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Diretor-geral da OMS. “Portugal tem um dos poucos bons sistemas de saúde do mundo”

Diretor-geral da OMS. “Portugal tem um dos poucos bons sistemas de saúde do mundo”

AFP Marta F. Reis 06/06/2018 20:42

Atividade física para reduzir despesa no SNS? Será algo crucial para a sustentabilidade dos sistemas de saúde, diz Tedros Adhanom Ghebreyesus

Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial de Saúde, esteve esta semana em Portugal para o lançamento de uma campanha mundial de promoção de exercício físico e não estranha a mensagem de António Costa, que defendeu que mais atividade significará mais saúde e menos encargos no SNS. Natural da Etiópia, o primeiro líder africano da OMS diz que o sistema de saúde em Portugal é dos poucos bons no mundo, mesmo que haja sempre margem para melhorar. E é duro com a indústria tabaqueira: novos produtos não visam promover a saúde dos fumadores mas manter o negócio.

O que levou a OMS a escolher Portugal para o lançamento do Plano de Ação Mundial para a Promoção da Atividade Física 2018-2030?

Houve duas razões. Por um lado terem um Serviço Nacional de Saúde, algo previsto na vossa Constituição e implementado em 1979. Por outro lado, o governo está empenhado no combate às doenças não transmissíveis e a atividade física faz parte desse movimento, tal como a luta contra o tabaco. Vimos um compromisso forte do lado do governo, inclusive no reconhecimento desta necessidade de combater a falta de exercício físico.

Esses esforços já eram visíveis antes de vir cá?

Sim, completamente. Sabíamos de medidas como o imposto sobre o açúcar que Portugal introduziu ou o imposto sobre o sal.

Esse acabou por não avançar no parlamento.

Sim, mas era certo ir por aí. E no caso do tabaco também têm adotado os instrumentos da OMS: Portugal foi um dos países que ratificaram o protocolo para a eliminação do comércio ilícito de tabaco. Está a combater as doenças não transmissíveis e essa mudança está a acontecer nos cuidados de saúde primários, que é algo que nos interessa muito. Fui visitar o centro de saúde da Baixa (Lisboa) e os médicos já prescrevem exercício físico à população, é algo que já está no sistema de saúde.

O primeiro-ministro português disse que os portugueses estão convocados para fazer mais exercício físico para serem mais saudáveis e assim poupar encargos ao SNS. Os políticos devem usar este tipo de argumentos financeiros?

É verdade. Se pudermos focar-nos nestes fatores, levar as pessoas a tornarem-se mais ativas, se as pessoas evitarem tabaco, moderarem o consumo de açúcar e sal, haverá menos doença e isto significa que se poupará não só vidas mas também dinheiro, dinheiro que se gastaria na gestão de doença cardiovascular, AVC, cancro.

Mas o argumento não pode ser contraproducente? Pessoas com hábitos muito saudáveis também adoecem e precisam de um sistema robusto, que não pode estar dependente dessas poupanças.

Claro que haverá sempre pessoas doentes, mas haverá menos pessoas doentes e isso fará com que exista mais dinheiro disponível.

Acredita que será algo crucial para a sustentabilidade dos sistemas de saúde?

Sem dúvida. Penso que é essencial reduzir os custos com doenças não transmissíveis para garantir a sustentabilidade. Se as pessoas tiverem hábitos mais saudáveis, os sistemas de saúde estarão menos sobrecarregados.

Uma campanha nacional dirigida a mulheres fumadoras com mensagens como “as princesas não fumam” foi considerada sexista por alguns críticos. Como vê o impacto deste tipo de controvérsias na promoção da saúde?

Claro que temos de ter cuidado com as mensagens que transmitimos, há ideias que podem estar bem para umas pessoas e não estar bem para outras e devemos garantir que as mensagens estão de acordo com os valores em que acreditamos. Agora não há dúvidas de que fumar é um fator de risco para a saúde. E em Portugal, em particular, os homens estão a fumar menos mas o tabagismo está a aumentar entre as mulheres. Dirigir mensagens às mulheres é importante. Agora fumar não é bom para ninguém, homens ou mulheres. Quando uma pessoa fuma, na realidade está a pagar para ficar doente. O tabaco não causa só cancro do pulmão mas também doença cardiovascular e AVC, o que foi um dos alertas do Dia Mundial Sem Tabaco. E acho que nos devemos interrogar: porque é que alguém pagaria para ficar doente? Como é que pessoas conscientes o fazem?

