26/9/18
 
 
José António Saraiva 11/06/2018
José António Saraiva
Opinião

jose.a.saraiva@newsplex.pt

Os privilégios de Ronaldo

Numa reportagem sobre um treino da Selecção portuguesa, ouvi estupefacto o jornalista explicar que Cristiano Ronaldo não se tinha treinado como os outros - pondo-se de fora, evitando os choques, não se esforçando na procura da bola. E tudo isto de uma forma ostensiva e com o aval da equipa técnica.

Pensei que isto não fosse possível.

Sempre admiti que nem todos os jogadores dessem o máximo nos treinos, até para evitar lesões que os pusessem fora da equipa. Mas isso acontecer às claras, à vista de todos - colegas e treinadores -, é chocante.

Compreenderia a situação se Ronaldo estivesse a recuperar de uma lesão e tivesse receio de piorar. Ou se fosse poupado pelo facto de, nesta época, ter mais jogos nas pernas do que alguns colegas. Ou se fosse mais velho e precisasse de mais descanso. Mas nada disto se passa. William Carvalho veio de uma lesão e treina como os outros. Bruno Fernandes fez mais jogos do que Ronaldo e treina como os outros. E Pepe é mais velho do que Ronaldo e treina como os outros. O que justifica, então, a poupança de Ronaldo?

Justifica-se pelo facto de ter mais estatuto e teoricamente ser mais imprescindível do que os outros. É como se o seleccionador dissesse: “Todos os outros podem magoar-se que não vem daí mal ao mundo, o Ronaldo é que não pode”. Ou seja: os outros são dispensáveis, Ronaldo é indispensável.

Ora isto num grupo tem um péssimo efeito. Os colegas até podem compreender, até podem aceitar pacificamente a situação, mas subconscientemente isso destrói o espírito de grupo. E diminui a autoestima de cada um - porque se sente pouco importante, descartável, sendo obrigado a treinar no duro enquanto um colega está de fora a descansar.

É por estas e por outras que as vedetas por vezes estragam as equipas. E é por estas e por outras que José Mourinho tem por vezes conflitos com as vedetas que treina. Mourinho quer que eles sejam iguais aos outros - e eles querem ter um estatuto diferente.

Compreende-se que uma estrela, que ganha muitos milhões por ano, que tem o lugar na equipa garantido, queira evitar situações que possam atirá-la para fora da competição ou mesmo acabar-lhe com a carreira. 

Também é natural que os mais novos, que querem mostrar-se, que querem conquistar um lugar no onze principal, se esforcem mais, arrisquem mais. 

Tudo isto é natural. Mas tem de ser feito com discrição. Não pode ser ostensivo. Não pode colocar uns na situação de filhos e outros na de enteados. Não pode haver os têm de esforçar-se para jogar e os que mesmo sem treinar jogarão sempre.

Fernando Santos tem dito repetidamente que jogam os melhores. Um dia que deixe Ronaldo no banco, ou substitua Ronaldo durante um jogo por estar a jogar mal, acreditarei verdadeiramente nisso. Até lá, julgo que nem todos são iguais. E isso é muito mau sob todos os pontos de vista.

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