Brexit. Portugal prepara-se para o pior

Brexit. Portugal prepara-se para o pior


Até agora, o turismo foi o setor que mais sentiu as consequências do cenário de saída do Reino Unido. Mas a incerteza continua e as empresas dividem-se quanto às consequências nas exportações e importações


Não será apenas o Reino Unido a sofrer as consequências da saída da União Europeia. Também os portugueses terão de se adaptar a esta nova realidade, principalmente as empresas que apostam naquele mercado. A economia portuguesa poderá tremer e Mário Centeno deixou ontem uma garantia: Portugal já começou a preparar-se para todos os cenários.

Segundo o presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças português, o país, à semelhança da União Europeia, tem de estar preparado para os “diferentes cenários que ainda hoje se colocam face à saída”. E para responder a esta incerteza, o governo apresentou uma linha de financiamento para empresas portuguesas no valor de 50 milhões de euros que servirá como ajuda à adaptação por parte das empresas como forma de financiar planos de diversificação de mercados.

O certo é que, mesmo com a máxima preparação, o efeito do Brexit é ainda uma incógnita para o tecido empresarial, embora as perspetivas não apontem para os melhores resultados.

Um estudo feito pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) apontou para uma redução do crescimento em Portugal na ordem dos 0,2% – ainda assim, uma perspetiva mais animadora que as estimativas da Organização Mundial do Comércio, que prevê uma perda maior, de 0,4%.

Também para a Confederação Empresarial de Portugal (CIP), os efeitos serão pesados. O impacto negativo no PIB nacional pode ir de 0,5% a 1% e a previsão de quebra no volume das exportações pode chegar aos 26%.

A maioria das empresas que investem no mercado externo acreditam que as exportações de bens vão crescer cerca de 4,3% em relação ao ano passado. No entanto, segundo o mesmo estudo divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), os dados apontam para uma desaceleração face às expetativas apuradas junto das empresas, com apenas 17% a esperarem que o Brexit tenha “um impacto negativo nas suas exportações”.

O ministro Adjunto e da Economia, Siza Vieira, lembrou que “as empresas portuguesas que exportam para o Reino Unido passam a ver as suas mercadorias sujeitas a controlo alfandegário e aduaneiro e que as importações que vierem do Reino Unido passam a estar sujeitas às mesmas formalidades”.

Apreensão e incerteza As tarifas e a desvalorização da libra estão na lista das maiores preocupações da Associação Automóvel de Portugal (ACAP), uma vez que parte da produção automóvel portuguesa tem como destino o Reino Unido.

No entanto, o estudo da CIP é mais radical e afirma que este setor será um dos mais afetados, à semelhança dos produtos informáticos, eletrónicos e equipamento elétrico.

O cenário também assusta a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), que revela que este setor pode vir a sofrer algumas quebras no que diz respeito às exportações e importações. A organização mostra-se também apreensiva com as consequências de uma nova realidade noutros setores como a consultoria, na qual as barreiras ao nível administrativo podem ser um entrave.

No entanto, este não é o maior problema, uma vez que a diminuição do número de não residentes ingleses em zonas como o Algarve pode vir a ser cada vez mais acentuada e a desvalorização da libra poderá levar a uma perda do poder de compra dos britânicos.

“Consideramos que a saída do Reino Unido terá um impacto negativo inicial que os atrasos nas negociações claramente exponenciam, e poderá ter maiores ou menores impactos no médio/longo prazo dependendo muito da nossa capacidade como país de retomar as ligações comerciais bilaterais que mantivemos ao longo de séculos”, revela a entidade liderada por Vieira Lopes.

Mais otimista parece estar a Associação de Armadores das Pescas Industriais ao admitir que Portugal poderá sair prejudicado no campo das trocas, mas não será sentido nenhum efeito no que diz respeito à pesca direta. Esta visão é partilhada pela Associação Nacional das Organizações de Produtores da Pesca do Cerco, que afirmou não haver sinal para preocupação, uma vez que as pescas feitas em águas nacionais não irão sofrer alteração.

Impacto no turismo Embora todos os setores mostrem certas dúvidas quanto ao que virá a seguir, o turismo é aquele que começa já a sentir o efeito do Brexit e no qual se prevê que existam cada vez mais efeitos negativos.

O presidente da Confederação do Turismo Português (CTP) admitiu, em declarações à agência Lusa, estar preocupado com o Brexit, uma vez que os britânicos são um mercado muito importante nas regiões do Algarve e da Madeira.

O presidente lembrou a descida entre janeiro e outubro do último ano face a 2017, de 9%, e que a previsão poderá não ser a melhor. A solução? “Haver mais voos diretos e reforçar a aposta nos produtos de que os ingleses gostam. É preciso atacar cirurgicamente”, disse.

No estudo realizado pela CIP, o turismo foi também um dos setores apontados como mais afetados, uma vez que, em 2016, mais de 20% dos turistas eram ingleses, uma tendência que cresceu desde 2010 e que contribuía positivamente para o valor acrescentado bruto português.

Além da confederação, o administrador da Vila Galé Gonçalo Rebelo de Almeida explicou que a ”instabilidade conhecida no Reino Unido e a indefinição do Brexit” levaram a uma quebra das receitas geradas por parte do mercado britânico de 8%. Para 2019, “o maior receio continua a ser o Reino Unido”, confessou.

O mesmo acontece com o Grupo Pestana. Segundo o CEO do grupo, José Theotónio, a procura por estes hotéis por parte do mercado do Reino Unido diminuiu 7%. Em entrevista à Reuters, o responsável confessou prever que as receitas deste mercado possam voltar a cair, o que irá levar a uma necessidade de “ajustar preços para manter o mercado inglês”.