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José Rodrigues dos Santos. “A humanidade tal como a conhecemos vai extinguir-se muito em breve”

José Rodrigues dos Santos. “A humanidade tal como a conhecemos vai extinguir-se muito em breve”

Miguel Silva José Cabrita Saraiva 17/11/2019 11:17

O seu novo romance aborda a imortalidade e como já há projetos para a atingir. “Muitos pensam que é uma grande ficção, mas está a acontecer agora”.

Encontramo-nos no Centro Champalimaud para o Desconhecido, um dos cenários do seu mais recente romance. Imortal (ed. Gradiva)fala de avanços tecnológicos na medicina que permitirão prolongar a vida e talvez vencer a morte. “Vários cientistas acham que já nasceu a primeira pessoa que nunca morrerá”, diz-nos José Rodrigues dos Santos. O popular apresentador do Telejornal orgulha-se de o seu romance não ter um único erro científico. Mas não tem problemas em confessar-se “um burro em tecnologia”. Em conversa com o i, explica o que o levou a começar a escrever, o que tem aprendido como romancista e como se defendeu das tentativas de pressão do poder político.

O seu livro fala de inteligência artificial, de algoritmos, de avanços na medicina, de modificações genéticas, etc. Tem uma grande fé na ciência?

Sim. Considero que a ciência é a forma como nós dialogamos com a ciência. Através das experiências fazemos perguntas à natureza e a natureza, através dos resultados das experiências, dá-nos respostas. A ciência é sobretudo um método para compreender como as coisas funcionam. Antigamente o método das pessoas era lerem textos religiosos, achavam que lá estava toda a verdade, e hoje em dia é questionar a natureza através das experiências.
 

E é igualmente otimista em relação ao progresso?

Vamos pôr a coisa assim: o homem de Cro-Magnon tinha uma esperança média de vida de 18 anos. Hoje os seres humanos têm uma esperança de 80, 90 anos. Se entender por otimismo achar que as pessoas, graças ao conhecimento, vivem mais tempo e vivem melhor, diria que sim. Quando eu era miúdo o grande problema da humanidade era a fome. Hoje em dia o grande problema é a obesidade. Já viu há quanto tempo não há uma grande fome em África como havia antigamente? Não quer dizer que não existam problemas, mas não têm a mesma dimensão. E isso deve-se à ciência. Os transgénicos, por exemplo, que as pessoas contestavam, permitem cultivar cereais no deserto. Estão a ser encontradas soluções através da ciência. Não é a rezar. [risos]
 

Ontem estive a ler um livro que fez grande sucesso nos EUA, A Terra Inabitável, do David Wallace-Wells. Ele traça um cenário apocalíptico num futuro próximo: cheias, fomes, secas, incêndios...
 

É interessante que ele tenha escrito esse livro agora, porque eu já escrevi esse livro em 2007. Chamava-se O Sétimo Selo. E é justamente sobre as alterações climáticas e as suas consequências. Na altura houve muitas pessoas que diziam ‘não vai ser assim’ e está a acontecer. Mas ao longo da História sempre houve alterações climáticas, e às vezes muito rápidas. Nós sabemos, de ciência certa, que dentro de mil milhões de anos a Terra será inabitável, porque o Sol, à medida que esgota o seu combustível, vai começar a aumentar de dimensão, e os oceanos vão evaporar-se. Isso não é por influência do homem. Este romance procura lidar com essa questão, que é muito mais de fundo do que as alterações climáticas por influência do homem.
 

Entre essas duas posições extremadas – os que preveem um cenário catastrófico e os que acham que a ciência nos vai conduzir quase ao paraíso –, onde se situa? 
 

Procuro no meu romance não fazer juízos de valor. Mostro os vários lados da questão. Por um lado, as inovações tecnológicas permitem-nos viver mais e melhor; por outro lado, as mesmas inovações tecnológicas colocam-nos numa sociedade de vigilância. Não me interessa tanto explorar o que é bom e o que é mau, tento antes mostrar a questão nas suas várias dimensões.

