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Karina Sainz Borgo. “Quando está em causa a sobrevivência, a moral torna-se um privilégio”

Karina Sainz Borgo. “Quando está em causa a sobrevivência, a moral torna-se um privilégio”

Diogo Vaz Pinto 10/07/2019 11:52

Em condições desesperadas, toda a sobrevivência arrasta uma culpa. Face à degradante crise humanitária na Venezuela, Karina Sainz Borgo escreveu um romance como forma de expiação, para escapar de novo, desta vez esticando a pele e pousando-a sobre a dor daqueles que ficaram para trás.

Saul Bellow disse certa vez que todos os grandes romancistas modernos andam à procura de uma definição para a natureza humana, uma que se aguente em tribunal, tentando justificar a continuação da vida, e, já agora, a entrega a esse ofício desmesurado. Se a ficção foi uma arma de precisão que permitiu a gente com parcos recursos abalar as sociedades, escarafunchar e abrir feridas históricas, desancar os valores e a própria noção da realidade, a má ficção limita-se a construir simulacros. Serve-se de efeitos de fumo e de espelhos para gerar uma sensação de profundidade. Ali, o céu inteiro é trocado, simbolicamente, por um pássaro enfiado numa gaiola e obrigado a cumprir um ritual de sobrevivência absurdo. E o pior é que as suas queixas lhe saem num trinado agradável ao ouvido humano.

Cai a Noite em Caracas, o primeiro romance de Karina Sainz Borgo não deixa que a confundamos com outro desses inconsequentes canários. Mais de uma década depois de ter deixado Caracas por Madrid, a autora nascida em 1982, coloca-nos numa vertigem narrativa diante de um cenário de aflitiva desolação que as próprias notícias a todo o momento caucionam. Mais do que a plausibilidade do enredo, no seu ritmo tão expressivo, os detalhes deixam-se registar nalgum canto da mente como se o leitor fosse um comensal à mesa de um cretino autoritário que não se cala, e que, para se proteger, continua a enfardar mais por nervosismo, sentindo o avolumar de uma perigosa indigestão. A autora conta-nos uma história ficcional que tem muitas histórias reais atravessadas na garganta, e há mesmo momentos em que dá a sensação de que escreve como quem limpa manchas de sangue. Não vale a pena gastar mais espaço da entrevista. O que ainda não está claro sobre esta obra ficará nas páginas seguintes.

 

A protagonista do romance, Adelaida, é um fantasma seu, uma projeção do que teria sido a sua vida se houvesse ficado na Venezuela?

Sim e não. Temos evidentemente coisas em comum. O desenraizamento, muitas das recordações... Mas ela é como uma síntese de muitas estórias, de homens e mulheres. É a grande vítima. Uma vítima com um ângulo privilegiado sobre o carrasco. Queria que nela convergissem muitas outras vivências. Tanto nela como nas outras personagens do livro. Mas, no fundo, é uma criação ficcional – e isso é decisivo. Por isso consegue ser tanta gente.

Qual lhe parece ser a principal diferença entre sustentar um ponto de vista através do jornalismo ou fazê-lo num romance, enfrentando o que está a passar-se na Venezuela?

Se o que eu pretendesse fosse informar, teria escrito uma reportagem. Mas a minha intenção era emocionar. Por isso tomei a decisão de escrever um romance. Fi-lo sem nunca perder de vista as aspirações literárias, empenhada em construir um artefacto narrativo, que assenta sobre uma série de alegorias. É evidente que a Venezuela contemporânea tem um papel central, mas é primeiramente o cenário. Porque este é um romance sobre os totalitarismos, sobre o modo como o poder excessivo apaga, anula os indivíduos.

Por isso fugir do país é como mudar de identidade?

