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40 anos SNS. José Boavida: "Somos o país da UE com mais diabetes"

40 anos SNS. José Boavida: "Somos o país da UE com mais diabetes"

José Sérgio Marta F. Reis 15/09/2019 10:24

Este domingo assinalam-se 40 anos da criação do Serviço Nacional de Saúde. Como era a saúde em 1979? Como está hoje? O i reuniu testemunhos que ajudam a recordar uma história que começa a desenhar-se antes do 25 de Abril e falam das preocupações do presente. Mais financiamento não chega, é preciso reformar um SNS que surgiu quando o país era jovem e a saúde era mais barata do que é hoje. 

“Quem vive os momentos históricos não tem bem noção de que está a vivê-los”, sorri José Manuel Boavida, endocrinologista e presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal. Eram tempos de entusiasmo. No arranque do SNS estava a fazer o Serviço Médico à Periferia em Castro Marim, em plena serra algarvia. Recorda que apesar das carências da população, havia algo de inovador nos centros de saúde de primeira geração que lamenta que, com o tempo, se tenha perdido. “Havia enormes bolsas de pobreza e as pessoas só iam ao médico numa situação de emergência. Naquela altura houve a preocupação de mostrar aquilo que os serviços médicos podiam oferecer. Fazíamos rastreios de diabetes em feiras, tínhamos oftalmologistas, pediatras, cardiologistas nos centros de saúde, o que era de uma atualidade extrema. Com a criação da especialidade de medicina geral e familiar perdeu-se um pouco esta dimensão e, durante uma vintena de anos, os centros de saúde tornaram-se mais um sítio onde as pessoas iam numa urgência, como iam aos hospitais. A vertente curativa tornou-se o centro da atividade e só nos últimos anos se voltou a discutir se os centros de saúde devem ter outros especialistas, se os médicos devem trabalhar em equipas multidisciplinares.”

Ao mesmo tempo, continua Boavida, criou-se uma separação entre hospitais e centros de saúde que, hoje, ainda não está minimamente resolvida. O médico recorda que uma das iniciativas que mais o marcaram enquanto dirigiu o Programa Nacional para a Diabetes foi a criação de unidades integradas de diabetes que juntavam médicos dos centros de saúde e dos hospitais. “As pessoas conheceram-se e perceberam que tinham as mesmas preocupações. Penso que é esse caminho que tem de ser cada vez mais trilhado”. A diminuição da mortalidade maternoinfantil foi um dos grandes sucessos do SNS, mas acredita que o envelhecimento da população pede que se reforcem as políticas noutras áreas e se combatam as assimetrias nos cuidados de saúde primários e os tempos de espera elevados para consultas de especialidade. 

Na diabetes, o cenário é preocupante, alerta, também porque reflete o atraso do sistema no acompanhamento dos problemas da população. “Há um texto da Organização Mundial da Saúde que diz que se queres saber como está a saúde no teu país, vê como tratam a diabetes. É uma doença que exige de tal maneira a participação das pessoas que obriga a que existam respostas de proximidade, profissionais motivados, recursos. É muito mais fácil os médicos prescreverem medicação do que alterarem hábitos de vida, fazer uma educação terapêutica e seguirem as pessoas para ver se esses novos hábitos se mantêm”, diz Boavida. “Não temos nenhum estudo de prevalência desde 2009, mas é natural que, hoje, a percentagem de população com diabetes se aproxime dos 15%. Somos o país da UE com mais diabetes e se isto em parte se deve ao envelhecimento e à obesidade, em particular obesidade infantil, em que Portugal tem ocupado lugares cimeiros, também resulta de não ter havido um trabalho continuado de prevenção e promoção de hábitos saudáveis. Em Portugal, ainda há hoje 1500 amputações. Pensar que a diabetes é a principal causa de insuficiência renal, de amputações, de diminuição de visão é algo que mostra como é necessário uma intervenção muito mais musculada. São problemas que hoje, claramente, já se podiam evitar.”

 

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