Coloquemos a coisa de outra forma: com qual dos lados mais se identifica?

O livro reflete a convicção de que a humanidade tal como a conhecemos vai extinguir-se muito em breve e aparecer uma nova espécie.

Que espécie é essa?

Uma espécie pós-biológica, que é a inteligência artificial. Ao mesmo tempo, o romance coloca outra questão que é a possibilidade de, através da ciência, vencer a morte. Há um prolongar da vida que se pode tornar eterno: o coração deixa de funcionar, toma lá uma máquina nova; o rim deixa de funcionar, toma lá um rim novo; e depois há a questão de como se faz isso com os neurónios. Por um lado estamos perante a imortalidade, ao ponto de haver vários cientistas que acham que já nasceu a primeira pessoa que nunca morrerá; e por outro lado estamos perante a extinção da humanidade tal como a conhecemos. Parece uma contradição mas o romance explica por que não é.
O seu editor disse-me que uma pessoa das ciências leu o livro e não encontrou nenhum erro.

O livro teve a revisão científica de um dos maiores peritos portugueses na área, que é o professor Arlindo Oliveira [presidente do Instituto Superior Técnico. Depois de o ler, disse-me: ‘Tudo o que está aqui, com exceção do mind uploading, ou já existe ou está na iminência de acontecer’. Muitas pessoas olham para isto e pensam que é uma grande ficção mas não é – está a acontecer agora. 

A começar pela apresentação que descreve no início de seres humanos geneticamente manipulados, não é?

Há quem ache que esta história de viver para sempre é uma grande tanga. O Elon Musk, patrão da Tesla e do Space-X, criou uma empresa para resolver esse problema, que é prolongar a vida eternamente. E a Google tem uma empresa para pesquisa secreta chamada Google X onde está também a trabalhar na mesma coisa. E isso são as que nós sabemos.
 

Claro que isso depois colocaria problemas terríveis, uma vez que se o planeta já está sobrelotado. Se ninguém morresse ainda muito mais sobrelotado ficaria...
 

Daí que alguns filósofos já comecem a falar do fim do humanismo. Aliás há um filósofo israelita que diz que as ideologias humanistas vão ter que ser refundadas, porque de facto estamos perante situações complicadas. Designadamente a questão da manipulação dos embriões. Este romance tem como ponto de partida uma situação que aconteceu faz agora um ano. No dia 26 de novembro de 2018, um cientista chinês, He Jiankui, vai a um simpósio sobre o genoma em Hong Kong e anuncia o nascimento dos primeiros seres humanos geneticamente modificados, que são duas gémeas chinesas. Ele desapareceu, está em paradeiro desconhecido, a China disse que nada tinha a ver com aquela pesquisa. Passado um ano ainda não se sabe nada de nada. Ou melhor, sabemos que os trabalhos desse cientista eram na realidade financiados pelo governo chinês e suspeita-se que a manipulação genética tinha a ver com a inteligência, porque o gene em que ele mexeu, o CCR5, tem uma relação com a inteligência. O romance parte dessa premissa. A partir do momento em que é possível manipular geneticamente embriões você pode chegar ao pé de um médico e dizer: ‘Quero que os meus filhos tenham o dobro da inteligência do ser humano normal’. Fantástico. Mas ao seu lado, o seu vizinho pede para ter o triplo. E a outra pessoa noutro país pede para ter dez vezes mais.
 

Isso é quase o que aconteceu com a corrida ao armamento durante a Guerra Fria – se uma potência tinha uma bomba, a outra produzia cem.
 