Sim, Adelaida Falcón tem de deixar para trás a sua identidade. Trata-se, evidentemente, de uma artimanha ficcional, mas ela rouba uma identidade para poder escapar com vida, e, para mim, essa é a mais clara denúncia de que o poder se excedeu ao ponto de arrasar os indivíduos, levando-os a abandonar tudo o que são. Parece-me que isto é uma forma de pôr as coisas em termos bastante universais. Quis que o livro ganhasse dimensão a partir de um contorno alegórico, mas que se tornasse uma história da sobrevivência – e da culpa que se sente por sobreviver. É central a culpa do sobrevivente a este romance.

Acha que o sobrevivente está condenado, em certa medida, a andar de costas – como diz um provérbio nosso: ensinar o caminho ao diabo?

Nota que, a todo o momento, ela se dá conta que alguém pagou um preço ainda mais alto do que ela. Esse olhar que troca o desesperado com alguém que está ainda pior é algo que nos diz muito sobre o que é emigrar para escapar de um país. Foi isso o que me permitiu falar sobre o que se está a passar na Venezuela, mas que é extensível às crises que atravessam hoje muitos outros países.

O que liga todos estes conflitos e crises?

Nos nossos dias a figura do migrante atravessa a política em toda a Europa, na América Central e do Norte… Creio que é a figura marcante do nosso tempo, o que não deixa de ser patético porque no século XX já vimos tudo isto, e temos provas exaustivas sobre para onde nos irá levar este ciclo.

Tendo deixado a Venezuela em 2006, quando tinha 24 anos, e tendo dito que desde então criou uma consciência que talvez lhe escapasse caso tivesse permanecido, quem pensa que seria hoje se tivesse ficado?

Sinceramente, não faço esse exercício. Se vou ao ponto de pensar que talvez devesse ter ficado e me sinto culpada por ter escapado ao destino do meu país, por outro lado, sei que aquele país já não me reconheceria nem eu a ele. Se voltasse lá, sentir-me-ia uma estranha num lugar estranho. É um país que foi riscado, canibalizado, golpeado até à inanição… Porque o retrocesso atinge a própria condição da cidadania – há uma degradação das atitudes humanas. É lógico que há pessoas que se mantiveram lá e que resistem, mostram decência nos pequenos gestos. E se admiro essas pessoas, não sinto que eu tenha essa capacidade. Por isso é que o livro abre com aquele verso de Borges: “Me legaron valor. No fui valiente.” Eu tenho essa sensação.

Parece haver um paralelo entre as representações na ficção dos zombies e os números crescentes de migrantes. Neste romance, a fome tem um grande peso. Acha que há nestas representações um temor mais ou menos consciente relativo aos perigos que se avizinham?

Neste romance todos estão como mortos-vivos. Vivem desligados de si mesmos, empenhados na sua sobrevivência. Será isto uma característica deste tempo? Pode ser, mas vimos que no pós-guerra houve muitas situações deste tipo, sociedades completamente apagadas, seja emocional seja materialmente. Uma pessoa atarefada com as condições da sua sobrevivência fica encerrada no que há de mais básico, atém-se ao lado mais básico da existência, nem chega a colocar-se questões de âmbito político. A moral torna-se um privilégio.

Em que sentido?

Distinguir se isto é certo ou errado e ser coerente já não é uma opção, pois tem de se sobreviver. Está-se de tal modo ameaçado que a relação entre as pessoas degrada-se ao ponto de se tornar predadora. A lei da selva impõe-se e triunfa quem não hesita, quem tem menos escrúpulos. Por isso, sim, acho que há algo como um vírus social nestas formas de totalitarismo, que nos reduz à condição de mortos-vivos. É como se esta grande massa de gente perdesse a ligação àquilo que a eleva humanamente. E creio que esse é um dos sintomas do poder excessivo, aquele que nos entra em casa, que na prática te rouba o espírito, que te envilece. Julgo que isto acontece à maioria das personagens deste livro.

