15/12/18
 
 
Tiago Mota Saraiva 08/10/2018
Tiago Mota Saraiva

opiniao@newsplex.pt

Riace, terra de acolhimento

Riace é um município do mezzogiorno italiano, província de Régio Calábria. Numa das mais pobres, envelhecidas e desertificadas regiões da Europa, Riace tem vindo a ser um caso de sucesso no combate à desertificação, renascimento e reorganização económica a partir do acolhimento de refugiados. Os resultados estão à vista. Em 2011 inverteu o ritmo de quebra demográfica que ocorria desde os anos 50 sendo que 21% da população tinha menos de 18 anos. Hoje calcula-se que cerca de 20% da população de Riace tenha feito parte deste processo de acolhimento, de uma terra que não quis ser mais um muro para os refugiados, acolhendo-os em casas e dando-lhes condições para viver.

Este processo não é dissociável da figura do presidente do município. Mimmo Lucano distinguir-se logo em 1997 no apoio de cidadãos auto-mobilizados aos primeiros desembarques naquela costa. Em 2004 vence as eleições e, desde então, tem vindo a obter cada vez maior apoio eleitoral e visibilidade ao ponto de, em 2016, a revista Fortune identificá-lo como uma das 50 pessoas mais influentes no mundo. A visibilidade também lhe valeu várias ameaças de morte da ndrangheta, a máfia calabresa que deixou de conseguir controlar o tráfico como dantes.

Wim Wenders, autor da curta-metragem “Il volo” sobre a experiência de Riace, afirmou que o que ali se passava era mais revolucionário que a queda do muro de Berlim. Há dois meses, numa manifestação de solidariedade após o novo governo italiano ter começado a bloquear as transferências de verbas para Riace, a presidente do município de Barcelona Ada Colau declarou “aqui vê-se o acolhimento não apenas como uma questão moral, legal ou de direitos humanos mas como uma oportunidade para todos. Assim, quando se chega a Riace interrogamo-nos sobre quem é que estamos a salvar ou é salvo”, concluindo, “nós dizemo-lo, eles fizeram-no”.

A 2 de Outubro, Mimmo Lucano foi preso.

Na acusação de que é alvo, resultado de uma investigação minuciosa à sua vida, conclui-se que não há sinas de que tenha roubado o erário público. Os dois crimes de que é acusado são um alegado incentivo a que uma rapariga nigeriana a quem foi negada permissão de estadia casasse com um residente e o facto do município ter adjudicado a recolha dos lixos a uma cooperativa de refugiados, não o tendo sujeitado a concurso entre empresas.

Salvini, vice primeiro ministro italiano e líder do partido fascista, rejubilou publicamente com a prisão de Lucano. 

Arquiteto

Escreve à segunda-feira

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×