Exato. Vamos ter o aparecimento de muitas humanidades. E vamos ter a fusão do ser humano com as máquinas. Antes, se você via mal, metia uns óculos, que é uma tecnologia exterior ao corpo humano. Agora mete uma lente intraocular. Tinha um problema na perna, andava com uma bengala; agora mete uma prótese. O coração deixa de funcionar e mete um pacemaker. Estamos a falar de uma verdadeira revolução no que significa ser humano. E até que ponto podemos dizer que uma máquina que tem 5% de ser humano ainda é um ser humano? Qual é o momento em que deixa de ser um ser humano e passa a ser uma máquina? Estamos perante um mundo totalmente novo, em que o homem tal como o conhecemos está a extinguir-se e, ao mesmo tempo, está a tornar-se imortal.

Uma vez perguntei a um médico se não era possível aumentar indefinidamente a esperança de vida, e ele respondeu-me que estamos apenas a prolongar a velhice. Os 40 anos que vão dos 80 aos 120 não são a mesma coisa que os que vão dos 20 aos 60. No fundo, limitamo-nos a esticar uma fase em que estamos a perder faculdades.
 

Isso é verdade... dentro do paradigma atual. Mas estamos a falar de um paradigma diferente. O Oscar Pistorius não tinha pernas, implantaram-lhe umas pernas artificiais e de repente é um corredor olímpico. Temos a ideia de que a tecnologia jamais pode suplantar a natureza, mas isso é um mito. Antigamente pensava-se que o ser humano nunca seria capaz de voar. E temos os aviões. Os aviões voam de uma maneira diferente das aves. Mas até voam mais rápido e mais longe do que as aves. Dizia-se que ninguém consegue bater a chita na corrida, que faz 110 km/h. Agora temos o automóvel que vai mais depressa, mais longe, durante mais tempo. E eu posso ter um automóvel eternamente, porque vou substituindo as partes. Temos aí calhambeques com mais de cem anos.
 

É a história da nau do Vasco da Gama, que vai substituindo as tábuas e quando chega ao destino já está completamente renovada.
 

Noutro dia no Telejornal dei a notícia de que os israelitas estão a fazer corações sintéticos. O que as leis da física não interditam é possível. É um problema de engenharia. Quando o arquiteto Siza desenhou aquela pala para o Pavilhão de Portugal para a Expo 98, os engenheiros disseram-lhe que não era possível. E ele respondeu: ‘Vou arranjar lá fora e vocês vão ver que é’.
 

Isso espicaçou-os...

De tal modo que arranjaram maneira de resolver o problema. O que não era possível passou a ser. E há outra questão de que o romance fala: o uso da nanotecnologia. Meter nanorobôs. O robô de repente percebe que os ossos estão porosos, então as próprias micropartículas robóticas se juntam em moléculas e curam o corpo sem nós sabermos sequer da existência daquele problema. Vai haver uma substituição permanente das peças. O grande desafio é o que se faz com os neurónios. Até certa altura pensava-se que nascíamos e morríamos com os mesmos neurónios. Afinal já se chegou à conclusão de que ao longo da vida vamos criando novos neurónios. O que mostra que...
 

... é possível.

Diria que do ponto de vista conceptual, neste momento já se percebe como se pode atingir a imortalidade. A Neuralink está a fazer implantes no cérebro – porque o Elon Musk quer ser um dos primeiros a atingir a imortalidade – e em 2019 já pediram autorização para fazerem experiências com seres humanos. Estão a fazer com macacos – abrem o crânio e instalam no cérebro um chip com sistema bluetooth para entrar no computador. Em vez de entrar através do teclado, entra com o pensamento. Imagine o que é a internet estar conectada com o pensamento de toda a humanidade!
No livro há um personagem que mostra grande entusiasmo pelos nanorobôs. E eu estava a ler aquilo e a ficar arrepiado.

No seu caso fica entusiasmado ou com receio?