O crítico Álvaro Colomer elogiou o romance dizendo que “vem do futuro”. Diz mesmo que é “um romance profético que todos deviam ler antes de abraçar cegamente uma ideologia seja ela qual for”. Acha que o que dá força a esta ficção é tornar palpável essa ruína súbita que pode acontecer noutros países?

Tive o atrevimento de responder a um dos jornalistas que me entrevistou por estes dias dizendo que vim do futuro, que vi o que está para vir. E se tive esse atrevimento é porque a América latina tem estado sempre muito presente na minha leitura das coisas. Todo este populismo, estas formas de socialismo do século XXI – tremendamente autoritário –, são correntes que ciclicamente ressurgem na Venezuela, e que, aparentemente, a Europa parece ter apagado da memória, e isto depois de ter sofrido com as piores formas de populismo, entre elas o fascismo. Sinto que a sociedade venezuelana foi a primeira em que o passado arrestou o futuro, com esta forma de captura ideológica da linguagem, o seu uso propagandístico, as formas de segregação, de criar rivalidades no seio da sociedade para a fragmentar e oprimir.

E o que permitiu que a política voltasse a estar ao nível das emoções?

São velhas ferramentas de repressão que estão a voltar a ser utilizadas. Repara como Trump, como grande populista que é, ou Bolsonaro, idem, e as figuras da extrema direita europeia, o que têm em comum é a forma como vivem da propaganda: excitam rivalidades, conquistam o eleitorado através de divisões odiosas. É natural que face a décadas marcadas por este ciclo de bem-estar e de crescimento económico as populações europeias sejam levadas a esquecer aquilo que superaram e a julgar que o passado não irá repetir-se. Mas tudo isso está já a bater às nossas portas. Ouve-se o toc-toc-toc! Cada vez com mais força. Se deixarmos, entram.

Disse que na América latina os ciclos políticos balançam de forma pendular entre movimentos drasticamente opostos. Os populismos de esquerda dão origem aos de direita e vice-versa. De resto, a Venezuela tem sido usada pela direita, seja por Trump ou Bolsonaro, como o bicho papão.

Isso não me surpreende. Aliás, vendo como a imprensa venezuelana extenuou a retórica de esquerda, a tendência dentro do país tem sido para surgir agora, em oposição, uma retórica conservadora. Acho bem possível que, a haver uma mudança política, na Venezuela, em vez de evoluirmos para uma democracia liberal, passemos para uma forma de autoritarismo conservador. A eleição de Bolsonaro no Brasil é um exemplo disso. Assusta-me a perspetiva de uma viragem à direita na Venezuela, porque já sabemos como estes movimentos têm tendência para ser ainda mais violentos. E há a agravante de, neste momento, o mal-estar social no país ser muitíssimo profundo: vive-se realmente uma crise humanitária em que não há o que comer, não há medicamentos, não há luz e não há lei. E se há muita violência política, pior do que isso há uma tenebrosa violência social.

Como se sai deste ciclo?

Para conseguir devolver o país a uma situação minimamente estável seria preciso tomar ações decisivas, e o receio que tenho é que isso seja feito através de uma deriva à direita. Não creio que isso venha a ocorrer nos tempos mais próximos. Os atuais atores políticos na oposição não me parece que estejam a apontar para aí. Juan Guaidó é o presidente da Assembleia Nacional, e o seu papel é convocar eleições… A mim preocupam-me muito mais certas fações conservadoras dentro do exército. Isso sim aterroriza-me, traz-me as piores recordações: a América latina ainda sente dor quando passa as mãos pelas cicatrizes que lhe deixou essa etapa dos regimes de direita. O que me parece é que só vamos sair disto depois de uma longa e dolorosa temporada no inferno.

Adelaida parece agarrar-se à sua humanidade recorrendo às lembranças da sua infância… Como foi a sua própria experiência a este respeito?

