25/9/18
 
 
Alfredo Barroso 04/06/2018
Alfredo Barroso
Cronista

opiniao@ionline.pt

Não querem morte assistida, querem assistir à morte, será isso?

Com as drogas de que dispomos não vai morrer imediatamente, mas também não vai levar muito tempo a ir desta para melhor. Porque vamos parar de lhe dar todos os medicamentos que combatem a sua doença, o que, inevitavelmente, vai apressar e causar a sua morte

1) Um doente terminal quer acabar de vez com o seu terrível sofrimento e que o ajudem a encurtar a vida por alguns dias, semanas ou meses? Não senhor, era o que faltava, “vocência” não tem querer! Mas não se rale que vai morrer na mesma! Vamos cortar-lhe os medicamentos contra a sua doença fatal, que lhe prolongariam inutilmente a porcaria de vida que tem, aí deitado, e vamos limitar-nos aos “cuidados paliativos”, isto é, vamos enfrascá-lo enquanto ainda “mexe”, designadamente com injecções, comprimidos, pílulas, o diabo, contra a dor, que o põem pura e simplesmente KO, em estado de brutidão quase vegetativa, até bater a bota de vez! Descanse que nós ficamos aqui a assistir, mas veja lá se não demora muito a morrer, porque nós não temos mãos a medir. Se julga que é a única pessoa que se quer matar por saber que tem uma doença fatal e estar condenado a morrer mais dia menos dia, pois está muito enganado! Isto é uma canseira, porque são mais que as mães, mas temos uma cabazada de drogas capazes de transformar esta enfermaria numa espécie de cemitério de mortos-vivos! De facto, não queremos conceder-lhe o que nos pede - a morte assistida -, mas queremos assistir à sua morte sem grandes problemas de consciência. Com as drogas de que dispomos não vai morrer imediatamente, mas também não vai levar muito tempo a ir desta para melhor. Porque vamos parar de lhe dar todos os medicamentos que combatem a sua doença, o que, inevitavelmente, vai apressar e causar a sua morte. Mas olhe que esta não será uma morte assistida, será, isso sim, uma morte induzida por omissão, para “vocência” levar mais um tempinho a morrer, e nós a assistirmos sem qualquer problema de consciência. Paramos com o tratamento da sua doença mas não o matamos, já percebeu, caramba?! E agora deixe-se de lamúrias e toca a dormir, porque vamos injectar-lhe uma dose cavalar duma droga qualquer, que nem sequer lhe permitirá ver estrelas...

2) E as religiões, ai as religiões?! Juntaram-se uma porção delas numa “santa aliança” em defesa da vida, contra a morte assistida, afirmando que todos os que a praticam são criminosos e devem ser punidos. Todavia, quantas guerras santas, quantas carnificinas, quantos massacres, quantos banhos de sangue, quantos genocídios têm sido praticados por elas ou em nome delas ao longo da história da humanidade (HH, como Heinrich Himmler) e se prolongam, desgraçadamente, até aos nossos dias, sempre em nome duma verdade absoluta que querem fazer-nos crer que é a única, mas que difere conforme a religião que a reivindica?! Por exemplo, há a verdade dos católicos de rito romano, assim como a dos católicos de rito bizantino, e a dos ortodoxos, e a dos protestantes, e a dos judeus, e a dos muçulmanos (e é óbvio que estou a esquecer-me de várias outras verdades), que a proclamam - como diria Camilo - com um grande “charivari de trompões fortes” e armas assassinas. Sabem o que disse o cristão renascido George W. Bush a propósito das invasões do Afeganistão e do Iraque? Eu cito: “Deus disse-me para ir para a guerra contra o Afeganistão e contra o Iraque!” E sabem o que disse Tony Blair, cristão subitamente fervoroso? Eu cito: “Rezei a Deus quando tive de decidir se devia ou não enviar tropas do Reino Unido para invadir o Iraque!” Digo-lhes que fizeram os dois um lindo serviço, aparentemente decidido na cimeira-fantoche dos Açores, sob os auspícios da vergonhosa aliança política ibérica entre Durão Barroso e José María Aznar. Tudo gente que é contra a eutanásia, a interrupção voluntária da gravidez, a fornicação fora do casamento, o adultério da mulher mas não o do marido, e outros “sacrilégios” previstos, por exemplo, no catecismo da Igreja Católica - mas não hesitam em massacrar com bombas de “último modelo” milhares de civis inocentes (velhos, mulheres e crianças, como se costuma dizer) e em humilhar e torturar prisioneiros em prisões clandestinas situadas em países aliados, regra geral submetidos a regimes ditatoriais. E já nem falo, por exemplo, das decapitações que se praticam na Arábia Saudita e pelo Daesh. 

Eutanásia uma ova, Deus não quer! Assassínios, massacres, decapitações, isso sim, que se lixe Deus! E quantos não terão implorado o golpe de misericórdia nos campos de batalha ou nas cidades bombardeadas, conseguindo desse modo uma “morte assistida” praticada pelos soldados de Deus - tanto os das cruzadas cristãs como os da jihad islâmica. Meu Deus, meu Deus, porque os abandonaste? De facto, se Ele existe, parece que assiste a tudo isto impávido e sereno…

 

Escreve sem adopção das regras 

do acordo ortográfico de 1990

 

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