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Dia das Mentiras. Ameaçado no tempo da pós-verdade?
Nos anos 50, a BBC transmitiu um documentário em que esparguete crescia em árvores

Dia das Mentiras. Ameaçado no tempo da pós-verdade?

Nos anos 50, a BBC transmitiu um documentário em que esparguete crescia em árvores Cláudia Sobral 01/04/2019 10:17

Para a Microsoft, que pediu aos seus funcionários que não disseminem mentiras neste 1.º de abril, sim. Histórias não faltam sobre este dia. Desde Carlos ix, o rei francês que, sem saber, no séc. xvi tomou a decisão que quase o instituiu

Longe vai o tempo em que uma noticiazinha falsa no primeiro dia de abril poderia ser coisa para uma certa graça. Os tempos tornaram-se outros, de Facebook e de WhatsApp, de sites que, facilmente confundíveis com jornais, disseminam informações falsas que, não raras vezes, já se viu, acabam por ir parar às notícias como verdadeiras – sem que, ao contrário do que acontecia com as partidas do Dia das Mentiras, venha o seu autor retratar-se. E desmentir.

Daí que este ano, neste tempo a que já não se hesita em chamar de pós-verdade, a Microsoft se tenha apressado a pedir aos seus funcionários que evitem “mentiras” para o exterior neste 1.o de abril. Numa nota interna, a que o site The Verge teve acesso, o diretor de marketing da empresa, Chris Capossela, explica porquê: “Os dados mostram-nos que estas partidas têm um impacto positivo limitado e que podem, na verdade, resultar em ciclos de notícias indesejados”.  E acrescenta:_“Estimo que as pessoas tenham dedicado tempo e recursos a este tipo de atividade, mas acredito que temos mais a perder do que a ganhar com a tentativa de sermos engraçados neste dia”.

Dos últimos anos faltam exemplos de notícias falsas propagadas a 1 de abril. Em 2011, por exemplo, o jornal britânico The Independent noticiou que Portugal tinha vendido Cristiano Ronaldo a Espanha por 160 milhões de euros. Ou de mentiras que, não partindo de meios de comunicação, foram parar às notícias como factos, como quando a Wikipédia anunciou que eliminaria todas as suas imagens por problemas de direitos.

Na década de 1950, num caso mais inusitado, a BBC transmitiu, na sua conhecida série de documentários Panorama, um filme intitulado Swiss Spaghetti Harvest, em que agricultores suíços apareciam a colher esparguete como se a terra o desse – a estação terá sido inundada de telefonemas com pedidos de informação sobre onde se poderia comprar essa maravilhosa planta que dava esparguete, mas só no dia seguinte veio esclarecer o sucedido.

Mas casos há em que já nenhum esclarecimento vale. E exemplos há também na história de outros em que, qual história de Pedro e o Lobo, informações verdadeiras passaram por falsas em dias 1 de abril. Um dos mais catastróficos passou-se entre o Havai e o Alasca, também em tempo pré-internet, quando, a 1 de abril de 1946, os avisos de um terramoto seguido de tsunami foram ignorados por muita gente que acreditou tratar-se de uma partida. Uma “partida” que resultou na morte de 165 pessoas.

Sobre o Dia das Mentiras (Pesce d’aprile, em italiano;_April Fools’ Day, nos países de língua inglesa), reza a história, numa dessas explicações plausíveis que se apresentam para o que vem de tempos dos quais não há memória, que tudo terá começado em França, com as plaisanteries – brincadeiras que terão começado a surgir no 1.o de abril de cada ano depois da adoção do calendário gregoriano por Carlos ix de França. Até então, 1564, o novo ano era assinalado com a chegada da primavera, numa festa que se estendia de 25 de março a 1 de abril. Com a resistência de alguns franceses à mudança para 1 de janeiro, os adeptos do novo sistema começaram a fazer troça deles com partidas como, por exemplo, o envio de convites para festas que não existiam. A 1 de abril.

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