28/10/20
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 06/05/2020
Eduardo Oliveira E Silva

opiniao@newsplex.pt

Esta União Europeia não gera estadistas

Só Merkel deu até hoje provas de ter a capacidade política e a influência internacional para definir uma estratégia de reconstrução da Europa depois da pandemia.

1. No pós-guerra, figuras como Jean Monet, Henri Spaak, Konrad Adenauer e Robert Schuman souberam perceber, com a cobertura política superior de líderes dos aliados vitoriosos sobre a Alemanha, que a Europa ocidental precisava de um modelo que permitisse a paz, a democracia e o desenvolvimento, na sequência do Plano Marshall.

E assim criaram por etapas aquilo que é hoje a União Europeia, com 27 membros, depois da saída do Reino Unido. Foram esses políticos notáveis que inspiraram sucessores que permitiram, por exemplo, o alargamento da CEE à Grécia, a Espanha e a um Portugal saído de uma ditadura colonial e de derivas populistas da esquerda radical.

Mais tarde, a Europa comunitária, com a decisão rápida de Kohl, a concordância de Mitterrand e o papel ativo de Delors, elevou-se a um patamar ainda mais alto ao aceitar a reunificação da Alemanha, apesar das resistências e dos perigos de hegemonia de Berlim que isso poderia criar, como criou. Seguiu-se a conquista do Leste, já com menos sucesso, e a dos Estados bálticos, onde as coisas correm bem.

Foi ainda radiante e cheia de esperança que a agora União Europeia criou o euro e avançou até este século, caminhando bem até 2008, quando se deu o colapso financeiro. Desde então, sumiram-se as lideranças transnacionais relevantes. Só emergiu como referência política capaz de a liderar e congregar a figura de Angela Merkel. Oriunda do lado pobre e comunista, Merkel impôs-se no meio conservador, ganhou galões, assumiu o poder, fez crescer a Alemanha, implantou rigor nas contas de todos. Quando se pensava que poderia deslizar para uma direita mais radical, foi, surpreendentemente, ela que abriu a ida humanitária de refugiados para o seu país. Deu ali uma lição à esquerda, que se fechava quando governava e proclamava utopias na oposição. Na atual crise pandémica e num país de 80 milhões e muitos emigrantes, foi Merkel quem, até agora, melhor estratégia montou. Tomou as iniciativas mais duras e enérgicas. Libertou todos os meios de apoio possíveis e pô-los no terreno, numa operação-relâmpago. E, agora, já está na fase de retoma ativa. Notável, sobretudo se se comparar com os apoios de cá, que não passam, em regra, de anúncios.

Há 14 anos no poder, a chanceler alemã tem sido a única figura europeia capaz de ombrear com os pais fundadores e outros líderes marcantes. A sua popularidade na Alemanha está novamente nos píncaros. Pode-se não gostar da Alemanha e não lhe perdoar o passado sombrio, mas há que reconhecer que é de lá que tem de vir a solução para curar as marcas violentas da pandemia que vivemos. E só uma visão e uma autoridade como a de Merkel pode criar um denominador comum para ultrapassarmos a maior crise global desde a ii Guerra Mundial. É realmente uma pena se ela mantiver a firme disposição de abandonar o poder. Há muitas reuniões, discussões e ideias, mas não sai um caminho consensual. Os políticos nacionais estão confinados nos seus pequenos interesses, nos seus egoísmos e na sua incapacidade de se unirem. A União Europeia pode recuperar algum tempo perdido e alguma solidariedade, mas os danos políticos na coesão estão feitos e são profundos. Os políticos destes tempos não estiveram à altura, do ponto de vista coletivo.

2. A Segurança Social desabou. É a herança de Vieira da Silva, que durante anos pontificou no setor, deixando um rasto de destruição que também atingiu o grupo Montepio, que ele tutelou politicamente. Da ministra sucessora, Ana Mendes Godinho, não se esperava nada de especial, mas nem sequer soube perceber que a máquina ia falhar, como neste espaço se disse sempre. Foi um fiasco praticamente total nas medidas de emergência – para não falar no que se passa com os processos correntes, que levam meses e até anos a despachar, como no caso das reformas de cidadãos que descontaram uma vida inteira, ficando às vezes sem sustento e à espera de dinheiro que é deles. Afinal, o que se passa também nesses casos, que certamente vão arrastar-se ainda mais? Quem explica? Quem responde? Quem investiga? A covid vai servir para esconder muita coisa. Como se dizia nalgumas mensagens de WhatsApp, não podemos esquecer-nos que este Governo é o mesmo que estava em funções na altura dos grandes incêndios. E foi o que se viu no combate e na quantidade de casos estranhos e trapalhices que se seguiram.

3. Uma máscara cirúrgica custa, no mínimo, 60 cêntimos, mas pode ir facilmente até 2 euros. As supostamente sociais, até bem mais do que isso. No metro vendem-se umas a 1,5 euros, para alegria e vaidade do ministro do Ambiente. Uma roubalheira. Vêm da China, claro. É um peso enorme sobre os mais pobres. Hoje é mais caro comprar máscaras do que títulos de transporte. Em Espanha e em muitos países, são dadas de borla. Cá, também deviam ser oferecidas, exatamente como as seringas aos toxicodependentes – medida, aliás, correta em termos de saúde pública.

4. Nos discursos inflamados destes dias, cheios de lugares-comuns alusivos ao 25 de Abril, ao 1.o de Maio e à guerra pandémica, houve palavras para todas as classes insubstituíveis, normalmente desprezadas e mal pagas, da logística do quotidiano e da saúde. Houve torrentes de frases para os mais velhos, que passaram a ser objeto de atenções oratórias quando, normalmente, são esquecidos, arrumados ou obrigados a estar ativos até idades impróprias. Mas houve poucas palavras para homenagear as crianças. Mas elas são os mais sacrificados desta época surrealista. Pensa-se nos pais, nas mães, nos professores, mas menos nos pequenitos deste Portugal. De um dia para o outro tiveram de reaprender tudo sem perceberem. Deixaram as escolas. Deixaram de ver os amigos. Perderam referências. Ficaram enclausuradas em permanência com pais, muitas vezes, em tensão familiar ou sem emprego. Em não poucos casos, perderam o carinho direto e o toque dos avós, que hoje são tantas vezes o símbolo máximo do afeto, a referência de vida, além de cuidadores ativos. Na sua fragilidade, na sua ingenuidade e inocência, se alguém não tem culpa de nada neste absurdo que vivemos são as crianças. Já nós, os adultos, não podemos isentar-nos de responsabilidades pelos problemas que criámos e não sabemos resolver. Este mundo não “pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança”. Bem pelo contrário.

Escreve à quarta-feira

 

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