22/9/19
 
 
Afonso de Melo 01/08/2019
Afonso de Melo

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Beira-Mar de Monte Gordo e os cuícos

Se calhar devia começar esta rubricazinha de agosto um pouco mais para oriente, em Vila Real de Santo António, onde o Lusitano tem uma história bem rica, certamente uma das mais preenchidas de todos os clubes à beira-mar plantados, pois é essa a ideia que faz mexer as letras destas colunas.

Mas, convenhamos, Beira-Mar de Monte Gordo é chamativo. Com aquele hífen que lhe dá um certo ar senhorial do séc. xvii, embora tenha nascido tão-somente em 1950, no dia 2 de agosto, pelo que está na véspera de comemorar os seus 69 anos. Parabéns, portanto, pelo “curioso número”, como deixou escapar certa vez, de sorriso malicioso, o prof. João Bosco Soares Mota Amaral, a quem não eram conhecidas quaisquer ordens de malícias. 

Concelho de Vila Real, distrito de Faro, eis a terra do Grupo Desportivo Beira-Mar, nome oficial.

Vida difícil! Vida difícil!

E não tem sido tão difícil a vida dos clubes algarvios, com muitos deles arrastados para crises irresolúveis que os deixaram à beira da extinção, quando essa extinção não condenou até alguns deles?

Em 2011, por exemplo, andava o Beira-Mar num sofrimento atroz nos confins da Série F da iii Divisão, entretanto extinta, e transmitiu à Federação Portuguesa de Futebol que já não conseguia manter-se mais à superfície. Não houve boias que evitassem o seu afogamento. 

Álvaro Viegas escreveu na letra do hino: “Beira-Mar! Beira-Mar/ Vamos todos apoiar!”

Não houve apoio que segurasse os cuícos.

“Os cuícos?”, perguntam aqueles que não conhecem Monte Gordo, essa estância de férias encantadora nos anos 60, era o Beira-Mar uma criança, cabanas de telhados de colmo espalhadas pela beira-mar, só o som da composição beira-mar (ou Beira-Mar) encanta o aparelhinho auditivo, em alguns tão sensível, a Ria Formosa logo ao lado, o sapal, os pescadores à moda da xávega, enfim, um Algarve que foi fenecendo para surgir outro no seu lugar.

Para os sensíveis dos ouvidos, conta Vítor Madeira, historiador de Monte Gordo, os cuícos não gostavam de ser cuícos. Mesmo que o dicionário da Sociedade de Língua Portuguesa registe e defina o termo desta forma: “Designação pitoresca dos habitantes da praia de Monte Gordo, perto de Vila Real de Santo António”.

Ora o cuíco era peça de roupa, com capuz, tecida a lã de carneiro, vestimenta resistente para quem passava as jornas na labuta do peixe ou no serviço a patrão que pagava pouco. Homens e mulheres usavam-no dia e noite, até para dormir se preciso fosse. Afinal, como diz o povo, mesmo em Monte Gordo, o que tapa o frio tapa o calor. E vice-versa. 

Ficaram cuícos. Uns com orgulho, outros sem ele. Mas ainda há herdeiros do Beira-Mar que se intitulam cuícos. E jogam como cuícos. Torcem, mas não quebram.

 

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