Se eu lhe disse que você vai pôr um implante intraocular se calhar fica horrorizado. ‘Vão mexer-me no olho?’ . Ninguém é operado ao coração de ânimo leve. O Professor Marcelo de certeza que não queria que lhe andassem a mexer no coração. Mas teve de ser. O Mário Soares tinha uma frase do género: ‘Quando estamos aflitos todos acreditamos em Deus’. Aqui é a mesma coisa. O que nos pode agora assustar estando nós confortavelmente sentados e com saúde é uma coisa, quando estamos com um problema e há solução para ele é outra.

Estava a falar de inteligência e da possibilidade de a expandirmos. Curiosamente, vejo o contrário: quanto mais inteligente é a tecnologia, mais burras as pessoas ficam!
 

A inteligência funciona quase como um músculo: se é exercitada aumenta, se não é exercitada não aumenta. Esse tema é abordado pelo romance. Se as máquinas nos forem substituir em tudo, o que é que vamos fazer? Mesmo que a gente viva de subsídios, vivemos para quê? Para estarmos sentados na esplanada a ver o trânsito a passar? Daí eu dizer que estamos na iminência de assistir à extinção da humanidade tal como a conhecemos.
 

Mas quando se deu a Revolução Industrial também se acreditava que as máquinas fariam o trabalho todo e os homens ficariam a descansar. 
E é verdade que em certas profissões isso aconteceu.

No entanto hoje vemos as pessoas nos países civilizados sempre a correr de um lado para o outro e a trabalhar doze horas por dia!
 

O que aconteceu foi uma transferência da atividade manual para a atividade intelectual. Quando eu era miúdo dizia-se que 60% da população portuguesa estava na agricultura. Hoje quantos estão? 5%? Antigamente as fábricas estavam cheias de gente. Hoje estão todas robotizadas. Na China até há as chamadas fábricas negras, fábricas sem ninguém que trabalham às escuras. Agora a questão é outra: e quando o computador passa a fazer o trabalho intelectual? Esse é que é o desafio.

É um entusiasta da tecnologia?

De todo. Sei mudar lâmpadas, acho que é das poucas coisas que sei fazer. Aprendi a mandar sms quando estava no Haiti. Sabia abri-los mas não sabia mandá-los. E no Haiti, durante e depois do terramoto, não havia telefones, a única maneira de comunicar com o exterior era por sms. Tive que aprender... Só para ver quão burro em tecnologia eu sou. Nem sei meter uma aplicação no computador ou no telemóvel.

No seu livro há um oficial da PSP que às tantas diz: “Os nossos governantes são de facto uns merdosos”. Aproveita os seus livros para dizer coisas que não poderia dizer de outra forma?
 

Não! Se eu tiver aí um oficial das SS a dizer que tem de se começar a matar os judeus, não quer dizer que eu pense assim. Isso resulta do processo de caracterização das personagens, não reflete necessariamente a minha opinião.

Não era bem isso que queria dizer, até porque há personagens com posições opostas...

Que os políticos são a classe profissional mais mal vista pela população é uma evidência. Quando as pessoas dizem ‘Não quero saber nada de política’ não estão a pensar bem, porque tudo é política. Há problemas que não existiriam se houvesse mais sensatez, mais coragem e mais conhecimento da parte dos políticos. Há a ideia de que os políticos ganham muito. Não ganham. Aliás percebemos isso através das suspeitas em relação a José Sócrates. Muitos políticos governam-se de outra maneira. Não podemos nunca achar que os políticos devem ganhar mal. Primeiro para evitar tentações. José Sócrates baixou o seu próprio salário e anunciou que prescindia da pensão e nós ficámos a suspeitar que ele tinha outras fontes. Têm que ser realmente bem pagos. Por um lado para não cair em tentações e por outro para atrair os melhores.
 

Mas o poder tem outros atrativos além da remuneração, e há muitas pessoas que se sentem seduzidas por isso.

Certo, não se pode fazer generalizações. Mas não tenho a menor dúvida de que quem gere muito dinheiro tem de ser muito bem pago. O povo tem um provérbio que é ‘o barato sai caro’. E o caro às vezes sai barato.
 

E acha que há condições para pagar mais aos políticos?