As lembranças são um dispositivo que, se por um lado a humanizam, também me permitiu falar desse outro país mais luminoso. Leste A Estrada de Cormac McCarthy? É através das recordações que ele deixa o leitor respirar antes de o voltar a submergir naquele pesadelo. Se não deixas o leitor recuperar o fôlego, vir à superfície e respirar, vai sentir-se prisioneiro e acabará por fechar o livro. Portanto, há um lado puramente técnico nessa escolha, mas, sob um prisma literário, isso também me permitia escrever a minha carta de amor àquele país.

E o luto abre margem a esse lado elegíaco...

Quando Adelaida enterra a mãe, o luto é também por esse país, um lugar tão exuberante quanto ameaçador, um lugar onde, como ela diz, até as flores são predadoras. Isto permitiu criar um contraste, e, com o território da infância, trazer poesia ao romance. A infância é também um território político na medida em que, quando vislumbras aquilo que o país podia ter sido, entrevê-se as suas aspirações, e assim as recordações dela ecoam as de muitos emigrantes europeus: os espanhóis, os italianos, os portugueses... Foi uma forma de falar sobre este país que se construiu com as tantas pessoas de outros países e cujos descendentes – sejam os de segunda ou terceira geração –, são levados a fazer o caminho inverso, 60 ou 70 anos depois. Portanto, esta é uma tragédia que se pode contar pelo impacto que se sente na memória.

Como lhe parece que as narrativas, reportagens e notícias sobre este drama são recebidas deste lado? Acredita que há compaixão ou acha que isso se está a perder?

Creio que países europeus como a Espanha, a Itália e Portugal, que têm grandes comunidades de emigrantes na Venezuela, sentem uma maior proximidade e, por isso, também estão de algum modo ligadas ao destino do país. Outra coisa é falar da Europa, da União Europeia. Essa está um pouco mais distante. Não é que haja indiferença, creio até que tentaram ajudar... Mas é evidente que, do ponto de vista geopolítico, a Venezuela não partilha a agenda europeia. Contudo, naquela região, a Venezuela é um verdadeiro problema tanto a nível político como de segurança. Mas os romances não resolvem problemas, não elegem Governos, não melhoram o mundo. A única coisa que talvez consigam fazer é levar o leitor a questionar-se, a sentir-se envolvido por uma realidade longínqua como se fosse a sua.

Este é o seu primeiro romance, e face ao seu retumbante sucesso, estando a ser publicado em 22 países, receia ficar conhecida como a romancista que deu voz ao drama venezuelano? No passo que se segue, gostaria de romper com esta noção?

Sim. A minha intenção é divorciar-me disto. Desde logo é preciso que o faça, por questões anímicas. É certo que, literariamente, as coisas que me interessam atravessam o território da morte e da memória. Já estou a trabalhar no meu segundo romance, uma história muito mais violenta, mas de um ponto de vista simbólico, e não está ligado especificamente à Venezuela mas à América latina... Penso que a distância me ajudou a distinguir com mais clareza os temas que me inquietam, e creio que a morte e a memória são aqueles que me movem.

E estão muito presentes neste romance.

Sim, sob este prisma da crise venezuelana, mas porque este livro já estava nos meus nervos, foi quase um reflexo escrevê-lo – senti que tinha de o fazer. Já havia tentado uma vez, mas então faltava-me a destreza literária e a lucidez para o fazer de forma satisfatória. De resto, nele não encontras uma só vez o nome Chávez, ainda que essa presença se sinta a todo o momento. É um pouco o que Coetzee fez em À Espera dos Bárbaros, ou Doris Lessing, Natalia Ginzburg... No fundo, a literatura que me importa é a que faz a ronda noturna depois das coisas se terem passado, remonta-as a partir do modo como recordamos as coisas.

Porquê esta obsessão com a memória?

Creio que a memória é uma das expressões mais políticas que temos, e acho que todos os grandes escritores estão obcecados com ela. Mas há outros temas que me enredam. Gosto dos temas feios, das coisas desagradáveis, do que é problemático... Não me vejo a escrever uma história de amor. Desde logo, porque não entendo as coisas assim. Até posso ter interesse pelo lado romântico, mas o que me prende e me faz andar de volta de uma coisa é se vejo nela a falha, esse lado quebrado, o que está podre nas sociedades. Por isso, interessa-me uma literatura política. Estou a falar de política no sentido mais amplo.

