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Leitor de BD. A estrada

Leitor de BD. A estrada

Ricardo António Alves 30/09/2019 17:24

"Esta é uma narrativa de estrada. O espaço é uma rodovia interurbana que liga dois aglomerados populacionais, percorrida por uma viatura em que viajam um casal, Jonas e Maitê, a irmã daquele, Leona, além de uma estranha figura cuja língua ninguém entende. Vêm do funeral do pai dos dois irmãos, figura nacional, militar com altas responsabilidades".

Funerais com longos regressos de automóvel são sempre propícios à trama e à efabulação. Assim é este Entre Cegos e Invisíveis, de André Diniz (Rio de Janeiro, 1975). O autor é um nome de referência dos quadrinhos brasileiros, como desenhador e argumentista, estando atualmente radicado em Portugal, onde tem vários livros publicados. O seu traço pontilhista é pessoalíssimo e facilmente identificável, como é apanágio duma forte personalidade artística. Para quem não está habituado, o melhor será citar livremente o Pessoa publicitário: pode estranhar-se primeiro, mas entranha-se rapidamente.

Esta é uma narrativa de estrada. O espaço é uma rodovia interurbana que liga dois aglomerados populacionais, percorrida por uma viatura em que viajam um casal, Jonas e Maitê, a irmã daquele, Leona, além de uma estranha figura cuja língua ninguém entende. Vêm do funeral do pai dos dois irmãos, figura nacional, militar com altas responsabilidades, chefe da polícia secreta; um pai ausente, pois os filhos são fruto duma ligação extraconjugal, e nunca foram reconhecidos. O tempo é 1971, no auge repressivo da ditadura militar. No rádio do carro, as notícias com maior destaque versam sobre o recém-falecido e a ocorrência nessa noite de um fenómeno astronómico: uma lua cheia mais próxima da Terra do que o costume, invulgar episódio celeste que terá repetição apenas em 2018.

Tudo sobre rodas, mesmo com a reserva do quarto passageiro, de cuja boca só saem sons que imaginamos guturais, até que o carro para, por falta de combustível. Um automóvel imobilizado numa estrada interurbana em noite de lua cheia é uma circunstância que irá propiciar um sem número de diálogos e situações, com revelações inesperadas, temas sufocados, por vezes há muito tempo, que vêm ao de cima. As interações e focos de tensão marido-mulher, irmão-irmã e entre cunhadas são momentos fortes, complementados pelo estranhamento do suposto gringo que os acompanha e pelo aparecimento bem doseado doutros intervenientes, pontuando a narrativa: um cão abandonado, crianças sem eira nem beira, um casal de assaltantes, os empregados da área de serviço e da gasolineira, uma coluna militar, parentes (da família legítima) com quem penosa e acidentalmente se cruzam. E, sob a falsa quietação da noite, alguns espetros: a memória da mãe-amante do militar, uma adoção falhada, a lembrança do morto a pairar; e ainda outdoors enluarados, publicitários, mas também políticos, como o infame “Brasil - ame-o ou deixe-o”, àquela hora sem função.

André Diniz dá-nos um argumento bem urdido, intercalando diálogos e pausas, que vão ganhando uma densidade acrescida. Chegamos a ouvir o silêncio sob aquele luar tão próximo e pesado, em noturno claro-escuro.

ENTRE CEGOS E INVISÍVEIS

Texto e Desenho: André Diniz

Editora: Polvo, 2019

 

BDTECA. Nada está a salvo

Laerte Coutinho (São Paulo, 1951), de cuja mão saíram, entre outros, os iconoclastas Piratas do Tietê e Suriá, a Garota do Circo, para um público mais jovem, está na linha da frente dos grandes autores brasileiros de quadrinhos. As tiras humorísticas de BD implicam um espírito crítico apurado, capacidade de síntese e, naturalmente, o talento do humor. Essas qualidades tem-nas Laerte em elevado grau, lançando um olhar irónico e inteligente sobre a sociedade e as pessoas que nela se movem. Mordacidade de alto nível, que lança mão de todos os recursos para atingir o seu fim, o de fazer-nos rir; mas nunca é um riso gratuito ou grosseiro, antes uma provocação que nos faz pensar, em que recorre ao trocadilho e ao cómico de situação, entrando pelo absurdo. Em Laerte nada está, felizmente, a salvo: a vida social de manada, a História, o imaginário e a cultura populares, a publicidade, o sexo e as relações pessoais, a deficiência - tudo serve para o seu manejo exímio do inesperado e do contra-senso. Por vezes, lembra os norte-americanos Johnny Hart e Grant Parker (B.C. e O Mago de Id).

Classificados são tiras publicadas no caderno de anúncios da Folha de São Paulo, de grande prestígio na imprensa brasileira. Ou muito nos enganamos, ou as páginas de anúncios seriam das mais vistas pelos leitores: por cada tira, o sorriso estava garantido e a gargalhada era uma forte possibilidade.

CLASSIFICADOS

Texto e Desenho: Laerte

Editora: Devir, Lisboa e São Paulo, 2001

 

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