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Umberto Eco e Carlo Maria Martini. Crer ou não crer

Umberto Eco e Carlo Maria Martini. Crer ou não crer

Carlos Fiolhais 23/07/2020 07:28

Em que crê quem não crê? é o apelativo título de um livro que acaba de sair na Gradiva cujos autores principais são os italianos Umberto Eco (1932-2016), escritor, crítico e filósofo, e Carlo Maria Martini (1927-2012), cardeal jesuíta que esteve à frente da diocese de Milão e que se distinguiu pelas suas posições progressistas no seio da Igreja.

Os dois são do Piemonte, Eco de Alexandria e Martini de Turim. Ambos ocuparam altas posições académicas: Eco foi professor de Semiótica na Universidade de Bolonha, enquanto Martini foi professor de Crítica Textual na Universidade Gregoriana em Roma, da qual foi reitor. Eco recebeu o Prémio Médicis de melhor romance estrangeiro em França enquanto Martini obteve o prémio Príncipe de Astúrias em Ciências Sociais em Espanha. Martini terá tido um número significativo de votos no conclave de 2005 que elegeu Bento XVI (surge retratado no filme Os Dois Papas, de Fernando Meirelles, disponível na Netflix).

O livro é um diálogo epistolar que teve lugar em 1995-96, sob a iniciativa da revista Liberal, quando Eco e Martini estavam no auge das suas maturidade intelectual e fama. Eco era laico, em contraste com o “príncipe da Igreja” seu correspondente. No total trocaram oito cartas: Eco começou por colocar três questões (uma sobre o apocalipse e a esperança, outra sobre a definição de vida e outra ainda sobre o papel das mulheres na Igreja). Resolveu logo de início a questão do tratamento, escrevendo “Querido Carlo Maria Martini”, uma forma que logo foi reciprocada. As questões são formuladas com erudição e sensibilidade. Martini, nesse mesmo tom, reafirma sempre a posição da Igreja, apesar de ele ser mais aberto em vários temas (defendeu, por exemplo, maior abertura aos casais homossexuais). 

Por fim, o jesuíta colocou ao romancista uma questão sobre o fundamento laico da ética. Martini pergunta por que razão quem não aceita um absoluto ou transcendente deverá aceitar valores comuns a todos os humanos. Esta questão revela-se central no livro, justificando o subtítulo (“Um diálogo sobre a ética”). Eco respondeu invocando o chamado “instinto natural”, isto é, as bases biológicas da espécie humana, cuja sobrevivência só pode ser colectiva. O eu precisa dos outros pois a “salvação” tem de ser conjunta. É um gosto ler um diálogo entre duas pessoas muito cultas, uma educada na Igreja mas que a abandonou aos 22 anos, e outra com toda uma vida de profissão de fé. Eco move-se à vontade em temas da teologia, como mostra as suas citações de São Tomás de Aquino, mas Martini não se deixa enredar nas minudências da teologia medieval, que aliás conhecia bem, alegando  não querer tornar o livro enfadonho.

A essas duas vozes seguem-se, num “coro” sobre a ética, as de seis intelectuais italianos, todos eles laicos: Emanuele Severino (1929-2020), um dos maiores filósofos do seculo XX, embora considerado herético pela Congregação para a Doutrina da Fé pela sua defesa da “eternidade de todo o ser”; Manlio Sgalambro (1924-2014), filósofo e escritor autodidacta (é dele o texto com maior contundência verbal: “O Bem não pode fundar‑se num Deus homicida”); Eugenio Scalfari (n. 1924), jornalista, autor de uma recente entrevista ao papa Francisco, em que este supostamente nega a existência do inferno; Indro Montanelli (1909-2001), jornalista e historiador que foi um dois alvos das Brigadas Vermelhas nos anos 70; Vittorio Foa (1910-2008), político, jornalista e senador; e Claudio Martelli (n. 1943), que foi deputado e ministro da Justiça (caiu entretanto em desgraça devido a um escândalo financeiro). No final, o cardeal Martini, que acaba por ser a figura principal do livro porque um cardeal ainda é um cardeal, responde brevemente a todos, no texto “Mas a ética precisa de verdade.”

Procurando nos catálogos das bibliotecas, descobri que o livro já existia em português, de resto com a mesma tradução, de Valentim Marques (o padre Valentim, amigo e “editor” de Miguel Torga) e António Maia da Rocha: saiu na Gráfica de Coimbra em 2000. Teria sido útil que a Gradiva tivesse dado esta informação, para além de esclarecer as circunstâncias do diálogo. Entre nós, teve lugar no Diário de Notícias um diálogo similar entre o laico Eduardo Prado Coelho e o cardeal patriarca de Lisboa D. José Policarpo. O correspondente volume (Diálogos sobre a Fé) saiu do prelo da Notícias em 2004 com prefácio de Eduardo Lourenço, pouco antes de Prado Coelho falecer.