Temos condições para termos governantes de mais fraca qualidade porque os melhores não querem ir para ali? Um país para se desenvolver precisa de ter os melhores nas melhores funções, porque vão puxar por toda a sociedade em conjunto. Veja as empresas. Se o líder é mau vai arrastar toda a empresa para baixo. E um líder bom vai puxar para cima. Um dos elogios ao José Mourinho e ao Jorge Jesus é que é capaz de tirar o melhor que cada jogador tem.
A certa altura, no seu livro, o cientista chinês Yao Bai diz: ‘Aquele que chega de viagem nunca é o mesmo que partiu’. Fazendo o paralelo com o seu trajeto como romancista, sente que hoje não é o mesmo que começou a escrever?
Claro. À medida que escrevemos vamos desenvolvendo a escrita, começamos a perceber mais coisas sobre o nosso trabalho. Hoje tenho preocupações em relação às quais nos primeiros romances não tinha tanta noção. Isso é normal para qualquer profissão. Começamos mais titubeantes e depois vamos dominando, vamos corrigindo algumas coisas.

Os romances mais recentes são melhores?

São mais apurados. Às vezes olho para um romance mais antigo e penso: ‘Se fosse hoje teria escrito aquela cena de outra maneira’, ‘aqueles capítulos já não existiam mas se calhar tinha acrescentado outra coisa’, é normal.

Começou a escrever por sentir falta de alguma coisa? A televisão não o preenchia?

Comecei a escrever por dois motivos. Primeiro, tinha feito a minha tese de doutoramento, publiquei-a, e o presidente da Associação Portuguesa de Escritores, o José Manuel Mendes, leu-a e disse-me: ‘Você é um romancista mas não sabe’. Na altura não acreditei nisto. Mas depois ele pediu-me para escrever um conto para uma revista literária. Eu não tinha vontade nenhuma, mas pus-me a escrever. E de repente tinha 200 páginas. Foi o meu primeiro romance. Ainda hoje ele está à espera do diabo do conto. Aí percebi as potencialidades da ficção. Mas foi quase por acaso que lá cheguei. E isso veio a coincidir com o facto de que abandonei o meu cargo de diretor de Informação da RTP e, de repente, senti um grande vazio na minha vida. A literatura, que estava mesmo ali a bater-me à porta, entrou com toda a força.
 

Passou a ter muito tempo livre?

Quando somos diretores de Informação temos muitos problemas para resolver. Ainda para mais, como deixei de o ser numa situação de choque, de denúncia de corrupção moral, depois houve esse vazio que a literatura preencheu bem. E também descobri uma coisa interessante: através da ficção consigo criar efeitos de verdade mais poderosos do que com o discurso não ficcional. Como jornalistas, para contar algo, temos de dar provas de verdade. Na literatura basta-me mudar o nome do personagem e, a partir daí, descrevo a verdade toda. E permite visualizar. Uma coisa é dar uma notícia do desembarque na Normandia, outra é vermos o Tom Hanks no filme do Steven Spielberg a sair do bote, a cair na água. Isso pode ser feito num romance. Para mim, a literatura só faz sentido enquanto instrumento para contar a verdade. Na profissão de jornalista somos especialistas em generalidades, sabemos um pouco de tudo mas não sabemos muito de nada. Quando faço um romance, tenho de fazer uma pesquisa em profundidade. Obviamente aquilo que aprendo como escritor vai ser usado por mim enquanto jornalista. Não é por acaso que hoje em dia os políticos não gostam de ser entrevistados por mim. De repente já estou muito informado acerca das coisas.
 

Como é que sabe que os políticos não gostam de ser entrevistados por si? 

É óbvio que não gostam, faço perguntas chatas...

Há aquela entrevista célebre com José Sócrates, em que ele começou a ficar irritado com a sua insistência...

