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Telemóveis. Afinal devem ou não ser utilizados nas escolas?

Telemóveis. Afinal devem ou não ser utilizados nas escolas?

Dreamstime Francisco Paulo Carvalho 16/09/2019 20:16

Em Singapura, França e no Michigan, telemóveis já foram banidos dos recintos escolares. Em Portugal, diretores e pais não anteveem um cenário de interdição.

A utilização de telemóveis por parte dos alunos quer nas salas de aulas, quer no restante recinto escolar tem vindo a motivar reflexão nas escolas. Lá fora, são já vários os casos de comunidades escolares onde é proibida a utilização dos aparelhos. O caso mais recente é a decisão das escolas públicas da região de Forest Hills, no estado do Michigan, que este ano proibiram o uso dos telefones durante o período letivo. Em Portugal, associações de pais e dirigentes escolares não concordam com um cenário de interdição.

“A escola é para educar, e não para proibir. Não me parece que seja pela proibição que se consegue algo”. É esta a opinião de Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares (ANDE). Para o dirigente escolar, “não vale a pena inviabilizar o telemóvel porque a sociedade anda mais rápido que a escola. A escola pode proibir o telemóvel, mas os alunos vão sempre encontrar forma de o utilizar”. Na opinião do presidente da ANDE, a melhor estratégia para impedir a má utilização dos dispositivos tecnológicos nas escolas passa por “encontrar formas de, naturalmente, negociar com os alunos a não utilização de telemóveis em período letivo, ou seja, desligá-los, por exemplo”. Contudo, reforça que são várias as “situações pedagógicas em que é possível utilizar o telemóvel em sala de aula de forma orientada e articulada”, com ganhos para todos. “Cada escola tem autonomia para tomar essas decisões e cada escola saberá a melhor forma de concretizar esses planos por forma a haver uma correta utilização dos telemóveis no seu recinto”, diz Manuel Pereira, considerando que seria difícil haver uma proibição geral.

“Em educação, proibir amplia normalmente o problema. Hoje em dia, genericamente, todos os alunos têm telemóveis e se é verdade que há encarregados de educação que conseguem educar os seus filhos para a não utilização dos telemóveis no período da escola, há outros que não conseguem. Teremos sempre problemas na sala de aula com alunos que, de uma forma ou outra, quererão aceder ao telemóvel. Normalmente, a proibição não dá bom resultado, até porque as escolas não teriam forma de a garantir como efetiva”, conclui o dirigente.

Ao i, Jorge Ascensão, presidente da Confap – Confederação Nacional das Associações de Pais, explica que na sua opinião também seria difícil uma proibição generalizada. “Cada caso é um caso e essa medida, se fosse tomada, não poderia ser aplicada em todo o país. Depende das comunidades”. Segundo o porta-voz, apesar de a medida ser “benéfica ao nível das aprendizagens sociais e emocionais”, estaria a tirar liberdade aos jovens.

O representante das associações de pais explica que “a proibição não seria a melhor medida porque os jovens estariam nas aulas só a pensar no momento em que sairiam para poderem utilizar [os telemóveis]. É preciso ter bom senso. Não sou favorável a uma proibição sem qualquer tipo de justificação ou fundamentação e acho que a possibilidade de utilizar o telemóvel necessita é de boas lideranças, para que eles entendam que se tem é de usar corretamente”, explica o representante das associações de pais. Para Jorge Ascensão, “quando se parte para a necessidade de proibir é porque alguma coisa está a falhar”.

“O confronto entre o mundo natural e a sedução dos meios tecnológicos” Carlos Neto, investigador da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa, explica que os resultados das investigações científicas não permitem atualmente conclusões definitivas sobre se se deve ou não utilizar o telemóvel no recinto escolar. “Hoje em dia existe o confronto entre a vontade de nos aproximarmos pelo mundo natural e a sedução dos meios tecnológicos, que vieram para ficar. Tanto queremos resgatar o passado como o futuro”, diz ao i o investigador, que vê na utilização dos dispositivos tecnológicos nos recintos escolares vantagens e desvantagens. Se, por um lado, estes causam “problemas ao nível do desenvolvimento social, motor e emocional, por outro são fundamentais para que o conhecimento possa ser consultado, quando bem utilizados”, continua. “Isto coloca um problema enorme às escolas e aos professores”, sublinha Carlos Neto.

O investigador da Faculdade de Motricidade Humana diz que, embora os dispositivos tecnológicos sejam um “convite ao sedentarismo” e possam levar a uma “iliteracia motora”, a sua área de investigação, eles “são úteis e devem ser consultados quando necessário e com a mediação de pais ou professores. Deve haver regras e um menu de procedimentos no sentido de anular os aspetos negativos que esses dispositivos têm”.

Carlos Neto acredita que uma eventual interdição da utilização dos telemóveis poderia ter “algumas vantagens na valoração da questão humana e, por outro lado, de uma aprendizagem mais humana”. Contudo, conclui, “negar a possibilidade de acesso à informação que está nos dispositivos também seria negativo”.

“Sem telemóvel, 100% ligados” No ano passado, França avançou com a proibição dos telemóveis nas escolas. As exceções, segundo o site do ministério francês da Educação, são alunos que tenham problemas de saúde que justifiquem a utilização de dispositivos médicos que dependam de um equipamento de comunicação, por exemplo medidores de glicemia no caso de doentes diabéticos. O lema da medida é “sem telemóvel, 100% ligados”. Segundo uma sondagem divulgada este verão pelo Huffington Post, 82% dos franceses concordam com as alterações à lei feitas no ano passado, mas existem ainda limitações à aplicação da regra. Não estão previstas sanções e nem todas as escolas têm ainda cofres para os alunos depositarem os aparelhos no início do dia.

Em Singapura, também já houve escolas a avançar com a proibição. O agrupamento de escolas públicas de Forest Hills, no Michigan, muda este ano as regras. Os telemóveis estão proibidos nas salas de aula e no recreio.

 

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