Lembra-se de algo que teve um efeito transformador da sua forma de encarar o mundo?

Quando comecei a ler Thomas Bernhard muitas coisas aclararam-se para mim. Também por isso vejo o jornalismo como o grande combustível deste tipo de literatura: uma forma de chegar às histórias, de ouvirmos os ecos – mesmo que abafados – da tragédia. Todos os dias, quando saímos, contactamos com as pessoas, ouvimo-las contar o que as aprisiona, e reconstituímos esse esquema básico sobre o qual também as ficções assentam. Mas, para responder à tua outra pergunta, sim, preciso de separar-me da Venezuela, porque em face deste tema estaria sujeita à enorme tentação de me recriar, e não quero ir por aí. Já disse o que tinha para dizer.

Aquela ideia do homem como lobo do homem atravessa o romance. A sensação que causa no leitor é a de que, na verdade, não é preciso muito para que, em sociedades como a nossa, a camada de civilidade estale. Face a esta emergência dos populismos na Europa, há alguma coisa que lhe dê a sensação de estar uma vez mais a viver uma derrocada?

Tenho a sensação de que se está a cumprir um ciclo. É certo que não se pode interpretar a História a partir de uma cábula – ela sabe esquivar-se a todas as profecias... Mas nota como se fechou o capítulo da II Guerra Mundial. Estamos agora na etapa crepuscular de um ciclo novo. Repara que a grande instituição que sai daquele conflito é a Europa como união, esse projeto que hoje está a dar imensos problemas. A questão é: vamos dinamitá-la ou vamos tentar lembrar-nos do que nos levou a ela, e porque foi a solução para problemas muito piores?

Acha que a UE tem os dias contados?

Acho curioso que estejam a aparecer e a ganhar peso estas personagens nacionalistas, regionalistas, que aproveitam desequilíbrios para se oporem a um projeto comum, a um espírito de concórdia... E porquê? Porque é que estamos de volta a isto? Parece que uma forma de parasitismo resiste, como que adormecida, tanto à direita como à esquerda, aguardando que as coisas aqueçam para se aproveitar da instabilidade social para de novo nos lançar nessas derivas que sempre conduzem ao desastre.

Então nada disto deveria surpreender-nos...?

Há figuras mais estentóricas, como Trump, que nos apanham a todos de surpresa... Eras capaz de imaginar que um tipo como aquele chegaria à Casa Branca? Eu não, nunca me passaria pela cabeça. É uma figura demasiado paródica para a levarmos a sério. Tem parecenças com Berlusconi, mas consegue ser ainda mais sinistro, pois ao contrário dele, parece tirar força das nossas fraquezas, apelando ao ressentimento. Deu a volta ao pregão de Kennedy, e agora a ideia é que o Estado está em dívida contigo. A ênfase no discurso político passou a suportar a tese de que, se não és feliz, é porque alguém está impedi-lo. E não foi essa a gasolina do fascismo? Não foi este o combustível de tudo o que vimos desenrolar-se no período entre guerras? Não foi este mesmo espírito de ressentimento que nos conduziu ao pior do que se viu no século passado? No fundo, esta pobreza política quase me faz rir; esta propaganda, esta forma de manipulação, de demagogia, mas depois lembro-me daquilo de que ela é capaz.

E não vê nada de novo neste ciclo?

