“Os Maias” e a Abelha Maia


O livro de Eça é elitista, classicista e eurocêntrico. Já para não referir que foi escrito por um homem branco, heterossexual, europeu e – pior! – de bigode


Parece que o clássico de Eça de Queiroz já não é obrigatório e que chovem críticas. Se é verdade que tiraram o calhamaço dos olhos da rapaziada no ensino secundário, acho bem, pelas razões principais que vou enumerar, começando por dizer, à Salcede, que a decisão é “chic a valer”. Para começar, o livro é enorme e demora a ler que se farta, e a malta não tem pachorra nem tempo para tanta página, tanta descrição, tanta genealogia, e mais as árvores de Sintra e os azulejos do Ramalhete, os jantares ao Chiado e coiso e tal, tudo uma seca, um ror de palavras e de páginas, e um pobre adolescente a ver o telemóvel a piscar-lhe o olho, cheio de mensagens, posts, imagens e outras coisas mais interessantes e rápidas do que as filosofias parvas do João da Ega. É verdade que a rapaziada sabe – pela badana ou pelos resumos do Professor Reis – que lá pelo meio há uns adultérios e um incesto, e alguma estroinice, mas até lá chegar demora tanto, e um colega mais marrão que já leu revelou que a coisa tem pouca ação e não vale o esforço. Em suma, a rapaziada em geral não aprecia o livro, logo deve ser banido, pois, como se dizia dos alferes e dos cadetes do Sidónio, o melhor regime é a fedelhocracia.

Por outro lado, o livro pesa e mata as costas dos infantes, e as mochilas já vão carregadas com coisas bem mais importantes, nomeadamente um nunca mais acabar de manuais disto e daquilo, muito material para dezenas de atividades extracurriculares, e até talvez uma agenda para mensagens entre professores e pais, mais os lanches, as vitaminas, os suplementos, a garrafa de água e, claro, o telemóvel. Além disso, o livro é elitista, classista e centralista, e é eurocêntrico. E é muito misógino, trata mal as mulheres, coisifica-as, algumas são adúlteras e/ou fúteis, e, cúmulo dos cúmulos, a protagonista acaba na cama com o irmão, o que não é coisa que se apresente aos olhos da rapaziada nos tempos modernos. Para já não falar no facto de o livro ter sido escrito por um homem, branco, heterossexual, europeu e – pior! – de bigode.

E restam, neste meu resumo apertado, quatro pecados que o livro comete e que justificam que seja banido (451 Fahrenheit para já talvez não): um, o livro recorre bastante à ironia, e isso cansa a cabeça e abala o espírito, o que não é saudável; dois, o livro parece o retrato chapado do Portugal de hoje, e para isso não é preciso cansar os olhos com tanta página; três, o final da obra é ambíguo, e os tempos não gostam de ambiguidades ou dúvidas, ou é sim ou sopas, e passa adiante; quatro, o velho Maia tem um gato, e isso de ter bichos aprisionados em casa é um escândalo. Se querem bicharada, então ponham no plano de leitura o livro do Bonsels (qualquer tradução mediana serve), o que trata das aventuras da querida abelha da minha infância. Tem um ou outro pecadilho, mas muito menos do que o enfadonho, difícil e degenerado “Os Maias”, acaba bem, e até tem a D. Cassandra, afável e educativa professora, com a qual dá para tirar uma boa selfie. Fixe, não?

 

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