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Jaime Marta Soares. "Hoje, a nossa floresta está na mesma ou pior do que estava em 2017"

Jaime Marta Soares. "Hoje, a nossa floresta está na mesma ou pior do que estava em 2017"

Bruno Gonçalves Sónia Peres Pinto 17/07/2020 08:54

O presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses vai mais longe e diz mesmo que o que falha hoje no combate aos incêndios já falhava há 50 anos.

Jaime Marta Soares recusa-se a recandidatar-se à Liga dos Bombeiros e confessa que “a gente tem de saber entrar e de saber sair”. Como bombeiro, só quer levar a sua missão até ao último dia do seu mandato. Afasta ser trampolim de qualquer candidatura e não hesita em afirmar que há uma estratégia delineada por alguns partidos políticos para tomarem de assalto o poder na Liga. 

 

Chega o calor e chegam os incêndios, um episódio que se repete todos os anos. O que falha para continuarmos a assistir a este cenário?
O que falha hoje é o que já falhava há 50 anos e, nessa altura, havia a vantagem de haver uma forte fixação das populações nas zonas de pinhal, do interior, da floresta, onde as pessoas tinham os seus rebanhos de gado, limpavam os matos para a cama dos animais, como não havia gás tiravam lenha para aquecerem a casa, para cozinharem, e onde havia muita agricultura. Desde essa época até hoje houve uma diminuição brutal da zona agrícola para a floresta, que está a crescer selvaticamente, sem planeamento e sem ordenamento. De tal forma que todas aquelas zonas que eram cultivadas permitiam que os bombeiros ou se resguardassem da força brutal do incêndio – porque eram zonas de cultivo e zonas húmidas – ou, a partir dali, fizessem um planeamento através dos contrafogos. Ou seja, era possível fazer um conjunto de coisas que salvaguardavam os pertences mas, principalmente, as vidas das populações. Uns anos depois, já muito muito mais tarde, começaram a fazer-se algumas coisas, principalmente depois do terrível incêndio de Pedrógão Grande, porque alertou as consciências para a necessidade da prevenção. Mas essa prevenção não é estrutural como seria necessário, são paliativos. É o caso da limpeza à volta das povoações, das zonas industriais, das estradas, caminhos, autoestradas – situações que podem, em alguns casos, ajudar a evitar a morte de muita gente, como naquela estrada da morte de Pedrógão. Se as bermas estivessem limpas em dez, 15 ou 20 metros para cada lado, com certeza que aquele efeito de chaminé não teria acontecido e não tinha morrido tanta gente. Claro que estes paliativos são importantes, mas são uma gota de água no oceano. A floresta portuguesa tem de ter um planeamento e um ordenamento.


O que não acontece agora...
Não, mas isso exige atitudes de pessoas que tenham sentido de responsabilidade política e que não tenham medo, por exemplo, de fazer o emparcelamento. Em 1370 fez-se a Lei das Sesmarias, emparcelaram-se terrenos por causa da agricultura, da floresta, e as pessoas entenderam. E entenderam porquê? Porque, mesmo nessa altura, em que o grau cultural era muito mais baixo nas populações, entendia-se que o coletivo se sobreponha ao individual. Essa foi uma questão de entendimento que as pessoas tiveram na época para poderem viver melhor, pois juntavam os terrenos para, a partir daí, poderem fazer agricultura muito mais desenvolvida e potenciá-la. É a mesma coisa que precisa de se fazer na floresta portuguesa: torná-la um espaço de lazer e de qualidade do meio ambiente, mas também uma forte produção de riqueza. Se isso vier a acontecer, há a possibilidade de criar grandes empresas na zona florestal. Quando houve a diminuição de aproveitamento da floresta, o êxodo das populações do interior para o litoral e o envelhecimento das populações, o que se deveria ter feito? Criar empresas de desenvolvimento florestal e instalá-las nos sítios de onde saíram essas pessoas. Isso não se fez e a maior parte da floresta pertence a mais de 600 mil proprietários florestais privados; do Estado, só são 3 ou 4%. E o Estado é um mau exemplo do tratamento da floresta.


É um mau exemplo porquê?
Porque essa prevenção estrutural já devia ter começado há muitos anos. Tenho 77 anos de idade, 60 e muitos de bombeiro, 40 de presidente de câmara, vários na Associação dos Municípios e outros tantos na Liga dos Bombeiros Portugueses, e há muitos anos que deixei este apelo à necessidade de prevenção estrutural na floresta. Há 50 anos dizia que tinha de se começar a fazer o cadastro para saber de quem é a floresta, e hoje, 50 anos depois, o cadastro ainda não está feito. Não se pode fazer um cadastro sem saber a quem pertence a floresta. Ou então fazer uma lei, e quando falo de emparcelamento não falo de expropriação dos terrenos nem de os retirar às pessoas, mas para que possam funcionar em agrupamentos. Outra coisa que têm deixado morrer são as zonas de intervenção florestal, o associativismo florestal. Outra questão são as espécies resistentes ao fogo, que podem ser rentáveis em termos de criação de riqueza e também resistentes ao próprio fogo. É preciso fazer um mosaico florestal. Isso não existe, não se fez e continua a não se fazer. Hoje, a nossa floresta está na mesma – ou pior – do que estava em 2017.


É uma bomba-relógio? 
É isso. Está pior do que estava em 2017, mas são situações que estão estudadas. Sabe-se a terapêutica, fez-se o diagnóstico, agora tem se fazer um tratamento com antibióticos de boa qualidade, e não com aspirinas baratas das que se compram nas lojas dos 300, com todo o respeito pelas lojas dos 300. São situações que têm de ser encaradas à dimensão daquilo que é a floresta portuguesa. É um problema cultural do povo português? É. Mas a cultura vai evoluindo. Na nossa Constituição há dois valores fundamentais: o direito ao associativismo e o direito de propriedade privada, mas, vivendo em democracia, escolhendo como escolhemos os órgãos de soberania para olhar para este país, então o Estado tem de assumir a sua responsabilidade e tem de assumir essa responsabilidade através daqueles que elegemos. Mas tem de fazer essa gestão sob os interesses do coletivo e não sob os interesses de grupos que querem manter-se sempre no equilíbrio de uma balança para poderem estar na Assembleia da República, no Governo, nas autarquias, vendendo, muitas vezes, a alma ao diabo para manterem os seus benefícios pessoais. Costuma dizer-se que quem não tem cão caça com gato; então que se ensine o gato a caçar. Se formos ver a legislação, temos uma das mais avançadas da Europa e do mundo, mas depois não se põe a funcionar. Se for às bibliotecas da Assembleia da República, vê para lá o livro branco, o azul, o verde, o vermelho, todos os livros e mais alguns, mas, depois, nada funciona. Em Portugal temos técnicos fabulosos, vi-os a discutir com técnicos do Chile, da Alemanha e de outros países da Europa e do mundo, e posso garantir-lhe que os nossos técnicos da floresta portuguesa e os nossos engenheiros florestais são pessoas com grande conhecimento, mas a viciação do sistema não nos deixa sair desta situação. Depois criam-se as comissões técnicas independentes, as agências, os laboratórios, e se começarmos a olhar bem para as verbas que são canalizadas vemos quem é que se instala melhor, para ganhar melhor e para estar mais bem na vida. E, com isso, a floresta continua na mesma, os bombeiros continuam a morrer, o património florestal continua a ficar delapidado, e há coisas tão simples de fazer para mudar isso.

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