Se este ciclo parece próprio do Ocidente, acresce a isto o poder das redes sociais, que nos fez renunciar voluntariamente à complexidade. Hoje em dia, parece que duas coisas já não podem ser verdade ao mesmo tempo. Mas porque não? Sinto que estamos a ser devolvidos à infância, uma infância coletiva. De um lado são os gritos: “Feminismo, feminismo, feminismo; homem mau, homem mau, homem mau!” Tudo se torna em mensagens binárias: sim ou não. Creio que o século XX já nos tinha feito chegar a um nível de complexidade superior no que toca a interpretar os problemas sociais. Depois de termos reconhecido autores como Stefan Zweig, como Primo Levi, vozes de uma lucidez tremenda... Agora parece que temos de voltar às narrativas maniqueístas em que tudo se arruma em oposições cegas – está de volta o tempo das caças às bruxas... É como uma Idade Média na política, em que nos deixamos seduzir por explicações simplistas. É isto o que agita as águas subterrâneas do populismo.

Ao mesmo tempo, o oportunismo político leva a que os responsáveis políticos não saibam muito bem como lidar com estes fenómenos. Parecem ficar divididos.

Como é óbvio, aos Governos convém ter cidadãos que se sentem menores de idade, que renunciam a uma participação cívica ativa e consciente. Tenho 37 anos, cheguei a Espanha aos 24, e foi já na Europa que formei a minha consciência do que é isso da democracia... Mas numa década as coisas mudaram muitíssimo. Então em Espanha nem te digo. Parece-me que vocês, por cá, se têm mantido um pouco à margem da hecatombe europeia.

Outro aspeto que agora entra nesta equação é a crise ecológica. O que pensa destes perigos que nos colocam diante de um abismo só nosso?

Repara que hoje há uma série de movimentos que assumem uma carga ideológica bastante sinistra. Pense-se no animalismo, por exemplo. Já reparaste como o animalismo tem tão pouca empatia para com o ser humano? Porque é que parece ser mais fácil a muitas pessoas ligarem-se aos animais do que com outros seres humanos? É estranho, e, quanto a mim, é sintomático de uma mudança nas sensibilidades. Mas teremos de ver que mudança é esta. Há um autor espanhol – Félix de Azua –, que diz que somos os primitivos do nosso tempo. Quer dizer: chegámos ao fim de um ciclo, e há aqui uma espécie de dobradiça que nos liga ao começo de um ciclo novo, mas que também pode ser um fator de desintegração.

Acredita que movimentos como o animalismo ou até o #MeToo são exemplos de fenómenos em que para se conseguir uma união é preciso antes criar o inimigo?

E se analisares esse tipo de fenómenos percebes que estão embalados por uma forma de tumulto, há neles não uma forte convicção pessoal mas quase um arrastamento, próprio das multidões: uma vontade de linchamento, assembleias que buscam satisfazer um desejo de vingança. Ora, as coisas complexas não se organizam deste modo, não se decidem em assembleia. A democracia representativa – que é uma das grandes vítimas desta década – está a ser substituída por este modelo das assembleias que espelham o pior de um certo ânimo das massas, uma forma de emoção que passa por cima do racional. E o que está aqui é um caldo turbulento, uma espécie de poção que anima as pessoas a cometerem atos precipitados e injustos.

Ninguém imagina que a democracia, numa fórmula radicalizada, pode engendrar o seu próprio fim?

No fundo, a multidão é sempre tirânica nos seus impulsos. É sempre uma forma de eleger um tirano, através da criação deste espetro diabólico que simplifica o pensamento e nos leva a cometer atos irracionais. Uma vez mais, é um modo de pensamento infantilizado, um pensamento que está sujeito à tutela de forças que não compreende. Em muitos aspetos é uma forma de pensamento mágico, porque se baseia em ansiedades, emoções, desejos, mas não se confronta com a realidade; quer por todos os meios negá-la. Se a Europa foi um projeto norteado pela razão, é natural que seja eleita como o alvo destes fantasmas, que com o seu arsenal de emoções e receios pretendem dar caça à razão. E tendo passado tão pouco tempo desde a última vez que fomos por este caminho e se causou tanta devastação, face a esta amnésia voluntária, chego a perder a fé na humanidade. Como é que esqueceram tão depressa o horror que provocámos há algumas décadas?