A pergunta essencial era esta: como é que ele podia ser contra a austeridade, se ele próprio havia cortado salários e pensões e aumentado impostos? Ele podia dizer algo como “a austeridade é algo a evitar”. Mas não pode dizer “sou contra a austeridade”. Fazia-me confusão que ninguém lhe fizesse essa pergunta. Tinha de ser confrontado com os factos.

Mas há outros políticos que não queiram ser entrevistados por si?

Obviamente as minhas perguntas são incómodas. Tenho um conhecimento dos assuntos – de política e não só – mais ao pormenor, porque tive de os estudar para escrever os meus romances, pois eles são justamente veículos de conhecimento. Aliás, curiosamente, saiu agora numa revista literária em França um ensaio a analisar os meus romances como veículos de conhecimento.

O seu sucesso em França é impressionante. Encontra alguma razão para isso?

A França, ao contrário do mercado anglo-saxónico, tem maior abertura para autores de outros países. Depois, os leitores não me conhecem como jornalista e apresentador de televisão, apenas como romancista. Quando se é jornalista há sempre uma desconfiança.
 

Acha que isso pode jogar contra si?

Em Portugal, sim, a nível de preconceito. Aliás, basta ver alguns comentários: “Ele só vende porque aparece na televisão”. Já o deve ter ouvido...

Isso irrita-o?

Compreendo, é normal. Mas isso em França não acontece. A Fórmula de Deus vendeu meio milhão de exemplares em França, o que é uma coisa desconcertante. Aliás, é um livro de leitura obrigatória nos liceus no Canadá e em França. 
 

Para si é importante que os livros vendam muito?

Qualquer pessoa que escreve gosta de saber que está a ser lida. Quando ouço um escritor dizer “não me interessa que o livro venda”, então porque é que publica? Ele pode escrever e guardar na gaveta. Ele escreve para ser lido – aquilo é apenas uma pose. Um jogador de futebol gosta mais de jogar com o estádio cheio do que com o estádio vazio. Diria mesmo que faz parte de um brio profissional. Se as pessoas não me lerem, se calhar começo a pensar que as coisas que faço não são boas.

Quando tem um livro à venda vai às livrarias ver se ele está a sair bem? Pergunta ao editor?

Sim, o editor informa-me.

Oque sente quando entra numa livraria e vê a sua figura recortada?

A primeira vez que isso aconteceu foi engraçado, mas agora já não ligo. Há uma história curiosa à volta disso. Uma vez a Marina Cruz, a cabeleireira, contou-me que me viu num supermercado e disse: “Olá, Zé, como é que vai?”. E depois apercebeu-se que estava a falar com um boneco.

Uma pergunta indiscreta: ganha mais dinheiro com a televisão ou com os livros?

Ganho mais dinheiro com os livros.

Uma pessoa que conhece o meio da televisão dizia-me que para alguém ser pivô e apresentar todos os dias um noticiário precisava de ter um grande ego. Esse comentário faz sentido?
 

Penso que não. Eu comecei a trabalhar na rádio. Será que toda a gente que trabalha na rádio tem um grande ego? Nunca me apercebi disso. Penso mesmo que não é verdade. Na televisão há pessoas humildes. Admito que as pessoas de fora possam achar isso, mas não existe nenhuma relação. É evidente que a pessoa não pode ser demasiado tímida, está a expor-se e isso requer alguma coragem. Se fazemos um disparate está toda a gente a ver-nos.
 

Imagino que ouça muitos elogios e felicitações. Também ouve coisas desagradáveis?

Em geral as pessoas não fazem isso. Ocasionalmente, pode acontecer dizerem-me “não gosto do seu romance”. Mas geralmente não me interpelam negativamente...
 

Já nas redes sociais é diferente...

