24/9/20
 
 
António Galamba 02/09/2019
António Galamba

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O take 2 da zanga de comadres ou a imensa ingratidão de Costa

No espaço de uma semana, é o segundo esboço de ingratidão que o primeiro-ministro mostra em relação a quem sustentou as suas posições – primeiro o Bloco de Esquerda, depois José Sócrates.

As circunstâncias e as sondagens configuram um abuso de posição dominante que precisa da dramatização, de clarificação q.b. e de uma campanha de mobilização serena que conduza à ambicionada maioria absoluta do Partido Socialista. Em linha com quatro anos de governação, profundamente marcado por atos simbólicos e por narrativas afirmativas, é preciso sinalizar simbolicamente a única opção política que garante uma continuação da trajetória, sem sobressaltos. Num quadro de miséria política da alternativa, de indigência do escrutínio e de soporífero debate político, a posição dominante revela todo o seu esplendor de habilidade política custe o que custar. É tão dominante que a soberba e os deslizes podem colocar em causa o objetivo político central da maioria absoluta. O domínio precisa de ser doseado, segmentado e direcionado para os instrumentos e os instrumentalizados. Conta com a sua subserviência e cúmplice anuência para a sustentada entronização. Foi sempre assim, porque não seria agora?

Depois do zurzir do Bloco de Esquerda e do viperino elogio ao PCP, exercita-se mais uma demarcação de José Sócrates, para tentar definhar ainda mais o eleitorado do PSD e reafirmar que os fins justificam todos os meios, até a criatura vergastar um dos principais propulsores políticos. António Costa sublinhou uma ideia de perceção negativa dos portugueses em relação à maioria absoluta de José Sócrates, contando com a falta de memória, de escrutínio e o contexto de fragilidade do ex-líder do PS.

O dominante fortaleceu-se no governo de Sócrates e na oportunidade por ele propiciada de ser candidato à Câmara Municipal de Lisboa, plataforma central de sustentação da áurea de poder.

O dominante sustentou o desgaste político da anterior liderança do partido na máquina política de José Sócrates, na transformação do perfil da militância socialista, nas redes sociais, no grupos parlamentares, nos seus pivots da sociedade portuguesa e na intriga gerada com o conluio de alguma comunicação social, a mesma que sustenta décadas de boa imprensa e fraco escrutínio.

O dominante contou com a solidariedade do recém-atacado e dos seus grupos para impor visões lesivas do interesse político e eleitoral do Partido Socialista no quadro pós-acordo com a Troika, desde logo através da sustentação da obrigação da defesa sem hesitações de todo o exercício político de José Sócrates. Não havia espaço para silêncios, o tempo deveria ser de exaltação do passado e contestação ao presente, mesmo quando decorrida da assinatura de alguém pelos socialistas com os credores.

O dominante contou e conta com boa parte do pessoal político que estava em funções com José Sócrates, mas não hesitou em clarificar à porta do Estabelecimento Prisional de Évora que era um caso de justiça e que o seu propulsor estaria “ a lutar pela sua verdade”.

O que espanta em tudo isto, não é a facilidade com que descarta o impulsionador, mas fazê-lo com a anuência servil de quem no passado exigia uma defesa intransigente do legado, sem esboço de crítica ou triagem, porque se salvariam algumas políticas concretas e uma visão para o país em áreas importantes.

O que torna o exercício abjeto é a frieza do descartar e do vale tudo, pela sobrevivência política, numa espiral sem limites, sem valores e sem princípios, mesmo com aquele a quem deve estar onde está e ter construído um percurso político que o posicionou na sociedade portuguesa. No espaço de uma semana é o segundo esboço de ingratidão com quem sustentou as suas posições, primeiro, o BE, agora, José Sócrates, num quadro de referência em que só mesmo a falta de vergonha na cara permitirá a superação das palavras ditas neste período eleitoral.

Esta volatilização da política e das pessoas nunca será referência pessoal, nem está integrada em nenhuma leitura da história e do património do Partido Socialista. Os fins não devem e não podem justificar todos os meios. O contrário significa não ter aprendido nada com a história de séculos e com os desmandos do poder que assumiram essa visão como orientação maior.

Por razões eleitorais, a criatura quis reafirmar o corte com um dos criadores. Para alguns comentadores é mais um brilhante exercício da habilidade política, para mim não passa de mais uma expressão de miséria humana na política. Pretensamente cavam um fosso para que o perfil e os interesses sem mantenham os mesmos de sempre.

NOTAS FINAIS

NUM PAÍS NORMAL, a líder de um dos principais suportes do governo afirmar que o défice pode ser maior do que o propalado, era tema para ser levado a sério e exigir responsabilização pela ligeireza. Aliás, uma superficialidade bem presente em muitas respostas que dizem respeito à economia real. Saberá Catarina Martins quais os custos em encargos e impostos para a criação de um posto de trabalho com uma remuneração digna? Pelo que diz, duvida-se.

NUM PAÍS NORMAL, não estariam quase todos em negação em relação a uma solução governativa tão endeusada que agora não querem repetir, com mais ou menos assinaturas. Se é para não estragar a amizade, então que alguém lhes diga que os amigos não devem andar à bulha, a fingir que não são amigos. Amigos são para todas as ocasiões, as boas e as menos boas. Será essa a dificuldade.

SERÁ NORMAL, que um anterior diretor, sportinguista confesso, à falta de coragem para tratar da sua casa, exercite a sua obsessão com verve sobre o Sport Lisboa e Benfica.

NÃO É NORMAL diabolizar a maioria absoluta, quando ela daria muito jeito ao PS nas eleições regionais da Madeira ou quando Carlos César e Vasco Cordeiro já contaram com esse resultado nos Açores. Estas também são para diabolizar? Uma vez mais, mais umbigo que cabeça.

Escreve à segunda-feira

 

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