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Um guia para a obra de um sonhador italiano

Um guia para a obra de um sonhador italiano

Hugo Geada 21/01/2020 19:08

Com o circo em pano de fundo, uma elite que cresceu sobre as ruínas de uma Itália destroçada pela II Guerra Mundial e fantasias que invadem o mundo real – é este o cinema de Federico Fellini. No centenário do nascimento do realizador revisitamos algumas das suas obras mais icónicas, como 8 ½ ou A Doce Vida, que ajudaram a criar o termo “felliniano”.

Mulheres e Luzez (1951)

Depois de trabalhar como jornalista, cartoonista e argumentista de Roberto Rosselini, um dos mais importantes nomes do neorrealismo italiano, estando inclusive nos créditos de uma das suas obras-primas, Roma, Cidade Aberta (1945), foi em Mulheres e Luzes que Federico Fellini se sentou na cadeira de realização (posição partilhada com Alberto Lattuada) pela primeira vez. O filme, que estreou oito dias antes de completar 31 anos, utilizava como pano de fundo uma das suas grandes obsessões: o circo. A protagonista é a jovem e ambiciosa Liliana (Carla Del Poggio), que aspira a ser uma estrela.

Os Inúteis (1953)

Um filme sobre cinco jovens que vivem na pequena cidade italiana, mas que é muito mais que isso. Uma obra (bem-humorada) coming of age inspirada na vida pessoal do realizador, considerada pelo crítico de cinema da The New Yorker, Anthony Lane, como a melhor porta de entrada para o trabalho do italiano. “De alguma forma, o jovem Fellini impacta-me por parecer mais triste e sábio do que o todo-poderoso mago que acabaria por se tornar”.

A Estrada (1954)

O primeiro filme do cineasta a vencer um Óscar (Melhor Filme Estrangeiro) é também o primeiro da trilogia da Solidão, que conta com O Conto do Vigário e As Noites de Cabíria. Mais uma vez, com o circo a servir de cenário, o filme segue Gelsomina (Giulietta Masina, esposa de Fellini), uma jovem comprada por Zampanò (Anthony Quinn), um brutamontes do circo. O British Film Institute aponta este como o primeiro filme a ver de Fellini, pela forma como apresenta muitos dos maneirismos que o caraterizaram ao longo da carreira.

O Conto do vigário (1955)

O segundo filme da trilogia, talvez por estar ensanduichado entre dois clássicos do cinema, é por vezes menos reconhecido e, por isso, o blog de referência Taste of Cinema  o aponte como uma das obras mais subvalorizadas da cinematografia do realizador. Um filme sobre três vigaristas onde, apesar de continuar a explorar temas neorrealistas, o realismo poético e as vivências extravagantes substituem uma posição de crítica política direta.

As noites de Cabíria (1957)

Cabíria (mais uma vez interpretada pela musa, Giulietta Masina), é uma prostituta cortesã ingénua que sonha com o verdadeiro amor, mas sofre constantes desilusões. Um exemplo perfeito de como ao focar-se numa personagem marginalizada e no contexto social onde vive, em vez de numa trama específica, o realizador conseguia contar grandes histórias e analisar o contexto da época. Este foi o segundo filme de Fellini a vencer um Óscar.

A Doce Vida (1960)

Protagonizado pelo eterno playboy italiano, Marcello Mastroianni, esta que seria a primeira de diversas icónicas colaborações, no papel de um paparazzo que guia os espectadores através da “doce vida” italiana. Dividido em sete episódios não lineares, cujo ponto de ligação é o protagonista, Fellini criou aquilo que o critíco de cinema Robert Richardson designa como “estética da disparidade”, ao mostrar uma Roma repleta de novos ricos a conviver com os destroços da guerra.

8 1/2 (1963)

Discutivelmente o filme mais conhecido do realizador, e aquele onde o termo “felliniano” alcançou o seu auge. Mais uma vez com Mastroianni, no papel de Guido Anselmi, um realizador de cinema que se encontra com um bloqueio criativo enquanto tenta concluir um épico de ficção científica. O filme mistura a realidade com a imaginação perdendo-se assim a noção daquilo que está efetivamente a acontecer. Este conceito foi usado por realizadores como Woody Allen, Lynch ou Almodóvar.

Os Palhaços (1970)

Em nenhum outro filme a já referida obsessão do realizador com o universo do circo é tão óbvia como em Os Palhaços, considerado um dos primeiros mockumentaries, documentários que misturam a realidade com a ficção. Apesar de feito para a televisão, Philip French, crítico, recorda que este filme está “longe de ser um trabalho secundário improvisado de um maestro, é um dos filmes mais complexos, alusivos e ilusórios de Fellini”.

Amarcord (1973)

Apesar de Fellini ter sempre negado que o filme fosse uma autobiografia, o próprio reconhecia que existiam semelhanças com a sua própria infância em Rimini. Através dos olhos do personagem Titta (Bruno Zanin) revisitamos a vida familiar do realizador assim como a religião, a educação e a política nos anos 1930, durante o consulado de Mussolini. Além do Óscar de Melhor filme estrangeiro, foi considerado pelo New York Times um dos 1000 melhores filmes de sempre.

A Voz da Lua (1990)

O último filme do realizador, lançado três anos antes da sua morte, foi também um dos mais atacados. Usufruindo (em demasia, segundo os críticos) de uma liberdade típica do cinema europeu, foi o único filme do realizador a não ter distribuição nas salas americanas. Protagonizado por Roberto Benigni e Paolo Villaggio - e descrito pelo site Flickering Myth como uma “experiência de ficar boquiaberto” - conta a história de dois homens que encontram uma distopia ao lado da sua terra natal.
 

 

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