Nesse aspeto, há países com maiores responsabilidades do que outros...

O que a Europa tem a seu favor é a História. Estas nações, estas culturas, o que as torna tão ricas é a sua História. Basta pensar que a Universidade de Salamanca ou de Bolonha têm várias vezes a idade do meu país. As nações americanas, nesse aspeto, são muito mais jovens. A memória é uma questão de sobrevivência. Está lá tudo, e por isso é tão importante politicamente.

Sendo uma jornalista da área cultural, certamente já reflectiu sobre a perda de relevância do romance. Este seu romance é, a este respeito, uma excepção. Mas o que lhe parece que justifica esta perda de influência da ficção literária?

Parece-me que a morte do romance é uma cantoria que já se ouve desde há pelo menos 40 anos. Ainda me parece um género com um papel político relevante no sentido em que nos confere amplas liberdades para ensaiar com as nossas dúvidas, usar a imaginação para rastrear as nossas possibilidades. Continuo a ver o romance como um excelente modelo para indagar das nossas convicções ideológicas, morais, cívicas. O romance do século XIX mantém-se uma construção influente na nossa formação cultural, no modo como lemos o mundo à nossa volta. Contudo, como se infere do que dizes, há uma tendência cada vez maior para ler obras de não-ficção, no romance tem vindo a ganhar terreno a auto-ficção, obras auto-referenciais. É o eu que assume protagonismo, eu e as minhas quatro paredes. Porque é que estamos a renunciar à ficção? É uma boa pergunta. Porque é que estamos a optar por esse tipo de discursos auto-referenciais, pelo eu-sismo, pelas narrativas ensimesmadas? Ou é isso ou, por outro lado, a ficção científica... Porquê? E eu concordo que o papel da ficção literária foi, em parte, assumido pelas séries de televisão, mas também isso não deixa de ser bastante curioso. Mas isso não apaga o facto dos leitores terem renunciado ao romance de ficção, porque não foram os escritores que se cansaram do género, não foram eles que declaram que o género estava esgotada, que não tinha mais por onde ir. 

Sei que durante muito tempo ia ao ponto de se recusar a falar da Venezuela, um tema que a enchia de mágoa. Sei também que já disse que houve um lado de catarse na escrita deste romance. Como foi o processo de escrita?

