Uma piada depois de tanta brincadeira não tem piada


Depois da saída de Azeredo Lopes esperava-se um novo ministroda Defesa, com uma postura implacável em relação a Tancos


Às vezes dizemos uma asneira sem querer. Só pode ter sido isso que aconteceu esta semana ao ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, quando foi questionado sobre o caso de Tancos, à margem das novas instalações do Arquivo Histórico Militar. Cravinho começou por dizer que não tinha dados novos sobre o assunto e tentou desdramatizar o caso com uma piada: “Daqui por algumas décadas, tudo isso vai estar disponível no Arquivo Histórico. Nessa altura, tudo se saberá.”

Depois de tudo o que aconteceu, já não tenho dúvidas de que só daqui a muito tempo é que se saberá toda a verdade. Tudo o que todos sabiam e todos os que, sabendo de alguma coisa, nada fizeram. Por inércia, por interesse ou até por não terem percebido a gravidade deste caso – tanto do roubo como do aparecimento alegadamente forjado.

Aquilo que não é aceitável é que um ministro, em vez de reiterar que o que se pretende é saber o que aconteceu o mais rapidamente possível, remeta para daqui a umas décadas a explicação cabal deste caso. Claro que, um dia, este caso fará parte do arquivo, e aí será uma realidade distante. No entanto, o que não se quer agora é pensar nesse salto temporal, que desvaloriza e nos distancia de um roubo que põe em causa a segurança nacional e a confiança dos portugueses nas instituições. O que importa agora é saber o que se passou o mais rapidamente possível e, sobretudo, apurar responsabilidades. Responder a perguntas dos jornalistas sobre uma realidade como esta remetendo para um arquivo que existirá daqui a umas décadas é, sublinho, desviar a conversa do presente, que nada mais é do que o momento em que se tem de atuar. Com firmeza.

E estas declarações ganham ainda mais peso, uma vez que o que mais se fez neste caso, aparentemente, foi brincar. Brincar com a segurança do país e, depois, brincar com a justiça. O equilíbrio entre a desdramatização desta situação e a desvalorização é difícil, como aliás tem sido até aqui.

O anterior ministro, Azeredo Lopes, chegou mesmo a pôr em causa que o assalto a Tancos alguma vez tivesse acontecido, dando a entender uma desorganização total do Exército. Esse foi um belo exemplo de como a desdramatização facilmente resvala para a desvalorização e para a idiotice, num contexto complexo como este.

E como à mulher de César não basta apenas ser séria, além de Cravinho ter como missão tirar tudo a limpo, terá ainda de dar a entender aos portugueses que está empenhado nessa missão. Sem piadas. Depois de tudo o que tem acontecido de mau – além de Tancos, tivemos ainda as mortes nos comandos –, é preciso um ministro da Defesa que mostre ao país uma postura implacável, algo que Azeredo Lopes nunca conseguiu e que se esperava do seu sucessor.

 

Jornalista