McCain. O “herói” que Trump não quis elogiar

McCain. O “herói” que Trump não quis elogiar


Na morte do senador do Arizona, a Casa Branca não emitiu a declaração já escrita por ordem do presidente 


A bandeira dos Estados Unidos no alto da Casa Branca já não está a meia haste. Foi colocada assim no sábado quando se anunciou a morte do senador John McCain, mas no domingo à noite já regressara ao cimo do mastro, mesmo quando outras em Washington ainda homenageavam o político republicano que morreu vítima de um tumor cerebral e vai a enterrar amanhã.

McCain foi um dos maiores críticos de Donald Trump e chegou mesmo a interromper um tratamento de quimioterapia para ir ao Congresso votar contra o fim do Obamacare. O presidente dos EUA não nutria amores pelo senador e chegou a dizer que o senador “não é um herói de guerra”, daí que o seu tweet em que lamenta a morte do político republicano seja de condolências para a família e nada tenha sobre o próprio.

De acordo com o “Washington Post”, a equipa da Casa Branca chegou a ter uma declaração preparada para louvar o senador na sua morte, onde se fazia referência ao seu heroísmo, mas o chefe de Estado recusou, dizendo aos seus conselheiros que preferia escrever uma mensagem no Twitter em vez disso.

A secretária de imprensa, Sarah Huckabee Sanders, o chefe de gabinete, John F. Kelly, e outros altos membros da administração defenderam a declaração, que fazia referência ao facto de o senador do Arizona ter sido um militar veterano condecorado, prisioneiro de guerra, ao mesmo tempo que reconhecia o seu papel político e lhe chamava “herói”. O rascunho da declaração foi escrito antes do anúncio da morte e Sanders editou a versão final para o presidente divulgar, só que Trump preferiu não o fazer – não iria chamar herói na morte a quem em vida fez questão de dizer que não o era. Em 2015 afirmou: “Ele é um herói de guerra porque foi capturado. Eu gosto de pessoas que não são capturadas”.

Como habitual, Trump veio depois dizer que não tinha dito o que tinha dito, mas pelos vistos, tendo em conta a sua reação agora na hora da morte, o chefe de Estado parece continuar a não concordar que McCain fosse realmente o verdadeiro herói americano que todos falam.

Ao mesmo tempo que de um lado e do outro do espetro político americano se elogiava a figura do senador do Arizona, falecido no sábado aos 81 anos, Trump escrevia duas linhas de Twitter, passava o domingo a jogar golfe na Virgínia e ordenava que segunda-feira de manhã a bandeira deixasse de estar a meia haste.

“É atroz”, definiu Mark Corallo, antigo porta-voz da equipa de advogados de Trump, citado pelo “Washington Post”. “Num momento como este, espera-se mais de um presidente americano quando se está a falar de um verdadeiro herói americano”, explicou.

A atitude de Trump contrasta com a de todos os outros que passaram pela Casa Branca e ainda estão vivos. Sem exceção, os ex-presidentes dos EUA, republicanos e democratas, emitiram declarações a louvar a figura do senador, um homem de “serviço militar heroico”, como referiu Jimmy Carter. Algo que também é sublinhado por Bill Clinton. “Poucos de nós fomos testados da forma que John foi testado ou se nos exigiu o mesmo tipo de coragem que a ele”, escreveu Barack Obama.

Tanto Bush pai como Bush filho sublinharam as profundas convicções e o patriotismo de McCain. “Poucos sacrificaram mais ou contribuíram mais para o bem-estar dos seus concidadãos”, sublinhou George H. W. Bush.

O veterano político republicano, eleito para seis mandatos como senador, candidato a presidente por duas vezes, sempre foi uma voz independente dentro dos republicanos. Filho e neto de almirantes, foi piloto naval e como tal derrubado durante uma missão de bombardeamento de Hanói – passando cinco anos e meio como prisioneiro de guerra. Conservador, admirador de Reagan, concordava com as políticas da atual administração, discordava sobretudo com aquilo que via como o espetáculo público de indecência de Trump.

Querendo garantir a última palavra, McCain planeou o seu próprio funeral e esse não vai incluir o atual líder da Casa Branca por sua vontade expressa. Pelo contrário, vai ter Barack Obama e George W. Bush a ler elogios fúnebres. Uma última bofetada de luva branca ao atual chefe de Estado – ao ter no sábado -, um ex-presidente democrata e outro republicano a discursar na catedral de Washington, o senador demonstrou que as pessoas podem ao mesmo tempo ser adversárias políticas e respeitar-se no debate e nas diferenças.