Eco é mundialmente conhecido: principalmente pelos seus sete romances, dos quais destaco O Nome da Rosa (que deu um filme) e O Pêndulo de Foucault (que passa por Tomar). As fichas de Eco na Biblioteca Nacional totalizam 180, embora fiquem apenas 53 quando se consideram só as primeiras edições em português. É obra! O autor, que visitou Portugal três vezes (vi-o em Coimbra em 1984), fala da Biblioteca Joanina no livro Não contem com o fim dos livros (Gradiva, 2017; há edição anterior com outro título: A Obsessão do Fogo, Difel, 2009), uma conversa com Jean-Claude Carrière. A Gradiva tem 14 livros de Eco disponíveis no seu catálogo: destaco por encherem o olho História das Terras e dos Lugares Lendários e Aos Ombros de Gigantes. Os dois ensaios dele de que mais gosto são A Biblioteca (Difel, 1983), um pequeno guia do que deve ser uma biblioteca, e Como se faz uma tese em Ciências Humanas (Presença, 1980; há 16 edições!), que me foi útil quando escrevi uma tese doutoral, embora não em Ciências Humanas. Martini não fica muito atrás: contei 43 títulos em português, a maioria deles nas edições Paulinas. Destaco o seu último livro: Colóquios Nocturnos em Jerusalém: sobre o risco de acreditar (Gráfica de Coimbra 2, 2008).

Volto à questão da ética. Escreve Martini “Estou convencido de que existem numerosas pessoas que agem com rectidão, pelo menos em certas circunstâncias, sem referência a um fundamento religioso da vida. Porém não consigo compreender qual a justificação última que dão aos seus actos.” Responde Eco, numa posição com a qual simpatizo: “Creio poder revelar as bases sobre as quais assenta hoje a minha «religiosidade» laica, porque estou firmemente convencido de que há formas de religiosidade e, portanto, um sentido do sagrado, do limite, de inquietação e de esperança, de comunhão com alguma coisa que nos ultrapassa, mesmo sem fé numa divindade pessoal e providencial.”

Eco conta duas histórias em abono da sua posição. Uma sobre um amigo que lhe disse que o papa João XXIII “devia ser ateu”, explicando: “Só quem não acredita em Deus pode amar tanto os seus semelhantes!» Eco desenvolve a razão que leva um ateu (ou melhor, um agnóstico, era assim que ele se considerava) a sentir-se tão ligado à humanidade: “Parece-me evidente que a única coisa que pode dar sentido à vida e à morte, ou que pode confortar uma pessoa que nunca teve a experiência do transcendente ou a perdeu, é o amor aos outros, o desejo de garantir aos seus semelhantes uma vida visível mesmo depois do seu próprio desaparecimento. Naturalmente que há também pessoas que não têm fé e que por isso mesmo se não preocupam com o sentido da sua própria morte, da mesma forma que há outras que se afirmam crentes e seriam capazes de arrancar o coração a uma criança viva, se com isso pudessem evitar a sua própria morte.“

A outra história é sobre uma conversa que teve, aos 16 anos quando era “católico militante”, com um comunista, bastante mais velho: “Quando começou a provocar-me, respondi-lhe com uma pergunta de certa forma arrojada: como pode você, não sendo crente, dar sentido a essa coisa absurda que será a sua própria morte? Ele respondeu me: ‘Pedindo antes de morrer um funeral civil. Assim, embora eu já não exista, deixarei um exemplo aos outros.’ “Eco dirige-se a Martini: “Penso que nem no seu caso deixará de admirar a profunda fé na continuidade da vida, e o sentido absoluto do dever, que animava aquela resposta.”

Eco prossegue em abono da sua posição: “O não crente pensa que ninguém o observa lá do alto e, portanto, sabe também — precisamente por isso — que não há ninguém que possa perdoar-lhe. Se tem consciência de ter feito o mal, a sua solidão não terá limites e a sua morte será desesperada. Tentará antes, ainda mais do que o crente, a purificação da confissão pública e pedirá perdão aos outros. Ele sente-o no mais íntimo do seu coração e por isso sabe que deverá perdoar aos outros por antecipação. De outra forma, como podia explicar-se que o remorso seja um sentimento tão sentido pelos não crentes?”

Mas deixo, como o livro deixa, a conclusão para o cardeal Martini: “Um acto bom, realizado porque é bom, veicula uma afirmação de transcendência. ‘Se Deus não existe, tudo é permitido’, já o tinha observado Dostoievski.”
Crer ou não crer, eis a questão.

 

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