11/12/19
 
 
António Galamba 02/12/2019
António Galamba

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Centeno e a vertigem do cuco no ninho do património do PS

Não faz sentido permitir-se que se instale a perceção pública de que há um superavit orçamental e simultaneamente colossais cativações e serviços públicos à míngua.

O cuco é um animal singular que ocupa os ninhos alheios para ter as suas crias e depois despeja friamente os anteriores residentes borda fora. É animal, mas tem mais de humano do que possa parecer, sendo persistente nas sociedades ditas modernas.

O património político de um partido como o Partido Socialista não deveria ser capturável por nenhuma circunstância contrária aos seus valores, ao seu acervo de princípios e à memória de quem lutou democraticamente, por ele e pelo país. Infelizmente, existem hoje sinais preocupantes, silêncios ensurdecedores e derivas de quem não tem nenhuma convergência com a memória, preferindo convergir para as agendas pessoais, de circunstância ou tacticistas.

O exercício acabará por ser insustentável, porque é inconsistente, incoerente e sem sentido de equilíbrio.

Não faz sentido, depois de quatro anos em que o consumo foi uma das pedras de toque da dinamização da economia nacional, ter um ministro do Ambiente a verberar contra a black Friday e contra os comerciantes, sem que tenham sido feitos esforços pedagógicos para a poupança ou para uma literacia económica e financeira dos cidadãos. Aliás, depois de toda a sustentada pouca vergonha no sistema bancário, apesar de algumas efervescências de alerta do Banco de Portugal, permite-se que os bancos reincidam no apelo ao crédito para consumo.

Não faz sentido, permitir-se que se instale a perceção pública de que há um superavit orçamental e simultaneamente colossais cativações de verbas do orçamento, funções do Estado e serviços públicos à míngua e um país que não funciona, não tem sustentabilidade nas respostas essenciais e não assegura previsibilidade às pessoas.

Não faz sentido, haver disputas públicas de verbas entre membros do mesmo Governo para aliviar a pressão ou a tensão com serviços e setores da sociedade portuguesa, como se não houvesse uma liderança, uma solidariedade governativa e uma responsabilidade coletiva. É desagregante um membro do Governo ter de colocar uma notícia na imprensa para ter as verbas de que precisa desbloqueadas pelas Finanças ou encenarem-se episódios para que as verbas sejam previstas ou descativadas, sempre pelas Finanças.

Por muito virtuosismo que possa existir no exercício, não há, não pode haver nenhum cuco das Finanças, que instalado no ninho do acervo patrimonial do PS de mais de 46 anos de vida se coloque num patamar de posição dominante no ninho em que, por ação ou por inação, afeta parte das marcas positivas do exercício político, seja no Serviço Nacional de Saúde, na Escola Pública ou nos principais pilares das funções do Estado. Um Estado assim, acaba por ser um Estado fraco, permissivo com os interesses particulares, à mercê dos populismos e gerador de insatisfação popular. A coisa resulta enquanto o exercício for dominante e os escrutínios forem inconsequentes, mas é manifestamente abusar da sorte.

O estatelar da inconsistência do Livre e os sucessivos aproveitamentos do Chega deveriam ser exemplos pedagógicos para os que, com derivas diversas de divergência com o património histórico e político do PS, insistem em exercícios sem equilíbrio, sem memória e sem sentido de sustentabilidade como ocorreu a propósito do 25 de novembro, em registo de agrado à esquerda, felizmente não seguindo por sete deputados do PS.

A circunstância, qualquer que ela seja, não pode ser o ensejo para reescrever a história, por maior que possa ser o embeiçamento com as companhias já comprovadas serem insuficientes para se fazer o que precisa de ser feito, sem fundamentalismos e com sentido de futuro.

Cucos sempre existiram, o drama é não existirem pássaros ou passarões, leiam-se designadas referências, que se indignem perante o exercício de ocupação do ninho e de projeção borda-fora do património histórico do PS. Por maiores que sejam as conveniências do momento ou do poder tamanha captura é indigna por ser a negação de uma certa dimensão de valores e princípios.

O olhar de quem sobrevoa, paira perante as realidades e contacta com elas em Lisboa e no resto do país permite concluir que uma certa ausência de comando, os cucos, os sinais e as derivas têm tudo para acabar mal. Ou alguém acha que quando existem regras e se permite que um partido à margem das regras e dos prazos discuta um diploma no parlamento, não estamos a sinalizar à sociedade que, em função dos poderes e dos interlocutores, tudo é contornável, até as disposições organizativas da vida em comunidade.

Sem memória dizem que não haverá grande futuro. Há quem insista na inconsistência entre o discurso e a realidade, entre a previsão e a execução, entre a circunstância e a perenidade, algum dia não corre bem. Infelizmente, pelas insistências e adesões, é uma questão de tempo.

NOTAS FINAIS

REALIDADES. O Estado, do alegado equilíbrio orçamental e do Simplex, não pode persistir num registo de inconsistência e imprevisibilidade, em que não assegura estabilidade a ninguém em relação ao passado e , por via de constantes alterações de procedimentos, mantém um padrão em relação ao presente. Interpelar cidadãos sobre questões dois, quatro ou cinco anos é, no mínimo, um atestado de incompetência ao desempenho de funções, inaceitável na era digital. Atirar barro à parede dos cidadãos tem de deixar de ser registo.

SINAIS. A narrativa do êxito orçamental é um dos maiores riscos à governação. É, no atual mandato agora iniciado, o equivalente à perceção induzida em 2015 e afins, por vida das reversões e das reposições, de que havia dinheiro para tudo e para todos. Desta vez, se não houver dinheiro no bolso, a frustração pode ser maior. Se há dinheiro, porque não é alocado aos serviços públicos ou distribuído pelas pessoas e os territórios?

PERCEÇÕES. Além das questões simbólicas, há uma certa ideia de regresso a uma falta de atenção consequente dos poderes centrais com os territórios do Interior. As verbas que não são descativadas, os investimentos que deslizam no tempo e as iniciativas concretas que não superam as burocracias. Para a política da simpatia entronizada pela Presidência da República é normal que entidades legitimadas democraticamente a exigir que a par da simpatia exista chá, não convém. É por isso que faz sentido um poder regional, com legitimidade para decidir com uma visão supramunicipal, acima das quintinhas, e com voz reforçada junto de quem decide em Lisboa.

 

Escreve à segunda-feira

 

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