Há uns cinco ou seis anos que ando a trabalhar nele. Esta sensação de desenraizamento andava comigo, e escrevi dois contos que nunca me convenceram. Por um lado, eram muito locais, e depois não me parecia que tivessem arrancado alguma coisa de mim, o grito que eu lá tinha. Em 2017, quando começou o ciclo mais violento de repressão política na Venezuela, e ao ver imagens na televisão das cargas policiais contra os estudantes, isso deixou-me num estado de revolta absurdo. E foi então que me veio à cabeça a frase: “Enterraram a minha mãe com as suas coisas, não podia ter sido de outra maneira” [variação da primeira frase do romance]. Quando isto me veio senti o impacto do que se seguiria, e fechei-me um fim-de-semana a escrever o que veio a ser o primeiro capítulo. Nesses primeiros dias vi toda a primeira parte do romance e comecei a rascunhá-lo, a deixar-me indicações. Percebi que precisava de criar uma personagem que vivesse aquilo, e desenhei as primeiras impressões que tive dela. Costumo repetir a frase de Philip Roth, quando disse que escrever é como descer à mina, picar pedra, sendo a pedra tu próprio, tudo aquilo que está num nível mais fundo. E o que mais me custou na escrita deste livro não foram os episódios mais violentos, mas sim os mais belos. Havia noites em que a coisa me tocava ao ponto de me pôr a chorar. Tive de voltar a ouvir velhas canções, temas do folclore com que eu cresci e que foi como rasgar velhas suturas. Às vezes penso: oxalá que escrever seja como viver as coisas... Sabes quando certas energias das coisas que vivemos quando éramos jovens parece que ficam como que soterradas em nós, em bolsas de ar. Muitas vezes voltar atrás é mais do que recordar, e a catarse e o luto extravasa aquilo que está compreendido nestas palavras. Há coisas mais profundas e que ficam por dizer. É como pôr a máscara de novo, voltar a representar as coisas para que elas tenham um verdadeiro sentido para nós próprios. Muitas vezes só a recordação é que nos permite realmente ter vivido as coisas. Portanto, se fui empurrada para a escrita deste romance foi pela raiva que me provocaram as imagens da repressão no meu país, e, se houve um ajuste de contas, foi possível também estancar uma série de fugas. E há coisas realmente muito dolorosas. Não é de ânimo leve que se chama ao próprio país uma “picadora”, uma “fossa séptica”. E também não alinho com noções idílicas, fingindo que antes estávamos nalguma espécie de paraíso. Éramos um país tremendamente frívolo, que se convenceu de que estava abençoado e que o petróleo ia durar para sempre, tendo-se dedicado a produzir telenovelas e a eleger misses... Nisto, não vimos a imensa tragédia que nos estava a cair em cima. E, nesse aspecto, sinto-me responsável. Eu era mais nova, mas ainda me sinto estúpida por não ter reconhecido o perigo. As coisas não se passaram da noite para o dia, e digo-te uma coisa: tal como tu, também eu não percebia muito bem como é que se resvala para uma ditadura. É aos poucos. A pouco e pouco. E começa pela linguagem. Chega um dia em que as pessoas já só discutem trocando acusações: és um fascista, um reaccionário!... Começam a criar-se bandos atrás de certas noções algo descaradas, sem a menor profundidade. Às tantas, estas divisões tornam-se como clãs que vão elevando a parada, criando condições para estalar a violência. E depois nota como nos nossos dias as próprias redes sociais parecem palcos para disputas absurdas. O Twitter, pela sua dinâmica, já empurra para um discurso confrontacional. 
 

Dado que ainda tem família na Venezuela, tem algum receio quanto às consequências da ampla difusão que este livro tem merecido? Mesmo que não seja essa a sua intenção, corre o risco de se tornar uma porta-voz das vítimas venezuelanas…

Nunca terei o atrevimento de me considerar uma porta-voz das vítimas. Mas reconheço que onde quer que eu vá, a crise venezuelana será o tema de que se irá falar. Gostaria que houvesse um valor literário que pudesse fazer com que o livro saísse debaixo desse aspecto político, mas compreendo que isso seja eu a querer iludir-me. E isto porque estou evidentemente a lidar com uma tragédia… Tudo isto é um pouco complicado, algo tortuoso, mas sinto que também mitiga a culpa que sinto. Continuo a ter um sentimento de culpa por estar fora, e ainda mais me custa que o livro nem vá chegar à Venezuela. Mesmo que chegasse, não chegaria às mãos das pessoas, que não teriam como comprá-lo. Hoje, em muitos aspectos, nem é preciso uma censura política, basta a censura económica. Mas penso que de alguma maneira me redime um pouco face a já não lá estar. Está a ser uma experiência, humanamente, muito complexa e enriquecedora pois é impressionante a quantidade de venezuelanos que deixaram o país e que me procuram para me contar a sua história. Escuto-os com toda a atenção, todo o respeito, dando-me conta de que se trata das experiências de refugiados; são histórias terríveis. Seja como for, estou muito surpreendida com o sucesso que o livro está a ter, e para mim é muito importante saber como vai ser lido em Portugal, porque o laço com esta comunidade é muito forte nas memórias que guardo da Venezuela. Ainda consigo sentir o o cheiro das padarias quando ia para a escola. Ao voltar aqui, ouvir falar português, sendo-me familiares tantos sons e palavras, senti de novo o cerco das melhores recordações que tenho daquele que foi o meu país natal e que já não existe.

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