de linguagens que fossem mais minhas, foi então que entrou o Bejaflor – nesse aspeto somos muito parecidos – e ele veio acrescentar aquelas “gomas” que estava a pedir desde o início. E acho que ficou perfeito, somos um trio que funciona bastante bem.

Disse que este disco é mais emotivo que o anterior. Como se sente ao partilhar esses sentimentos com o público? Sinto sempre que é uma falta de privacidade gigante ouvir a música de outros músicos e apercebi-me disso quando conheci mais músicos, porque sei perfeitamente do que eles estão a falar nos seus trabalhos. Nunca tinha pensado nisso dessa forma, mas é o que é. Um dia disseram-me que escrever é uma das melhores maneiras de desabafar e deitar sentimentos cá para fora que me estão a deixar demasiado cheia. Também me explicaram que, se as letras não passarem ao público, são apenas terapia, não são músicas. Este trabalho é capaz de estar entre a terapia e a arte.

Está a exorcizar demónios? Sim, mas só quando este disco estiver cá fora é que vou sentir que este ciclo está encerrado. Tem sido muito difícil para mim. Agora, já quase me habituei a ele quase não sair nunca. [risos] Em março, quando começou a quarentena, fiquei mesmo chateada por não poder lançar o disco. Tinha aquela meta de lançar na primavera, em março, a minha estação e mês preferidos do ano. Então estava mesmo contente por sair nessa altura porque fazia sentido fechar esse círculo aí e depois iniciar uma nova fase na minha vida. Mas não me importo de lançar no verão, também gosto muito.

Onde se inspirou no conceito Cãezinha Gatinha? Foi baseado em algum animal em concreto? Nas minhas músicas falo sempre muito de animais, mas isto é uma referência direta à minha pessoa e a uma música do meu primeiro disco, Parteira Cósmica, em que digo “Eu sou uma cãezinha-gatinha”. Este disco é sobre eu ser uma cãezinha-gatinha, ter sido cãezinha na República Checa e ter sido gatinha em Lisboa. Não tenho grandes problemas em fazê-lo e neste disco está sempre a acontecer.

Porque acha que era uma cãezinha na República Checa? Era pela energia que transmitia. Acho que ambos emanam energias diferentes – talvez um bocado mais submissa lá e, cá, um bocado mais rebelde.

Sente que voltou diferente da República Checa?
Totalmente, mas o problema é que era uma pessoa diferente que não era fixe. Não gostei da pessoa que voltou. Estava superfrágil e fucked-up [risos]. Estive em Lisboa a fazer reabilitação para voltar a ser eu [risos] e voltar a ser 50% cãezinha e 50% gatinha, e não só cãezinha ou só gatinha, e ser maluca ou exagerada demais.

Tinha dito que a parte quente do álbum era sobre a reinserção em Lisboa. Como está esse processo? Acha que já está terminado?
Acho que só vai mesmo terminar quando lançar o disco. Quando lancei a música ‘Hospital do Amor’, uma das frases que escrevi no post foi: “Já tive alta, obrigada”. Vou precisar de lançar 

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