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31 de Dezembro de 1953. O estranho caso das espanholas abandonadas

31 de Dezembro de 1953. O estranho caso das espanholas abandonadas

Afonso de Melo 31/12/2019 17:30

O director do Ballet Gallardo deu às de Vila Diogo e deixou três bailarinas em Lisboa sem um tostão no bolso.

Rosa Garcia Fernandez, Maria Paz Fernandez, Mercedes Moreno e Encarnacion Castella estavam, como costuma dizer o povo de Ois daRibeira a Santa Bárbara de Nexe, muitíssimo encalacradas. Tinham actuado no Avenida e no Cristal como bailarinas do grupo de ballet Gallardo e, de um dia para o outro, o director da companhia pôs-se ao fresco e deixou-as ao abandono sem um tostão no bolso. Todas juntas num quarto de uma pensão na Rua Eugénio dos Santos, nº 23, suspiravam pelos 25 contos que o aldrabão, de nome Francisco Gallardo Vivero, lhes ficara a dever. Além disso, levara consigo, sem que as moçoilas dessem por tal, todo o guarda-roupa e material de cenários, e deixara o calote na pensão cuja dona tinha um coração de manteiga e se dedicara a protegê-las. Logo se veria até quando...

Rosa, Maria, Mercedes e Encarnacion tornaram-se, rapidamente, motivo de interesse para a vizinhança e para a imprensa. As suas lamúrias não tardaram a ser publicadas em colunas de jornais e a sua preocupação, legítima, pois claro, passou a ser quase colectiva. “Como é que vamos regressar a Espanha”, perguntava Mercedes, “se não temos dinheiro para o transporte nem para pagar a estadia que devemos?”.

Entretanto verificara-se que o canalha Gallardo Vivero cobrara as actuações do seu grupo de bailarinas até ao tutano, pondo-se na alheta com uma verba bem razoável. Era de requintado pulha, sim senhores! E, pelo meio, que se quilhassem as empregadas do pomposo Ballet Gallardo que não passava de uma fachada para as suas malfeitorias. “Queria mandar algum dinheiro para a minha família, por conta desta época de Natal, e não pude”, lamentava-se Encarnacion. E arrepelava os cabelos: “Temos sido maravilhosamente tratadas pela senhora que é dona da pensão, que até nos dá de comer. Mas não podemos sobrecarregá-la por muito mais tempo. Não é justo nem faz sentido”.

A Polícia Judiciária pôs-se em campo. Tratou de ir na peugada do velhacoGallardo mas, quando o fez, já este estava em Tânger. O chefe Graça e o agente Abraão, responsáveis pelo caso, avançaram com um pedido de extradição. A coisa era morosa, no entanto. As espanholas, por seu lado, foram conduzidas ao Consulado de Espanha para apresentarem uma solicitação de repatriamento. Restava-lhes esperar com a maior paciência a que pudessem recorrer. Ao mesmo tempo solicitaram, através da comunicação social, toda a ajuda possível por parte da comunidade espanhola em Lisboa.

Gallardo, o calhorda, ia sendo detectado aqui e ali. Surgiu por dois dias em Vila Real de Santo António, alguém o delatou, mas a Judiciária chegou tarde. O chefe Graça levou nas orelhas dos seus superiores, ficou furibundo, descarregou no agente Abraão e decidiu fincar os dentes no salafrário e não o largar enquanto não pagasse o que devia. Debalde. Francisco sumiu-se como se fosse feito de algodão doce.

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