Aí sim, mas não ligo. Os partidos possuem departamentos e recorrem a agências que criam perfis falsos e inundam as redes sociais. Aliás, julgo que isso foi feito comigo, com aquela história do Alexandre Quintanilha, quando eu me enganei e referi que o deputado mais velho do Parlamento era uma mulher. Isso foi um escândalo, acusaram-me de ser homofóbico e de outras coisas que não faziam sentido nenhum. Depois acabei por perceber que aquilo era manipulado por partidos para atingir determinados fins. É um mundo que desprezo totalmente, e aconselho os jornalistas a fazerem o mesmo. A política tem um lado que é o que se diz abertamente. E depois tem outro lado que é o das campanhas negras, que todos fazem. Portanto, quando leio coisas nas redes sociais entra por uma orelha e sai pela outra, o que é fácil dado o tamanho das mesmas.
 

[risos] Por na influência dos partidos, tem-se discutido muito o caso da Sandra Felgueiras e de o Sexta às 9 ter sido adiado para depois da campanha. As pessoas na RTP falam disso?
 

Sobre questões internas da RTP não vou falar. Há órgãos próprios para tratar destas questões, como a Direção de Informação ou o Conselho de Redação. É evidente a importância da Sandra Felgueiras e do Sexta às 9, e terminar com o programa é impensável. É uma ideia que não tem pernas para andar e toda a gente tem consciência disso.
 

Quando era diretor de Informação sofria muitas pressões?

Ocupei o cargo por duas vezes, durante um governo PS e outro PSD/CDS, e as coisas eram todas feitas de forma mais subtil. Vou dar um exemplo. Não querem que se fale sobre o cultivo da batata e dizem-nos: “Você acha que é ético falar sobre o cultivo da batata? Há tantas coisas tão mais importantes”. Depois tem duas hipóteses: ou afirma “tem razão”, e finge que a decisão é sua; ou diz “Não. O cultivo da batata é importante”. Essa capacidade de contrariar o político, de lhe dizer “não” nos olhos pode não estar ao alcance de toda a gente. Até porque sabemos que se dissermos “não” muitas vezes não permanecemos muito tempo no cargo. Eu saí duas vezes, e as duas foram saídas complicadas, sobretudo a segunda. Mas aquela função é de compromisso com o público e não com o político, que tem de ser colocado no seu lugar. No meu segundo mandato recebi uma mensagem de alguém que me disse: “Eles – do Governo – sentem que não têm à-vontade para falar contigo”. Eu disse: “Ainda bem, é assim que eu quero e vai continuar a ser assim até ao fim”. Quando fiz a minha tese de doutoramento sobre reportagem de guerra, li vários relatórios, e havia um feito por norte-americanos na II Guerra que dizia que os únicos soldados eficientes eram aqueles que entravam no campo de batalha conscientes de que podiam morrer. Eram os únicos que lutavam, enquanto os que tinham esperança de sobreviver se escondiam. Na altura pensei nisso: “Só posso ser diretor de Informação se acreditar que posso não sair daqui vivo”. E lutei com essa convicção. Das duas vezes não saí de lá vivo, mas das duas vezes cumpri o meu trabalho e a minha missão. Porque aquilo é uma missão, não é uma carreira.
 

Notou diferenças de um Governo para o outro, entre PS e PSD?

Sim. Estive no tempo de António Guterres e Guterres não se metia em nada. Depois, estive no de Durão Barroso, que também não se metia, mas pronto... Também tem a ver com os ministros e aqueles que tutelam, e com as suas personalidades. No caso do PSD eram mais brutos e no PS mais sofisticados... mas o resultado final era o mesmo. Todos eles querem que se fale bem deles e calar o que lhes é desagradável. Eu encarava as coisas como um jogo de futebol. A equipa que fazia a falta dizia que não era falta e a que sofria dizia que era. E eu tinha de ser o árbitro. Sentia que essas queixas aconteciam para pressionar, para ficar com medo, para condicionar e intimidar. Quando me sentia condicionado, ia falar com alguém em cujo juízo editorial confiava, como a Judite de Sousa ou a Marina Ramos, e deixava a decisão nas mãos deles.
 