É uma dependência. 

É uma dependência mas pode ser revertida. Medidas como consultas de cessação tabágica, como já existem por exemplo nos centros de saúde em Portugal, são algo importante.

Parece haver ainda assim algum conflito entre este combate ao tabagismo e o aparecimento de novos produtos, como o tabaco aquecido e sem fumo ou os cigarros eletrónicos. 

O tabaco, seja qual for a forma, é um erro, tenha ou não tenha fumo. Não há qualquer uso aceitável, tem sempre consequências para a saúde. A indústria do tabaco tem estado à procura de alternativas mas não é pela saúde das pessoas, é para continuar a sua atividade. A OMS não apoia nenhum produto à base de tabaco.

O tabaco continua à venda de forma livre, ao contrário de outras substâncias que foram sendo declaradas ilícitas. Que medidas lhe parecem mais eficazes para restringir o acesso?

Acho que o passo mais importante é continuar a consciencializar as pessoas. Em segundo lugar, aumentar impostos. Isto tem levado à diminuição do consumo em muitos países e, por outro lado, as receitas fiscais podem financiar atividades nos cuidados de saúde. Há bons sinais, como haver cada vez mais espaços públicos em muitos países livres de fumo.

Há dez anos a OMS adotou a política de não recrutar funcionários fumadores. Mantêm essa prática?

Sim, é a política implementada. 

Tem havido algum debate em Portugal sobre o futuro do SNS. Há quem defenda um reforço do serviço público, cortando parcerias com privados, e há quem seja favorável a um sistema cada vez mais misto. O que funciona melhor até em termos de sustentabilidade?

Em termos de sustentabilidade o importante é reduzir custos e centrar os esforços nas doenças que custam mais dinheiro. Nesse sentido, se Portugal apostar mais em promoção da saúde e no reforço dos cuidados primários, vai reduzir as doenças não transmissíveis que são as que representam mais custos para o sistema. Introduzir impostos inteligentes, taxar o tabaco, o açúcar, o álcool, faz sentido. Quanto ao resto, a parceria entre público e privado é importante.

Há quem contra-argumente que não é desejável, pois os parceiros privados terão sempre uma motivação financeira, a preocupação em obter lucro.

Sim, mas a iniciativa privada pode ser regulada. Penso que há áreas em que pode haver cooperação para garantir uma maior acessibilidade da população aos cuidados de saúde, deve ser essa a preocupação.

Um sistema exclusivamente público tem mais dificuldade em fazê-lo?

Há vários modelos, públicos, mistos. No fim do dia, aquilo em que acreditamos na OMS é que os pagamentos que são feitos pelas pessoas do seu próprio bolso, os chamados pagamentos out-of-pocket, devem ser eliminados ou mínimos e apenas para quem os pode pagar.

Os últimos dados disponíveis mostram que Portugal é dos países europeus onde as despesas com saúde mais são suportadas diretamente pelas famílias, com esses pagamentos out-of-pocket a representar 30% dos gastos a nível nacional com consultas, medicamentos e tratamentos. É um indicador que deve merecer preocupação?

Para a OMS, esse é o indicador-chave. Não conheço os números para Portugal mas irei analisá-los.

É natural da Etiópia, onde a esperança de vida ronda os 64 anos, quase menos 20 anos do que em países como Portugal. Que ideias lhe vêm à cabeça quando visita países como o nosso? Como é que se promove a equidade no acesso à saúde?

Portugal tem um dos poucos bons sistemas de saúde. As pessoas conseguem queixar-se mesmo de coisas boas, porque as têm na mão. Dito isto, qualquer sistema de saúde pode melhorar. Ter um serviço nacional de saúde consagrado na Constituição é algo que procuramos que outros países venham a implementar de forma a garantir acesso à saúde a todos os seus cidadãos. Conseguirmos algum dia um cenário de equidade no acesso à saúde será algo muito difícil, depende de muitos fatores. Os países têm diferentes níveis de desenvolvimento mas na OMS estamos empenhados em ajudá-los a preencher essas lacunas. Cada país tem de assumir isto com uma responsabilidade sua mas também tem de haver um esforço global.

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