Como jornalista e apresentador ainda sente essas pressões?

Vou contar-lhe o pretexto que conduziu à minha demissão em 2004. Andaram durante quase dois anos a sugerir-me a nomeação de determinada pessoa para correspondente em Madrid. Obviamente que era uma cunha – e isso para mim, naqueles termos, era corrupção. Eu podia ter dito: “Olha que boa ideia”. E a decisão era legítima. A partir do momento em que a tomasse, ninguém percebia. Mas a pessoa tem de ter coragem. De repente, temos o mundo contra nós. Dizemos: “Vocês querem que seja nomeada esta pessoa, mas não vai ser, porque não são vocês que tomam essa decisão”. Cheguei a receber recados e até podia fazer como me sugeriam, mas fazia ao contrário para perceberem que eu não estava às ordens. Para aquela função é preciso coragem, integridade e uma grande convicção do que estamos a fazer. Se não tivermos espírito de missão, aquela noção de que podemos “morrer”, não vamos exercer bem a função.
 

Mas essa coragem hoje é muito rara. Olhando à sua volta encontra pessoas que a tenham?

Encontrei casos. O Joaquim Furtado fez isso. Ou o Nuno Santos. O Nuno Santos foi despedido por ter coragem. “Morreu”, efetivamente, em combate. Para mim, é uma das grandes vergonhas da RTP. Como é que despedem um diretor só porque a RTP cobriu exemplarmente o caso da licenciatura de Miguel Relvas? Depois inventaram uma desculpa qualquer, mas a razão foi essa. O Nuno Santos sabia que o seu destino podia ser esse. Apenas porque estava a afrontar o ministro que tutelava a RTP – aliás, não estava a afrontar, estava apenas a fazer o seu trabalho.
 

Quando há mudanças de Governo, como em 2015, também se nota uma mudança de ambiente na RTP?

Graças ao ministro Poiares Maduro, a RTP saiu da tutela do Governo. O Governo já não pode nomear ou demitir administradores. Isto faz uma grande diferença.
 

Mesmo assim, quando há mudança de Governo, certas figuras podem passar a ter mais influência por serem amigos de um ministro, por exemplo...
 

Pode acontecer. Mas do ponto de vista do mecanismo, a RTP saiu da tutela do Governo e isto é um avanço civilizacional. Consta que existem projetos para que o Governo voltar a nomear a administração. Isto será o mais perigoso para a nossa democracia. Quando a RTP saiu da tutela do Governo foi o 25 de Abril da RTP e isto quer dizer que há projetos para regressar ao 24 de Abril. É inaceitável. Chegámos ao ponto de o presidente da RTP anunciar que o Governo soube pelos jornais o nome da pessoa nomeada para diretor de Informação, pela primeira vez na história, com o Paulo Dentinho. Quem pode negar que isto é um grande avanço? A RTP é um serviço público, não é um serviço estatal ou governamental. Tem de ser tutelada, como tudo, mas não pelo Governo, que é parte interessada. E dizer que passa para o Parlamento é uma falsa solução, pois quem está no Governo é, normalmente, quem controla o Parlamento. Isso seria fazer a RTP regressar ao 24 de Abril fingindo que não está. Claro que quem o fizer nunca vai dizer: “Isto é para acabar com o excesso de liberdade, nós queremos controlar a RTP”. Vão dizer: “Isto é para a RTP ficar melhor”. Mas o objetivo seria controlar. O poder político procurará sempre tentar fazer isso.
 

Falou em excesso de liberdade. É assim que vê a atual situação?

Quando tive de me demitir em 2004, o ministro da tutela declarou em público que havia excesso de liberdade na RTP. É um grande elogio, devo dizer. A verdade é que semanas depois eu saí. O poder político tem sempre esta tentação, e nós temos de fazer barreira a isso. A nossa liberdade é a coisa mais importante que temos enquanto jornalistas. A liberdade de poder dizer as coisas como elas são.

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